Por que os FIDCs estão deslanchando no Brasil?

João Paulo Fiuza*

28 de outubro de 2019 | 15h00

Na década de 70 surgiu o termo securitização nos Estados Unidos, porém, somente na década de 80 que apareceram as primeiras operações de securitização de ativos no Brasil realizadas por empresas com emissões fora do país. Desde então, a estrutura deste tipo de operação vem evoluindo nacionalmente na mesma medida em que o empresariado brasileiro descobre o potencial dessa alternativa de crédito em relação às tradicionais instituições financeiras.

Em 2001, por meio da resolução 2.907, o Conselho Monetário Nacional aprovou a criação dos Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDCs) como uma nova forma de captação de dívida. O instrumento de securitização, benéfico para o mercado de crédito brasileiro assim como se apresentou no mercado internacional, é capaz de criar oportunidades de financiamento para as pequenas e médias empresas, ou seja, a securitização colabora com crescimento do nível de crédito na iniciativa privada, dando mais liquidez ao mercado.

Desde 2016, a taxa nacional de crescimento dos FIDCs que representam uma modalidade de securitização-, vem sendo superior à taxa de crescimento do crédito bancário, que em dezembro de 2018 apresentou patrimônio líquido de R$ 102 bilhões, representando incremento de 26% em relação a dezembro de 2017 e evolução de 55% na comparação com dezembro de 2016, de acordo com a UQBAR, uma das principais referências em dados deste segmento.

Em contrapartida, em dezembro de 2018, o volume de crédito bancário no Brasil foi de R$ 3,2 trilhões, um aumento de 5,5% em relação a dezembro de 2017, de acordo com dados do Banco Central do Brasil.

No Brasil, os FIDCs ainda têm uma pequena parcela de participação no mercado de fundos e o instrumento vem ganhando cada vez mais espaço. Atualmente, com as taxas de juros nas mínimas históricas é natural que exista um movimento de busca pelo mercado de securitização. E é neste cenário que os FIDCs se destacam como principal veículo de busca por crédito empresarial.

A expansão desse mercado é favorecida pela possibilidade de absorção de pequenas e médias empresas que não encontram a personalização esperada para os desafios que enfrentam ao procurarem pelas instituições financeiras tradicionais. Ainda nesse aspecto, essas empresas encontram alternativas de crédito customizadas, com transparência e agilidade, e em muitas vezes até menos burocracia que nos bancos, porém com o mesmo nível de segurança nas transações.

Mesmo considerando um aumento anual na tomada de crédito via securitização desde que essa prática foi adotada no país, quando comparamos o Brasil com os países desenvolvidos, a relação crédito/PIB é de 150% nos Estados Unidos, 90% no Chile, e 50% no Brasil.

Para que o mercado de cessão de crédito continue se desenvolvendo no Brasil em maior escala é necessário o amadurecimento dos principais players, ou seja, do custodiante, do gestor, do administrador, do auditor de lastro/contábil, do consultor de crédito e da registradora de ativos financeiros, todos acoplados ao elevado investimento no desenvolvimento da tecnologia financeira e à participação ativa dos órgãos regulador (CVM – Comissão de Valores Mobiliários) e auto-regulador (Anbima). Esses fatores são primordiais para o fortalecimento e crescimento da indústria nacional de FIDCs.

Como incentivo, e também como a oportunidade para as empresas que buscam FIDCs como alternativa de crédito ainda pouco explorada, os principais benefícios deste tipo de operação são: a isenção do Imposto sobre Operação Financeira (IOF), a agilidade na análise do crédito, a ausência de reciprocidade de produtos bancários, além de maior proximidade com as empresas para o entendimento da necessidade de recursos.

Neste cenário, a tecnologia é fator-chave para que as operações de FIDCs deslanchem e conquistem cada vez mais espaço, já que as análises de crédito acontecem com uma velocidade sem precedentes. Machine learning, inteligência artificial, big data e analytics, são apenas alguns exemplos de avanços tecnológicos que permitem esse movimento, pois alavancam os níveis de gestão de riscos, cruzam informações com mais precisão e entregam soluções mais inteligentes aos clientes.

Nessa direção, as empresas que já entenderam que não podem mais manter os mesmos formatos de operação e atendimento têm que se reinventar para atender as novas demandas – já que a estabilidade não é mais uma opção. E assim como ocorre desde 2016, a expectativa da taxa de crescimento do crédito bancário para 2019, segundo BCB, é de 6,5% – ao mesmo tempo em que a expectativa de crescimento dos FIDCs, ainda em 2019, já passe os dois dígitos.

*João Paulo Fiuza, sócio-fundador da One7

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