Por que ser feminista é cada dia mais importante?

Por que ser feminista é cada dia mais importante?

Emanuela Carvalho*

08 Março 2017 | 05h00

Simone de Beauvoir. Foto: ROBERT DOISNEAU

Simone de Beauvoir. Foto: ROBERT DOISNEAU


1975. Na TV, uma entrevista de Simone de Beauvoir sobre o porquê de ser feminista.

Em quase 50 minutos a pensadora, que não aparece com tanta frequência na televisão, fala sobre o seu mais marcante livro, que foi escrito como um ensaio: “O
Segundo Sexo”, publicado há 25 anos.

O entrevistador se refere à importância de “O Segundo Sexo” para o feminismo, assim como “O Capital” está para os comunistas. Diz que muitos acharão a comparação
desproporcional, por desconhecerem ou não acreditarem no poder que terá o feminismo nos tempos futuros. Por mais difícil que seja resumir o livro, ele escolheu discutir a
frase “ninguém nasce mulher. Torna-se mulher”. A primeira parte da entrevista gira em torno da defesa de que não há um destino biológico ou psicológico que defina a mulher
tal como ela é, afinal, ser mulher é o resultado de uma história. A história da civilização, a história individual de cada uma, a sua infância, a forma como foi criada, algo que
defina a sua feminilidade.

Nessa longa e interessantíssima entrevista, Simone passeia por temas como opressão, citando, por exemplo, o período difícil em que havia fome na China, as meninas eram assassinadas e as mulheres proibidas de participar da produção – já que só aos homens era dado o direito de deter o poder econômico. Pessoalmente traz o exemplo de que não quis casar e ter filhos – viveu uma relação aberta com o filósofo Jean-Paul Sartre – , então não foi submetida à opressão feminina da vida doméstica. Surpreendentemente, ela afirma que muitas mulheres não são feministas. O grito de liberdade veio apenas de algumas. Muitas ainda têm uma atitude passiva diante da situação da mulher na sociedade. Em grande parte, as mulheres estimulam esse comportamento e essa forma de pensar quando são mães, porque foram criadas por mães que pensavam da mesma forma, assim reproduzem a educação repressora aos seus filhos e filhas.

A necessidade de uma independência financeira da mulher também é discutida, já que muitas ainda se dedicam somente a cuidar da família, sem pensar em investir numa profissão. E são estimuladas a isso, a serem boas donas de casa. Quando decidem trabalhar, ter uma profissão, cumprem jornada dupla, porque ao voltar à noite para suas casas, há as tarefas domésticas designadas socialmente às mulheres, não vendo os homens razão para dividi-las com as suas esposas.

Mas estamos em 1975. Não. Estamos em 2017. E, hoje, ser chamada de feminista tem uma carga caricata, quando não agressiva e pejorativa. Aos homens ainda é dada a maior parte do poder econômico já que nós, mulheres, ganhamos em média 30% a menos do que eles, mesmo exercendo as mesmas funções. E nesse sentido vale a pena discutir sobre a importância de homens e mulheres dividirem as despesas, e perceber o quanto é injusto dividi-las igualmente, se ganhamos menos.

Às mulheres ainda são dedicadas, em sua maioria, as atividades domésticas e de cuidado com os filhos. Não raro, homens que assumem esse papel são elogiados, como se estivessem fazendo algo transcendental. Sem esquecer que em 40% dos lares, elas são provedoras, chefes de família.

Sobre a sexualidade, nunca é demais repetir: as mulheres ainda são educadas para terem pudor, serem recatadas, não demonstrarem os seus desejos, sob o risco de serem julgadas.

Se viva, Simone teria 109 anos. Os seus textos, o seu pensamento, não poderiam ser mais atuais e necessários. Feminismo não é frescura, “mimimi”, é um movimento capaz de chamar a atenção da sociedade para questões que muitas vezes parecem simples, mas não são. O machismo impera. É difícil resistir, porque até nisso querem nos subjugar, desmerecendo as nossas razões para lutar pela igualdade. Como se ela existisse e nós não a enxergássemos.

Enquanto houver homens que pensem e defendam que as mulheres precisam ganhar menos porque engravidam; e mulheres que apoiem esse pensamento, estaremos longe da igualdade com que sonhamos.

Enquanto houver mulheres que tenham vergonha ou se sintam ofendidas por serem chamadas de feministas e homens que utilizem esse título de maneira agressiva para atingir as mulheres que lutam pela igualdade de direitos, seremos nós – feministas – cada vez mais necessárias.

Link da entrevista de Simone de Beauvoir:

*Emanuela Carvalho é professora e autora do livro “Antes Feliz do que Mal Acompanhada”

Mais conteúdo sobre:

Artigo