Por que não torcer pelo Brasil?

Carlos Arouck*

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Carlos Arouck. FOTO: DIVULGAÇÃO

Como está difícil nos orgulharmos da nossa nação, podemos, sim, torcer pelo Brasil na Copa do Mundo. E, de quebra, torcer também por um país melhor. Afinal, não há no mundo um país tão conhecido pelo futebol como o Brasil. O povo brasileiro, em meio a tantos escândalos e falta de sensatez política, custou para se deixar envolver por este campeonato, sempre tão aguardado. Apenas algumas ruas foram enfeitadas com antecedência, poucas bandeiras ornamentam janelas de prédios e carros, as postagens nas redes sociais chegam a criticar aqueles que decidem falar da Copa e tratá-los como alienados.

Menos! Os jogos podem ser assistidos sem culpa. Os cidadãos indignados com a situação de crise institucional, de impunidade, de corrupção dos gestores públicos, de falta de respeito das autoridades pelas demandas populares, estão hoje mais bem informados que no passado. A política do “pão e circo” existente há anos no Brasil, que tenta se aproveitar de sentimentos autênticos da população, garantir entretenimento como forma de evitar a revolta das pessoas e ganhar seu apoio, já não funciona tão bem como no passado.

É verdade que, embora sejam muitas as formas de distração para o povo, como as novelas, a internet, as loterias, o bolsa família, nenhum tem tanto efeito como o futebol para “ganhar” a boa vontade do brasileiro. Soma-se a isso o fato de que as manifestações, os protestos e os movimentos, apesar de continuarem, agora não são interessantes o suficiente para garantir destaque na mídia. Mesmo assim, um grupo de “fortes” não se deixa iludir, está atento para os abusos e desmandos e denuncia qualquer sinal de manipulação nas redes sociais.

Esses “fortes” não se conformam, por exemplo, com a soltura de José Dirceu, condenado a mais de 30 anos por corrupção. Para atenuar a insatisfação contra essa decisão dos ministros do Supremo, a liberdade foi concedida em dia cheio de jogos vibrantes, entre eles, Coréia x Alemanha; México x Suécia e, “coincidentemente”, Brasil x Sérvia. A vitória brasileira não impediu milhares de registros contrários à concessão do habeas corpus nas mídias digitais. No WhatsApp, foram muitas as críticas.

Não existe, na história do Judiciário, nenhum réu condenado por mais de 30 anos por engano. O STF decidiu, na prática, que ninguém mais pode ser preso no Brasil por corrupção. Essa cúpula que está na mais alta Corte do país ali está por indicação, em sua grande maioria, feita por um ex-presidente agora presidiário. Como esses togados detém tamanho poder para decidir o que é proibido ou permitido aos 200 milhões de brasileiros e têm o direito de ficar nos seus cargos pelo resto da vida? Podem ignorar qualquer lei, anular provas, recusar-se a aplicar normas legais, não aceitar decisões do Congresso e suprimir procedimentos judiciais, manter milhares de processos engavetados e sem perspectiva de julgamento. Podem , ainda, priorizar os recursos de Lula, que furam todas as filas.

Os recentes atos dos egrégios ministros são uma demonstração clara de que todo o sistema de justiça está em colapso: vivemos em um Estado de exceção. A coragem de uns “fortes” tem contribuído para deter, mesmo que de forma tímida, a judicialização da política e da militância judicial.

O noticiário nos últimos dias revelou a trama da Suprema Corte que surpreendeu os torcedores no dia do jogo. Toffoli optou por cassar a decisão do juiz Sérgio Moro que ordenava que Dirceu utilizasse uma tornozeleira eletrônica. O ministro alegou que Moro extrapolou sua competência ao estabelecer como medida o uso da tornozeleira eletrônica, uma vez que o habeas corpus dado pelo Supremo a Dirceu garante sua “liberdade plena”.

Diante dos acontecimentos, fica difícil torcer com euforia na Copa e se orgulhar da nação, é verdade. Porém, os que vibram e se alegram com uma partida bem disputada não são aqueles que devem se envergonhar. Assim como Toffoli, quase todos os demais ministros do STF não são magistrados de carreira. A Constituição garante que a indicação deles seja da livre vontade do Presidente da República. O ideal, segundo especialistas, seria uma eleição com membros da comunidade jurídica, cabendo ao presidente escolher entre os três mais votados. O critério não pode continuar rigorosamente político. O coração da torcida verde-amarela pode não aguentar mais…

Os próximos jogos trazem o barulho das vuvuzelas, o canto dos hinos, os gritos de ‘Gooooool”. Na contramão da algazarra, impera o silêncio dos políticos corruptos que torcem para serem esquecidos em pleno ano eleitoral. Aos poucos, o povo brasileiro começa a questionar o mundo imaginário criado a partir da política do ‘pão e circo” e lutar para que suas reivindicações do mundo real sejam escutadas.

Os políticos sabem bem que quanto mais instruído é o povo, mais difícil fica serem ludibriados. O problema é que, após tanto tempo acostumados a “panem e circenses”, parcela considerável da população brasileira está alienada à política. Os que aprenderam a compreender melhor o que se passa na terra natal, estão em completo desalento. E os que protestam e manifestam nas ruas, cada vez mais indignados e comprometidos com a construção de um novo Brasil. Não aceitam que representantes legitimamente eleitos para responder por seus eleitores decidam roubar o dinheiro público, desviar para seus bolsos e para atender seus interesses pessoais verbas destinadas ao bem coletivo, voltadas para a educação, saúde e segurança. Isso é traição, é ser enganado, apunhalado pelas costas.

O pleito de outubro será a chance de selecionarmos bem os candidatos e eleger políticos “ficha-limpa”, que, no mínimo, se preocupem em atuar como verdadeiros representantes. Porque do jeito que está, nem ganhando de 7 a 1 é possível continuar.

*Carlos Arouck, agente de Polícia Federal, analista de cenários e de segurança pública

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