Por que não te calas?

Por que não te calas?

Fernando Goldsztein*

27 de dezembro de 2020 | 07h00

Fernando Goldsztein. Foto: CRISTIANO SANTANNA/INDICEFOTO

O título deste artigo é uma frase dita pelo rei João Carlos I da Espanha ao presidente Venezuelano Hugo Chávez. O fato ocorreu na XVII Conferência Ibero-Americana de 2007 em Santiago do Chile. Chávez, falecido em 2013, comportava-se de forma indisciplinada impedindo a fala do presidente do México, Jose Luiz Zapatero. Foi então que o rei, irritado com a impertinência de Chávez, disse o que todos queriam dizer: “Porque não te calas”? A frase causou impacto mundial. O rei foi ovacionado.

É impossível não criar uma conexão entre esta frase e as falas de Bolsonaro, especialmente as que são relacionadas à pandemia do coronavírus. Bolsonaro tem se superado: “É só uma gripezinha”; “O brasileiro tinha que ser estudado, não pega nada”; E daí?; “Não sou coveiro, tá?”; “Temos que deixar de ser um país de maricas”; “Se você virar um jacaré, é problema seu”; “Eu tive a melhor vacina, foi o vírus”. Quem não tem vontade de incorporar o rei Juan Carlos ao ouvir estas declarações do nosso presidente? Antes que os arraigados defensores de Bolsonaro atirem a primeira pedra, peço que leiam este artigo até o fim. Acreditem, ele é a favor do presidente e, principalmente do Brasil. Desde cedo aprendi que os amigos leais são aqueles que te falam a verdade sem medo de te desagradar. Pois escrevo com este objetivo, o da crítica construtiva.

Não importa se você é branco ou preto, pobre ou rico, tenha educação básica ou seja um PhD, viva no norte ou no sul. Não importa se você entende que os lockdowns são necessários ou absurdos, se você acha que as escolas tem que abrir ou fechar, se voce acredita ou não na hidroxicloroquina. Existe sim uma verdade inquestionável que, a esta altura do campeonato, não poderia ser negada por ninguém, muito menos pelo primeiro mandatário do país: não se trata de uma gripezinha e, com alguns  cuidados básicos, podemos minimizar muito a chance de contaminação. Portanto, a postura de Bolsonaro é inaceitável e, porque não dizer, inacreditável. Vê-lo sem máscara, causando aglomerações e ainda pegando crianças no colo é péssimo. São quase duzentos mil mortos no Brasil e dois milhões no mundo. Vivemos um momento de muita apreensão com o número de casos recrudescendo e voltando a apavorar a população mundial. Sim, a vacina está a caminho, temos uma luz no final do túnel. Porém,  existir as vacinas é muito diferente de tê-las disponíveis no país em quantidade suficiente para imunizar a população. Isso sem falar na complexa  logística de armazenamento e distribuição a baixas temperaturas. Portanto, vai demorar muito tempo até atingirmos a tão desejada imunidade de rebanho. Não obstante sermos a nona economia do planeta, o Brasil, segundo a Bloomberg, está no  quadragésimo oitavo lugar em percentual da população coberta por vacinas já contratadas. Largamos muito atrasados nesta corrida. Em decorrência do negacionismo, seguimos desarticulados e sem o imprescindível protagonismo do governo federal neste tema tão importante que é a vacina.

Faço então um apelo: Presidente, não desdenhe da pandemia. Presidente, é passada a hora de agir de forma efetiva para comprar todas as vacinas possíveis. Presidente, é preciso dar o exemplo para que a população tome os devidos cuidados e não se contamine. Presidente, a ajuda emergencial foi muito importante mas é finita. Não esqueça que sem imunização, além das mortes, tardaremos muito mais para reerguer a nossa economia. Presidente, temos uma pauta enorme e  não podemos  mais esperar. Una o país ao invés de dividi-lo!

*Fernando Goldsztein, empresário

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