Por que calamos nós mesmos em plena era da comunicação?

Por que calamos nós mesmos em plena era da comunicação?

Nana Lees*

27 de setembro de 2020 | 04h30

Nana Lees. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em um mundo lotado de informações, onde todos parecem saber algo, falamos tudo sem dizer nada. Escondemos a nós mesmos, imersos em uma ilusão das vidas perfeitas que nos rodeiam, até começarmos a fazer parte de um teatro onde se deve apenas sorrir e lutar contra os obstáculos. Reclamar não é uma opção. Chorar menos ainda.

Existem pessoas em pior situação que você, então você deve lutar.

Inicialmente, esse é um pensamento válido. Não podemos passar a vida reclamando das barreiras que encontramos por aí. Porém, por que a nossa geração tem tanta pressa a ponto de não se permitir parar um instante? Cada segundo é importante, temos que ter vidas úteis, nada de ócio, estude, trabalhe, malhe, coma saudável, tenha tempo social, brinque com seus pets…

Quando é que chega a hora em que você pode cuidar de si mesmo? De seu emocional?

Os julgamentos envolvem qualquer pessoa que se disponha a falar de sua vida “imperfeita”, como se fosse um pecado mostrar que somos frágeis, além de fortes.

Vivemos em uma era em que nos sentimos obrigados a esconder toda e qualquer dor ou tombo que passamos, como se já tivéssemos nascido diamante. Ou enfeitamos toda a nossa trajetória, encobrindo nossa “feiura”, aquilo tudo que consideramos uma falha que nos enfraquece.

O ser humano está se esquecendo de um ato simples, mas muito poderoso: o desabafo.

Por pra fora tudo aquilo que te angustia e entristece, por mais ínfimo que pareça ser, é uma cura inigualável. Chorar alivia o corpo e alma, mesmo que depois você sorria e pense que nem precisava de “todo esse drama”. Perceba que logo após se expressar, temos uma visão mais ampla e concisa, conseguimos ver o que está nos afetando, e com isso tentar mudar não só a situação como a nós mesmos.

Trazendo essa temática, importantíssima para o mundo atual, principalmente para os jovens, o meu livro Heroína tenta exemplificar o que acontece com as pessoas que se trancam dentro de si mesmas. Helen, a personagem principal, não consegue lidar com a própria ansiedade, é tomada por angústias que esconde em seu peito, justamente por se ver privilegiada demais para reclamar, se recolhe a uma posição onde não pode sentir dor, onde tudo o que machuca é considerado supérfluo. Ela se aproxima de se tornar uma bomba-relógio, perigosa para si e para os outros. Até que alguém tenta fazê-la desabafar.

“Todo mundo precisa de ajuda”, o bordão do livro, é a chave exata que todos precisamos entender neste momento. Somos humanos e não há nada de mal em se dar um descanso. Não estamos em uma competição, ninguém está desistindo de nada.

Um gesto simples, de separar tempo pra sentir suas dores, pode mudar uma vida inteira.

A sua vida.

*Nana Lees é escritora e autora da obra Heroína: todo mundo precisa de ajuda

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