Por que nossos líderes precisam ir a Harvard ou Oxford para dialogar?

Por que nossos líderes precisam ir a Harvard ou Oxford para dialogar?

João Francisco Maria*

15 de julho de 2020 | 06h00

Março de 2016. Enquanto a polarização política crescia no Brasil, começava mais um evento que reunia bolsistas brasileiros que estudavam em renomadas universidades do exterior. Como brasileiro fazendo mestrado na Universidade de Oxford me sentia angustiado por estar fora em momento crítico para o Brasil. Boa parte da crise econômica tinha origem na política. A falta de diálogo entre as lideranças transformava o fundo do poço da crise em um labirinto sem saída. A sociedade do homem cordial havia se polarizado. Dos partidos às famílias as pessoas haviam parado de dialogar em um país dividido entre mortadelas e coxinhas. Como contribuir para criar pontes que substituíssem as grades que, pela primeira vez na história da capital, dividiram a Esplanada dos Ministérios em duas?

Colegas que haviam organizado no ano anterior a primeira edição da Brazil Conference, conferência que debate o Brasil nas universidades de Harvard e MIT, relatavam entusiasmados o debate de alto nível ocorrido mesmo entre opositores. Voltei para Oxford com uma ideia na cabeça e, graças à um grupo entusiasta de estudantes brasileiros que acreditavam no poder do diálogo, menos de três meses depois nascia o Brazil Forum UK. Como diria Darcy Ribeiro, era preciso debater o Brasil como problema. O Brasil estava em pauta, mas o fundador da UnB nunca imaginaria que seria mais fácil debatê-lo nas academias da terra dos Federalistas e da Revolução Gloriosa do que na universidade que criara à beira do Lago Paranoá.

João Francisco Maria. Foto: Acervo pessoal

O Brazil Fórum começou sua quinta edição com uma exposição de abertura onde participaram os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso do PSDB e Dilma Rousseff do PT. O ministro do STF Luís Roberto Barroso, apoiador de primeira hora do evento, fechou o evento. Nas edições passadas estiveram presentes Marina Silva e Dráuzio Varella, Sérgio Moro e Fernando Haddad, André Lara Resende e Djamila Ribeiro, Deltan Dallagnol e Celso Amorim, Otávio Frias Filho e Luiz Felipe Pondé, dentre inúmeras outras lideranças com posições diferentes e, inclusive, opostas. O Fórum prova que pontes quebram grades e furam bolhas. Mas ainda é mais fácil quebrá-las em Oxford do que na Esplanada dos Ministérios.

O Brazil Forum UK, nas suas cinco edições, consolidou um feito memorável. Ampliou o diálogo entre dois Brasis que não se falavam. A única condição para um painel existir é que nele sejam representadas opiniões plurais. “Transcendendo dicotomias” é o lema da sua primeira edição e reflete bem o espírito do Fórum de apostar no diálogo como melhor estratégia para superar a polarização atual da sociedade brasileira. Construindo propostas concretas, esse ano o evento perguntou “What´s next Brazil?”

Iniciativas autônomas de estudantes que se revezam a cada ano para organizar espaços de conexão entre lideranças do setor público, privado e da sociedade civil, como a Brazil Conference e o Brazil Fórum, são fundamentais. Criam oportunidade para lideranças que não dialogam no Brasil, pelo menos se escutem no exterior. A edição deste ano ocorreu de forma virtual transmitida em parceria com o Estadão e criou uma grande oportunidade de democratizar o debate e construir propostas em todas as regiões do país. O mundo pós-covid cria novas oportunidades para se ampliar o diálogo futuro através de tecnologias que aproximam os que estavam afastados.

Mas a questão principal é: Por que nossos líderes precisam sair do país para poder dialogar entre si? Esse é o principal desafio que precisa ser superado pelo país, principalmente no momento que instituições democráticas estão sob ataque. Democracia exige diálogo e tolerância e não ataques às instituições com tweets ou fogos de artificio. O esgarçamento institucional pelo qual passa o Brasil é resultado de anos de polarização política raivosa. Se em 2016 vivíamos uma crise política e econômica, em 2020 adicionamos uma crise sanitária à equação. A superação dos enormes desafios atuais do país exige a retomada do diálogo entre lideranças que pensam diferentes. Os ideais políticos modernos não são apenas a igualdade e a liberdade, mas também a fraternidade. Para sair da crise o Brasil precisa de mais diálogo fraterno para superar a polarização intolerante. É muito bom termos estudantes brasileiros no exterior dispostos a contribuir com a construção do diálogo tolerante. Porém, o ideal seria que nossas lideranças pudessem construir convergências sem precisar ir à Harvard ou Oxford. Assim como no passado superamos a ditadura através do diálogo que deixou de lado interesses particulares e divergências menores, construir pontes entre os democratas é o principal chamado que o momento requer. Que se torne uma rotina no próprio Brasil.

*João Francisco Maria – Mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Oxford, co-idealizador e 1° Coordenador Geral do Brazil Forum UK.

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