Por que o trabalho remoto deve sobreviver à pandemia?

Por que o trabalho remoto deve sobreviver à pandemia?

Gilda Figueiredo Ferraz de Andrade*

19 de abril de 2021 | 10h30

Gilda Figueiredo Ferraz de Andrade. FOTO: DIVULGAÇÃO

A esmagadora maioria de todos deseja o retorno à normalidade. No entanto, um estudo recente é categórico: os funcionários são mais produtivos quando estão capacitados e em home office.

Explica-se:

A crise da saúde impulsionou o teletrabalho. Um ano após o anúncio do primeiro bloqueio, a experiência foi bem-sucedida?

O distanciamento melhorou a produtividade do trabalhador?

Em caso afirmativo, as empresas mudaram sua abordagem para fazer uma mudança duradoura para uma cultura de trabalho mais flexível?

Essas perguntas foram feitas entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021 pela empresa de reclassificação Von Rundstedt a 534 executivos e gerentes de empresas de todos os setores e de todos os tamanhos de três regiões de diferentes cantões linguísticos da Suíça.

Ou seja, «  longe dos olhos, longe do trabalho?

Sob o título « Trabalho Inteligente na Suíça » , os resultados do estudo em referência mostram que a produtividade e a qualidade do trabalho, em um contexto de trabalho inteligente, tendem a melhorar.

« Onde o sapato aperta estaria a motivação e a coordenação », pontos fracos do distanciamento.

De fato, no escritório, um fluxo de informações circula continuamente.

O distanciamento não cria necessariamente um fluxo de produtividade.

O trabalho inteligente, portanto, parece ter um impacto negativo moderado no nível de colaboração entre os funcionários.

O teletrabalho ideal e saudável seria dois dias por semana. “Mas, devido à Covid-19, mais de 60% das empresas ultrapassaram esse limite.”

Recorde-se que o trabalho inteligente é uma forma de trabalhar que se adapta às necessidades do trabalhador.

Nesse sistema de gestão, o trabalhador pode e deve assumir o controle do seu tempo de trabalho: ele decide sua agenda de trabalho de forma independente e não é mais avaliado pelo tempo de atendimento, mas apenas pelos resultados. “O teletrabalho ou home office consiste, por sua vez, em transpor o trabalho do escritório para um local mais conveniente para o trabalhador (geralmente a sua casa) e manter intacta a lógica e as práticas importadas do escritório (horário fixo, supervisão hierárquica, definição de tarefas, etc.). ”

Por exemplo, vejamos os funcionários de um grupo de trabalho especializado em produtos de luxo. Questionados , eles disseram que desde o início da pandemia, eles são submetidos a monitoramento remoto constante de sua gestão, que utiliza softwares como o « InterGuard «  para «  espionar e monitorar » suas telas de computador.

Esse monitoramento teria gerado cansaço, desconforto e, em alguns casos, até mesmo raiva , vai contra a mentalidade de trabalho inteligente que preconiza a chamada « responsabilização ».

Nesse sentido, os resultados do estudo deixam claro que as pessoas fazem mais quando têm autonomia.

Portanto, o instinto natural de um gerente , por exemplo, é o de se preocupar se seus funcionários não estão fazendo o suficiente.

No entanto, a verdadeira ameaça é a de que eles farão muito… e , como o gerente não tem seu colaborador d’où funcionário visível e na sua frente, ele não verá o início do esgotamento.

O desafio de seu trabalho será, portanto, criar uma cultura de expectativas razoáveis.

Não é novidade que o trabalho inteligente representa uma ruptura gerencial que apenas 5% das empresas adotaram. “Os 95% restantes simplesmente transferiram práticas antigas à distância. Quando questionados, muitos gerentes responderam que o trabalho inteligente não é uma escolha, mas sim uma restrição imposta pela Covid-19.

Eles esperam que assim que a emergência sanitária passar, tudo volte ao normal.

