Por que precisamos de mais mulheres nos altos escalões do serviço público?

Por que precisamos de mais mulheres nos altos escalões do serviço público?

Aline Mendes e Patrícia Florêncio*

08 de março de 2021 | 07h30

Aline Mendes e Patrícia Florêncio. FOTOS: DIVULGAÇÃO

O Mês da Mulher é uma ótima oportunidade para jogar luz sobre a presença feminina nos altos escalões do serviço público brasileiro. Basta dar uma rápida olhada no percentual de mulheres no país – 51,8% -, para perceber que a ausência delas em cargos de liderança na administração pública é mais gritante do que a presença propriamente dita.

Os números falam por si. Apesar do maior envolvimento das mulheres em funções públicas de tomada de decisão, o caminho ainda é longo para alcançar a igualdade de gênero no Brasil: elas representam apenas 16% das composições das Câmaras Municipais, 15% da Câmara dos Deputados e do Senado, 15% das Assembleias Legislativas e 12% das prefeituras.

Ao fazermos uma análise em relação às eleições anteriores, deparamos com alguns avanços, como o aumento de 51% no número de deputadas federais. Os percentuais de representatividade de deputadas estaduais e vereadoras também cresceram. Por outro lado, o número de senadoras se manteve estável, assim como o de prefeitas.

Mas ainda é muito pouco. É preciso avançar mais. Em números absolutos, são 9 mil vereadoras, enquanto os homens conquistaram 47,3 mil cadeiras. Mais de 900 cidades não tem nenhuma vereadora e em apenas 44 municípios as mulheres são maioria nas Casas Legislativas. Como teremos uma sociedade mais igualitária se as esferas de poder não são o espelho da população?

Não é à toa que o país ocupa a antepenúltima posição na América Latina no ranking da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mulheres na política. O estudo avaliou quesitos como: exercício do direito ao voto, Poderes, partidos políticos, governos locais, compromissos nacionais, cotas e paridade política. Uma das conclusões é que, embora haja compromissos para aumentar a participação feminina na política, as medidas ainda são insuficientes e ineficazes.

Eis algumas barreiras a serem superadas para a mulher ser inserida na vida pública: violência política de gênero, estruturas partidárias predominantemente masculinas, falta de apoio dos próprios partidos políticos a candidatas mulheres, inexistência ou auxílio financeiro limitado – embora haja cota determinada por lei -, e o cuidado com a casa e a família.

Os percentuais de representatividade feminina em cargos de liderança também estão aquém em outros cargos de gestão do setor público. Apesar de ter ocorrido um minúsculo crescimento no percentual de secretárias municipais nas 26 capitais – de 22% (em 2017) para 28% -, se olharmos para a outra ponta, podemos verificar que 72% dos homens ocupam cargos de primeiro escalão nas prefeituras. É incontestável que a ausência de mais mulheres nessas posições, dificulta a abertura de oportunidades para outras mulheres em outras funções de liderança, como direção, gerência, coordenação e chefia de departamento, impactando diretamente na construção e implementação de políticas públicas mais plurais.

Já no universo do serviço público federal, dados publicados pela Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental (Anesp), referentes a 2018, mostram que, do total de cargos de Direção e Assessoramento Superior, as mulheres ocupavam 43%. Em uma análise geral, elas estão bem representadas até o nível 3. No entanto, a partir do nível 4, quando a posição de liderança se concretiza efetivamente, percebe-se uma diminuição da participação feminina nos cargos de confiança. No nível 6, elas representam apenas 17%.

Mas por que a presença feminina nos altos escalões é tão primordial? Nos valemos de uma declaração do secretário-geral da ONU, António Guterres: a liderança e a tomada de decisões das mulheres não são um favor para as mulheres. São essenciais para a paz e o progresso de todos.

É sabido também que as políticas públicas moldam as decisões que afetam tanto homens quanto mulheres. Por isso, é tão preponderante que as vozes das mulheres sejam ouvidas e a perspectiva delas incluída nos processos de construção da sociedade – e não somente a visão masculina -, trazendo, assim, maior diversidade aos debates.

“Mulheres na liderança: Alcançando um futuro igual em um mundo de Covid-19”  é o tema escolhido pela ONU mulheres em 2021. Neste Dia Internacional da Mulher, é tempo de celebrarmos os enormes esforços delas na construção de um futuro mais igualitário e na recuperação da pandemia. Ainda que as mulheres liderem apenas 22 países, respostas de algumas delas ao combate ao coronavírus ganharam manchetes no mundo inteiro.

Tomamos a liberdade de parafrasear uma conhecida citação da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie: precisamos encorajar mais mulheres a se atreverem a mudar o mundo e jamais permitir retrocessos no que tange a igualdade de gênero. Qualquer um de nós – homens e mulheres – pode dar o exemplo. O que você pode fazer?

*Aline Mendes é jornalista e servidora pública; Patrícia Florêncio é gestora pública e mestre em e-gov e inovação. Ambas são Master em Liderança e Gestão Pública, do CLP – Liderança Pública, ativistas pela igualdade de gênero e cofundadoras da Rede Mulheres Públicas

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