Por que empresas com propósito vão mais longe?

Por que empresas com propósito vão mais longe?

Fernanda Guerra*

08 de abril de 2021 | 04h30

Fernanda Guerra. FOTO: DIVULGAÇÃO

Você já deve ter visto um quadro em uma empresa orgulhosamente exibindo a missão, a visão e os valores daquela companhia. Mas o assunto que vamos conversar aqui é algo muito maior: propósito.

Produzir, comercializar e entregar produtos e serviços era a ordem natural de empresas. E, até hoje, muitos negócios são orientados dessa forma. Ao serem questionados sobre seus objetivos, é provável que respondam algo como “ser a maior referência em nosso setor” ou “gerar resultados significativos aos nossos acionistas”.

Mais do que entregar algo, é preciso se apaixonar pelo benefício que sua companhia gera, tanto para os seus clientes, como para a comunidade e para o mundo. É nessa hora que distinguimos quem busca lucratividade e quem tem um propósito de fato.

A pandemia que estamos atravessando lançou ainda mais luz sobre isso. Dados do Relatório de Riscos Globais 2021, do Fórum Econômico Mundial, dão conta de que os efeitos da crise aumentaram as disparidades e a fragmentação social, algo a ser sentido por até uma década ainda. Para evitar riscos como tensões geopolíticas e o estouro de bolhas de ativos, é preciso que pessoas, empresas e governos se moldem a novos sistemas econômicos e sociais. A palavra de ordem é resiliência coletiva.

Esse momento é um prelúdio do fim do atual paradigma que vivemos e o começo de um novo marco civilizatório. Por enquanto, só é possível visualizar pequenos e breves lampejos dessa nova referência cultural, onde o estar junto, o senso comunitário e o compartilhar são valores que permearão o novo viver.

É fato que economicismos, materialismo exacerbado e progressismo desenfreado estão em xeque em todas as áreas. Com isso, novas práticas estão surgindo e deixando para trás o obsoleto racionalismo que, até bem pouco tempo, imperava em absoluto nas praxes comportamentais, negociais e jurídicas.

Siga a bússola do propósito

Os consumidores estão cada vez mais conscientes de suas escolhas, desde a origem da fruta que consomem no café da manhã à política de inclusão da escola em que matriculam seus filhos. Negócios motivados por propósito trazem significado para as suas entregas e força para as suas marcas. Tanto que, de acordo com a consultoria LRN, 90% das companhias consideradas de “alta performance” trabalham estes valores nas estratégias de marca, sendo que para 70% delas, o propósito ajudou a viabilizar novos negócios.

Vejo que as empresas têm papel vital na transformação da sociedade. Seus valores e propósitos são catalisadores desse processo. São grandes e pequenos negócios envolvidos em um processo de real mudança social e econômica.

Um bom exemplo disso é a expansão crescente do Conscious Business, um movimento empresarial internacional que defende que as companhias vivam de acordo com o propósito, missão e valores declarados. A coerência interna é a bússola norteadora daqueles que migram para o Conscious Business e querem assim desenvolver empresas que satisfaçam as demandas do momento presente, sem, no entanto, comprometer o futuro das gerações vindouras.

Enquanto trabalhadores, percebemos que passamos mais tempo no trabalho do que em nossas casas. É preciso que empresas e colaboradores transformem o trabalho em um ambiente mais acolhedor e disposto a respeitar as individualidades. Esse processo ressignifica o labor, que deixa de apenas representar uma estabilidade financeira e se torna uma fonte de bem-estar.

Noto que se trata de uma busca genuína por um trabalho que seja uma oportunidade de desenvolver habilidades e que proporcione uma integração de quem se é. É algo que traz significado ao trabalhador e impacta positivamente o ecossistema – comunidade e planeta – no qual este está inserido.

Nas palavras do ativista Satish Kumar “precisamos trocar o velho paradigma de fragmentação, dualismo, desconexão e divisão pelo novo paradigma de integralidade, conexão e inter-relação”. Afinal, “solo, alma e sociedade formam uma trindade para um novo paradigma”. (Solo, Alma, Sociedade, ed. Palas Athena).

É nesse caminho de integração do homem com seus afazeres, com a humanidade e o planeta que os Conscious Business dão seus passos. Revisitarmos a forma como cuidamos de nós, da comunidade e do mundo. Mais do que um chamado, é um imperativo para aqueles que empreendem consubstanciados em seus valores e propósito.

O que pode parecer novidade, no entanto, já era preconizado pelo economista inglês E.F. Schumacher, nos idos dos anos 60. No seu visionário livro “Small is beautiful”, o pensador traz críticas profundas e muito assertivas sobre as perspectivas distorcidas da economia de mercado e propõe um processo econômico que considere as pessoas. Denominada “Economia Budista”, a perspectiva provoca um olhar para um “Caminho do Meio”, entre o “crescimento “e “estagnação”.