Ao assim pensarem as empresas perderam, pois, uma grande oportunidade de se reorganizarem para serem mais eficientes e mais bem adaptadas aos desafios futuros.

O escritório, na verdade, será o último lugar onde você vai trabalhar!

Entre os principais argumentos apresentados pelos detratores do distanciamento está o fato de que trabalhar em casa gera uma perda de controle sobre os trabalhadores. Este argumento é intrigante. Na verdade, e como nos lembra Jason Fried, cofundador da 37Signals, agora Basecamp, e autor do best-seller « Remote, o guia essencial do teletrabalho » , a presença no escritório garante que o funcionário vai se vestir para trabalhar não garante e nem equivale dizer que ele será mais produtivo. O exemplo da marca de roupas JC Penney atesta isso. Uma investigação interna descobriu que 4.800 funcionários consomem 30% da largura de banda da empresa enquanto assistem a vídeos no YouTube.

Além disso, convém lembrar, o escritório hoje é uma fábrica de interrupções que corta e atravessa o dia.

“Cada fragmento é preenchido com uma teleconferência, uma reunião para fazer um balanço, uma sessão de planejamento perfeitamente inútil.

É extraordinariamente difícil fazer um trabalho significativo quando o dia está sendo feito em pedaços e em atalhos como este ”, tanto que muitos trabalhadores admitem realmente começar a trabalhar depois de chegarem em casa tarde da noite (para quem tem filhos).

Ou seja, Longe da agitação, eles finalmente podem trabalhar com eficiência.

Soma-se a isso o fato de que “quando não vemos a pessoa, apenas seu trabalho pode ser avaliado”, observa Jason Fried.

Todos os outros parâmetros , digamos, talvez meio « mesquinhos «  desaparecem, tais como os clássicos:

Já se foram os critérios tais como:

“Ele está no escritório às 9 horas?”

“Quantas pausas durante o dia?” “Toda vez que passou em sua sala ele está no Facebook”

Resta apenas a pergunta: O que ele realmente fez hoje?”.

A clareza deste resposta é mesmo formidável , mas ainda podemos identificar alguma resistência à mudança do lado das profissões de gestão. “Mais da metade dos gerentes reconhece que executivos e gerentes têm mais dificuldade de mudar para o trabalho inteligente do que seus funcionários”.

Vamos ser francos: os argumentos contra o teletrabalho geralmente se originam do medo de um gerente de ver seu controle e autoridade diminuídos.

Mais:

E a coordenação? Este problema também é facilmente resolvido pela tecnologia. O Basecamp, por exemplo, oferece um local centralizado para o depósito de arquivos, discussões, listas de afazeres, para que documentos importantes não fiquem confinados a um único computador. Os funcionários do Basecamp também têm um calendário compartilhado.

Todos podem consultar os compromissos, férias e licença maternidade uns dos outros para se coordenar da melhor maneira possível.

Finalizo a reflexão com uma nota positiva: a crise de saúde deu início à era de ouro do escritório: a grande maioria dos entrevistados acredita que o trabalho inteligente continuará sendo um modelo predominante na empresa no longo prazo, mas admite que sua intensidade diminuirá e retornará a níveis mais saudáveis.

Portanto, embora possa haver alguns contratempos devido a projetos mal concebidos ou esforços nostálgicos imprudentes, esses serão pequenos solavancos no caminho a longo prazo.

O teletrabalho veio para ser levado à sério mesmo!

*Gilda Figueiredo Ferraz de Andrade é advogada militante, graduada pela USP, com especialização em Direito Empresarial  pela USP. Foi conselheira OAB-SP por cinco mandatos; membro do IASP, Academia Paulista de Letras Jurídicas, Academia Paulista de Direito do Trabalho e conselheira da AAT-SP. Integra o Conjur (Conselho Superior de Altos Estudos Jurídicos) e o Cort (Conselho de Relações do Trabalho) da Fiesp

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