Por que precisamos da cidade perto de casa?

Por que precisamos da cidade perto de casa?

Marina Bragante*

10 de novembro de 2020 | 05h00

Marina Bragante. FOTO: DIVULGAÇÃO

Você já parou para pensar quanto tempo da sua vida é gasto se deslocando de casa para o trabalho? Diversas pesquisas já buscaram responder essa pergunta. Em São Paulo, as viagens dos paulistanos pela cidade chegam a uma média de quase 3 horas por dia. 3 horas por dia em deslocamento!

Esse é um precioso tempo que desperdiçamos todos os dias e que afeta de modo mais intenso aqueles que precisam do transporte público. Mas vou além, porque esse tempo perdido também tem relação direta com a desigualdade social de São Paulo.

Dou um exemplo para explicar. Utilizando o transporte público, uma pessoa do Itaim Bibi chega no trabalho em 45 minutos, em média. Já uma moradora da Cidade Tiradentes pode levar mais de 2h30 nesse percurso.

Isso tudo tem um porquê. Os locais de moradia e de trabalho estão distribuídos de maneira desigual pela cidade. Estão desarticulados, ou seja, não há um planejamento para aproximar os dois locais onde passamos a maior parte do dia: casa e emprego.

Mas e se houvesse uma forma de deixar tudo mais próximo do nosso lar, e não apenas o trabalho? E se áreas de lazer, bibliotecas, unidades de saúde, escolas, supermercados, comércios, enfim, e se tudo aquilo que precisamos para viver estivesse a alguns minutos do lugar onde moramos? E se pudéssemos acessar todos os serviços de São Paulo em 15 minutos?

Uma São Paulo em 15 minutos permitiria que todas as pessoas tivessem perto da sua casa: trabalho, comércio, lazer, atendimento médico e qualquer outro serviço essencial. Com bairros multifuncionais é possível praticar atividades físicas, comprar comida e ir a um evento cultural, tudo na mesma região.

E isso precisa ser articulado, também, com a mobilidade urbana. Favorecendo o pedestre, o ciclista e a integração com os modais de transporte público, tiramos a prioridade do carro, que, convenhamos, não tem nos levado a um bom lugar e nem nos dado um bom ar para respirar.

A boa notícia é que essa possibilidade não apenas já foi pensada, como também está sendo colocada em prática. A cidade de Paris mostra que é possível articular políticas públicas e incentivos para empresas, de modo a garantir uma melhor qualidade de vida para os cidadãos.

A proposta de uma “cidade de 15 minutos” levou Anne Hidalgo ser reeleita prefeita de Paris, em junho deste ano. No cargo desde 2014, ela agora terá mais 6 anos de mandato para continuar as mudanças na cidade. Sua recondução ao cargo mostram não só como a medida é aplicável na prática, como também que a população referendou essa proposta.

São Paulo não é Paris. Aqui temos particularidades e desafios muito maiores. A desigualdade social, por exemplo, é um fator que afasta negócios, comércios e outros equipamentos de determinadas regiões da cidade, principalmente nas periferias.

Mas é possível articular poder público e iniciativa privada em um eixo estratégico de desenvolvimento que fomente uma melhor distribuição de recursos e opções pelos bairros da capital. É preciso ter a coragem, a sensibilidade e o planejamento necessários para fazer acontecer.

A cidade é uma potência, e devemos ter uma configuração ativa para solucionar problemas crônicos de São Paulo. Otimizando o tempo dos nossos deslocamentos podemos conviver mais com nossos familiares, ter mais tempo para lazer ou para descansar, valorizando o que nos faz bem. Em resumo, uma São Paulo em 15 minutos significa uma cidade mais humana e melhor para todos nós!

*Marina Bragante, mestre em Administração Pública pela Universidade de Harvard, formada em Psicologia pela PUC-SP. Foi chefe de gabinete da deputada estadual de São Paulo pela Rede Marina Helou, coordenadora executiva do gabinete de Floriano Pesaro (PSDB-SP), secretária adjunta de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, trabalhou na Câmara Municipal de São Paulo e na Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento do município de São Paulo. É líder do movimento Vamos Juntas, líder RAPS (Rede de Ação Política para a Sustentabilidade) e foi aluna do Renova BR

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