Por que o brasileiro usa mais o canal de denúncias do que o europeu?

Por que o brasileiro usa mais o canal de denúncias do que o europeu?

Cassiano Machado*

18 de janeiro de 2019 | 05h00

Cassiano Machado. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em compasso com a onda ética que o mundo atravessa, as empresas buscam na implementação do canal de denúncias a saída para uma gestão corporativa íntegra, transparente e que contemple a aderência necessária com as melhores práticas de governança no dia a dia das operações.

Trazendo esta realidade para o cenário brasileiro, os últimos e incandescentes anos de delações premiadas e de denúncias de corrupção cometida por altos empresários encorajaram funcionários de grandes empresas a relatarem irregularidades de seus pares. Graças à Lei Anticorrupção e à Operação Lava Jato, a percepção do trabalhador brasileiro mudou em relação a relatar queixas. Se antes o denunciante era considerado dedo-duro, hoje ele é visto como alguém que deseja contribuir para um ambiente de trabalho melhor.

De 2006 a 2017, o volume de denúncias nas instituições brasileiras cresceu 46%. Todo este movimento confirma uma nova cultura corporativa no país e coloca o Brasil em um pedestal diferenciado no que tange ao uso efetivo de canal de denúncias. Cada vez mais, denunciar não será novidade e muito menos um ato paladino. Será uma condição natural de convivência dentro e fora das empresas.

Para entender o nosso grau de maturidade, estamos mais evoluídos do que muitas companhias europeias. Enquanto empresas da Europa recebem 0,2 relatos/mês para cada grupo de 1 mil funcionários, segundo estudo da organização sueca WhistleB, as companhias brasileiras recebem 3,5 relatos em média.

Esses dados refletem o quanto estamos evoluídos no uso e, mais do que isso, compreendendo a importância da instrumentação do canal de denúncias em prol da ética nas empresas. E isso em vários ângulos. Para se ter uma ideia, somente nos últimos dez anos os clientes, considerados agentes externos, contribuíram com o registro de 7,1% das denúncias e, em 2017, foram responsáveis por 8,4% dos relatos recebidos.

Indicadores evidenciam os claros efeitos do atual Big Brother corporativo na sociedade brasileira. Ninguém está imune. As empresas são tão vigiadas a ponto de suas denúncias ultrapassarem as paredes do escritório. Há olhos vivos por todos os lados e por todas as esferas.

A Europa, que vive o ápice de escândalos de esquemas fraudulentos como Dieselgate, Luxleaks, Panama Papers e Cambridge Analytica, ainda engatinha neste quesito, até por razões históricas vinculadas às guerras mundiais do século 20, e precisa trabalhar no empoderamento do seu denunciante, dar a ele o anonimato necessário e proporcionar uma estrutura de canal de denúncia independente, de preferência fora da empresa.

Estímulos como esses fizeram o Brasil amadurecer e se tornar mundo afora um case de sucesso no uso efetivo de canal de denúncia. Enquanto isso não acontece, o exemplo ainda vem de nós, trabalhadores brasileiros. Com todo orgulho.

*Cassiano Machado é sócio-diretor da ICTS Outsourcing, empresa de serviços relacionados à gestão de riscos e compliance

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