Tal investigação nos leva a outro ponto nodal para os negócios conscientes: as relações. Elas são a base de sustentação e a essência de como experienciamos a vida, seja na esfera privada ou profissional, na individual ou coletiva.

O estabelecimento de relações conscientes, fiéis aos princípios dos envolvidos, está no âmago destes negócios. É no processo dos relacionamentos que podemos nos colocar a serviço de nossos dons naturais, da humanidade e do mundo.

Como o Direito pode dar suporte ao novo paradigma econômico

A realidade em que estamos inseridos é volátil, incerta, complexa e ambígua. Os ferramentais jurídicos tradicionais não nos permitem lidar com os conflitos sem rupturas desarmônicas das relações, perda de tempo, de dinheiro e até mesmo inviabilização dos negócios.

No modelo legal atual as relações traduzidas nos contratos estão sob o julgo do papel, como se fosse possível modelar a interação entre dois ou mais indivíduos, ainda que estejam sob o fictício manto das pessoas jurídicas. Na qualidade de operadores do Direito, nos vemos obrigados a prever qualquer potencial problema ou possível falha que pode ser gerada a partir daquela relação estabelecida por meio de um documento, estabelecendo mecanismos de controle para os eventuais danos.

A realidade atual nos mostrou de forma bem dura que não nos foi dado o dom da previsão. Construir um documento legal baseado na antecipação de presumíveis cenários pouco nos socorre. Assim como, também, levar os impasses contratuais, oriundos dos inevitáveis conflitos relacionais para a via judicial não se revela ser o mais adequado para negócios que buscam sustentabilidade organizacional, financeira e ambiental, tendo ainda como missão compartilhar e agregar valores.

Como bem pontuado pela advogada estadunidense Linda Alvarez, no seu revolucionário “Discovering Agreement”, os negócios não podem esperar pela lenta e séria rotina judicial. Uma empresa deve responder em tempo real, imediato e eficaz às crises. Fato é que o atual universo jurídico tradicional não é uma opção viável para lidar com as inexoráveis mudanças do mundo de forma criativa e ágil.

Contratos Conscientes nos convocam a cuidar das relações

Nos últimos dois anos, percebo uma latente necessidade de que as práticas jurídicas possam acompanhar o anseio desses negócios. Essa é uma tarefa, no mínimo, desafiadora, uma vez que o universo jurídico se encontra amparado em um paradigma mecanicista, de visão materialista e extrativista do mundo. Visão essa que contribuiu substancialmente para a manutenção das mazelas ambientais, sociais e econômicas que vivemos globalmente.

Por isso, trazer o dinamismo de uma organização alinhada com o propósito dos envolvidos e a fenomenologia dessas relações para os documentos legais é um desafio que me inspira e me move. Nessa dinâmica relacional, sinto que se faz emergencial adotar práticas jurídicas mais colaborativas, sustentáveis e harmoniosas.

Os Conscious Business são uma convocação para buscarmos alternativas mais alinhadas com esse novo padrão, fundamentado no diverso, plural e autêntico, que permite que cada um possa ser o seu próprio paradigma. E como isso é possível?

Esta pergunta foi respondida por Linda Alvarez, a advogada americana que nos presenteou com os Contratos Conscientes, uma abordagem relacional para documentos legais. O objetivo é criarmos ações a partir de valores, e não regras, para dar suporte às relações contratuais.

Trazendo esse olhar mais cuidadoso e sistêmico para os documentos legais, colocando-os a favor das pessoas e não utilizando-os como mecanismos de controle e defesa nas relações empresariais, percebo que criamos uma ambiência de confiança. Assim, podemos gerar autorresponsabilidade, engajamento e sustentabilidade para os contratos e negócios.

Ao invés de lutar contra aquilo que é inerente à vida, devemos abraçar essa oportunidade. Com os Contratos Conscientes, podemos aprender mais sobre o outro e também se deixar conhecer, para com isso edificar uma teia relacional resiliente, que proporcione perpassar pelas intempéries da vida.

Sem precisar temer mudanças e buscar padronizar pessoas e comportamentos, os Contratos Conscientes permitem a reavaliação constante das relações contratuais com base na confiança tecida no processo de co-construção das cláusulas contratuais. São as conversas difíceis que legitimam a expressão e o sentir dos indivíduos. Por isso, os documentos baseados nos valores e propósito dos negócios e seus idealizadores representam a possibilidade de criação conjunta de um futuro que se quer trilhar em parceria.

A atual conjuntura conclama que nós, operadores do Direito e, por natureza, agentes de justiça, possamos trazer ao mundo práticas curativas para as dores do paradigma da modernidade que nos afastou da integração de corpo e alma. Isso garante a prosperidade dos negócios, a harmonia das relações e um campo frutífero para o desenvolvimento pessoal.

*Fernanda Guerra é advogada e idealizadora da SER Consultoria

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