Por que o silêncio não é mais um acordo viável para as vítimas de assédio sexual?

Por que o silêncio não é mais um acordo viável para as vítimas de assédio sexual?

Rafaela Frankenthal*

17 de julho de 2021 | 08h00

Rafaela Frankenthal. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os fãs sabem: tem um episódio de Grey’s Anatomy para quase tudo.

Contém spoilers: um dos personagens coadjuvantes da série é acusado de abuso sexual ao longo de sua carreira de sucesso como um médico cirurgião renomado. A verdade veio à tona muitos anos depois dos acontecimentos porque  — logo se descobre —  as vítimas tinham assinado um acordo de não-divulgação  para não expor os detalhes dos abusos cometidos por um homem em situação de poder. Em troca, receberam milhões de dólares e concordaram em não trabalhar nos hospitais comandados pela fundação do médico.

Não precisamos ir para o mundo de Shonda Rhimes para falarmos sobre assédio no ambiente de trabalho e tentativas de silenciar vítimas. A situação abordada na série é claramente inspirada em casos de assédio envolvendo pessoas famosas que aconteceram na vida real. Por anos foi assim, a voz das mulheres era silenciada em acordos confidenciais.

Nos Estados Unidos, uma pesquisa de 2018 aponta que mais de ⅓ dos trabalhadores têm algum tipo de NDA (Non-disclosure agreement, ou seja, acordos confidenciais, em tradução livre) com as empresas que os contrataram. Esses acordos, que não são exclusivos para assédio sexual, funcionam como uma forma das empresas controlarem o que o colaborador fala sobre elas.

Assédio no trabalho: diálogo por ambientes mais justos no Brasil

No Brasil, mais recentemente, uma secretária da CBF foi assediada pelo presidente da instituição, Rogério Caboclo. Em vez de ficar quieta, como ele esperava, a mulher levantou a sua voz, mesmo após o agressor a intimar a dar falsos testemunhos para jornalistas e exigir que ela assinasse um documento inocentando o cartola. A coerção dele sobre a funcionária se intensificou após o afastamento da mesma por motivos de saúde, em março. A vítima, no entanto, se negou a seguir as exigências do presidente. No acordo oferecido, ela receberia R$ 12 milhões, segundo informações do jornal O Globo, para se manter em silêncio diante do caso. Ela não aceitou e dias depois formalizou a denúncia.

O mesmo aconteceu na indústria do cinema nos EUA, em 2017, quando os assédios sexuais do produtor Harvey Weinstein foram divulgados em massa.

O que aconteceu, então, para que as vítimas se manifestassem sobre seus agressores? É uma pergunta complexa, então vamos responder por partes. Podemos encontrar motivos para o silêncio quebrado no movimento #MeToo, que deu força para muitas mulheres relatarem os crimes cometidos contra elas. Outro motivo é que, com o crescente debate sobre o tema, mais pessoas têm consciência de que o que aconteceu com elas é, de fato, assédio. 51,4% das vítimas ouvidas pela ThinkEva conversam sobre assédio e 95,3% afirmaram saber o que configura como crime.

Comprar o silêncio das vítimas não é mais uma opção e as empresas precisam saber disso. Antes de tentar fazer acordos milionários para não participar de escândalos que podem afetar a reputação e a cultura da empresa, é preciso pensar em formas de identificar situações abusivas cedo e prevenir elas escalem. Diante disso, é importante criar uma cultura de ética nas empresas para que os funcionários se sintam confortáveis e seguros para informar problemas de má conduta no ambiente de trabalho. Sabemos que essa não é uma tarefa simples, mas já existem muitas soluções tecnológicas que podem contribuir para que o processo de realizar essas mudanças necessárias para promover um ambiente de trabalho mais justo e inclusivo.

*Rafaela Frankenthal é cofundadora da Safe Space, graduada em comunicação e marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), mestre em gênero, sociedade e representação pela University College London (UCL)

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