Por que insistimos em pedir que não se banalizem o nazismo e o holocausto?

Por que insistimos em pedir que não se banalizem o nazismo e o holocausto?

Floriano Pesaro*

10 de fevereiro de 2022 | 13h05

Floriano Pesaro. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

No longínquo abril de 2019, Natalia Pasternak, que posteriormente ficaria conhecida como uma das mais renomadas cientistas no combate à Covid-19, e eu escrevemos sobre os perigos das narrativas em torno do nazismo e do Holocausto. Eis que defronte a inúmeras necessidades do pós-pandemia, o Brasil se vê diante de uma defesa estapafúrdia da institucionalização de um partido que defenda o nazismo. O ato criminoso foi sucedido por um gesto de cunho nazista transmitido ao vivo em uma rede de TV. Se não fosse bizarro o bastante, a discussão sem sentido que se seguiu ligava o nazismo ao comunismo.

Esse show de crimes, horrores e narrativas farsantes é a prova da razão pela qual a comunidade judaica está correta quando recomenda, todos os anos, que não deturpem e banalizem o nazismo e o Holocausto. Há, no entanto, que se reconhecer que esse processo de banalização é propositadamente fomentado diante de um inconteste adubo brasileiro que é a má qualidade educacional ao longo da vida – e que não necessariamente tem a ver com a renda e o status social.

Existe um inequívoco crescimento do antissemitismo no Brasil, que também é fruto desse processo. Desde 2019, estamos presenciando uma explosão de células neonazistas espalhadas pelo país – crescimento de 270%, especialmente, concentradas nos estados do sul. Segundo a pesquisadora, Adriana Dias, que acompanha esses grupos desde 2002, hoje há no Brasil 530 grupos extremistas ligados ao culto do ideário criminoso do nazismo e do antissemitismo, o que poderia envolver até 10 mil pessoas.

Esse perigo é real e vem crescendo na esteira de manifestações fascistas, totalitaristas e nacionalistas que encontraram, de alguma forma, eco em parte da sociedade brasileira que se viu atendida por uma linha política baseada no preconceito generalizada e no negacionismo, ingredientes fundamentais para o fascismo e que também compuseram o caldeirão nefasto do nazismo.

Isso posto, a comunidade judaica, em todos os anos de lembrança da Shoá, vem a público relembrar que o Holocausto foi um fenômeno único de horror e aniquilação, bem como foi o nazismo um sistema de perseguição, desumanização e assassinato incomparáveis, uma vez que possuía como premissa a superioridade de uma etnia e o extermínio de outras consideradas inferiores.

É verdade que outros regimes, como o stalinismo – este que se construíra a partir da base ideológica do comunismo – cometeu atrocidades, perseguições e assassinatos em massa, no entanto – apesar de pessoalmente discordar do sistema – é intelectualmente desonesto e perigoso dizer que comunismo e nazismo são equivalentes, porque não o são.

A clareza no trato desse tema, e em sua diferenciação, é fundamental, justamente para que a banalização não jogue a discussão em tal lugar comum que a memória das vítimas do Holocausto e do nazismo ao invés de servir ao propósito de educar e garantir que horrores similares nunca mais se repitam, acabem servindo para instrumentalizar debates políticos.

Não há liberdade de expressão possível que advogue pela eliminação de outro ser humano pelo seu credo, raça, orientação sexual, gênero ou qualquer outra distinção que possa existir. Portanto, um partido que advogue, como premissa, a superioridade de uma raça humana é, tão somente, criminoso e nunca poderia ser encarado como um conjunto de pessoas que comungam de uma ideologia política.

Seja qual for a causa que levou o nazismo e o Holocausto a estarem entre os temas mais falados nas redes sociais brasileiras, nós, comunidade judaica e todos os cidadãos, temos que enfrentar a discussão de peito aberto, não só pela honra daqueles que se foram na Shoá, mas por toda a humanidade.

Como disse a especialista de educação na temática do Holocausto, Karina Iguelka, em webinar do Instituto Brasil-Israel: “O que a gente herdou dos sobreviventes é a responsabilidade de seguir uma ética humana que foi totalmente corrompida em Auschwitz. (…) A gente herdou o dever de não ser cúmplice da desumanização e de nenhum genocídio (…) e de gritar quando a gente vê a banalização da Shoá.”

*Floriano Pesaro, sociólogo

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