Por que as feiras de negócios devem ser vistas como um shopping pop-up

Por que as feiras de negócios devem ser vistas como um shopping pop-up

Milena Palumbo*

14 de novembro de 2021 | 05h00

Milena Palumbo. FOTO: DIVULGAÇÃO

Gostaria que a palavra retomada estivesse fora do vocabulário de quem trabalha com eventos, mas, infelizmente, não é possível. Sem sombra de dúvidas, esta é a indústria mais afetada pela pandemia no Brasil e a única que precisou se provar. Tivemos que promover eventos-teste, como as Expo Retomadas, para demonstrar que somos capazes de realizar encontros seguros. Todos os outros mercados voltaram às atividades da maneira mais natural possível – e até incentivada, como foi o caso de restaurantes, bares, shoppings.

Parte disso ocorre porque nosso mercado é um ecossistema muito amplo, um setor complexo e que nunca foi compreendido ou diferenciado em sua imensidão sobre tantas categorias de eventos. A verdade é que a pandemia expôs essa fragilidade e os governos, em meio a uma crise sem precedentes, também não tiveram condições de olhar para isso com a merecida atenção.

Mas, agora, é preciso iniciar esse debate para classificar corretamente cada tipo de evento para que não corramos mais o risco de, no futuro, ficar novamente dois anos completamente parados. Estimativas de entidades setoriais calculam mais de R$ 270 bilhões em prejuízos, centenas de milhares de desempregados e de micro e pequenas empresas quebradas.

A abrangência do termo ‘eventos’ certamente impactou a decisão das autoridades para a reabertura desse mercado. Afinal, evento pode ser desde uma festa infantil e um casamento a um festival de música e congressos técnico científicos. O fato de “reuniões” tão díspares, com perfis de público e de comportamentos totalmente distintos estarem dentro de uma mesma denominação inviabiliza que se tome decisões ajustadas a cada realidade. Foi o que ocorreu ao longo desse período de pandemia.

As feiras de negócios e os congressos técnicos e científicos, por exemplo, que poderiam ter voltado a ocorrer no mesmo momento que os centros comerciais reabriram, ficaram suspensos. Algo totalmente incoerente, uma vez que estamos falando de eventos corporativos muito mais controlados e seguros que outros negócios que já estavam funcionando. Feiras de negócios nada mais são que shoppings temporários. A feira é um shopping pop-up e cada estande é uma loja.

Os protocolos, no entanto, são ainda mais severos, justamente por ser uma atividade corporativa, um ambiente profissional e com menor nível de interação. Aumentamos os espaços entre os estandes. Diferentemente dos shoppings, por motivo de validação dos crachás, precisamos contar com apenas uma entrada e saída e cada visitante precisa informar nome e CPF para acesso. Há um comprometimento sério para se estar ali e participar da feira, além de toda a burocracia existente para a liberação de um evento.

Bom, mas não conseguimos esclarecer isso ao longo desses últimos meses e, agora, estamos correndo contra o tempo para recuperar o que for possível. Tínhamos a esperança de salvar o último trimestre deste ano, mas infelizmente não conseguiremos. Feiras de negócios e congressos técnico científicos precisam de planejamento, organização, mas principalmente previsibilidade. Só assim garantimos a visibilidade para a cadeia e o envolvimento do expositor.

Ocorre que, diferentemente do varejo e das negociações com lojistas, que são locações de longo prazo, o mercado não conseguia convencer um expositor a investir em um evento que ele mesmo não tem a garantia que poderia ser realizado dali 6 meses, por conta dos lockdowns. E sem expositor, obviamente, não conseguimos chegar ao público.

Nessa retomada da economia, faltou essa diferenciação e tempo hábil para que a cadeia pudesse tirar os eventos do papel. E aqui não me refiro aos shows, pois esse segmento social tem uma agilidade infinitamente maior que as feiras e congressos. Para isso, basta conciliar as agendas dos artistas e vender ingressos por um período curto de um a dois meses – a categoria corporativa a qual me refiro precisa minimamente de um ano para isso.

De novo, me refiro ao potencial incrível que estamos desperdiçando com feiras de negócios e congressos científicos, que poderiam estar auxiliando bastante na recuperação econômica brasileira. Antes da pandemia, nosso setor era responsável pelo equivalente a 5% do PIB nacional, pela geração de 160 mil empregos somente no estado de São Paulo e pela ativação de negócios em fábricas de todo o país.

O mercado pré-pandemia injetava R$ 350 bilhões somente na economia de São Paulo. Projetava-se um valor nacional da ordem de R$ 1 trilhão. Para alcançar os resultados que comentei, introduzindo consumo interno e exportações, expositores e visitantes aplicavam anualmente no setor de eventos de negócios aproximadamente R$ 16,3 bilhões, apenas na cidade de São Paulo.

O fato é que estamos acompanhando a “retomada” dos eventos de forma tímida e, com toda a certeza, vamos levar pelo menos dois anos para nos recuperar. Mas estamos encorajados, sobretudo pela experiência internacional, que tem dado provas de que é possível realizarmos eventos seguros, com medidas de proteção e abaixo da taxa de infecção comunitária.

O brasileiro, por natureza, é social e talvez por isso os eventos B2C (business to consumer) ainda estejam com melhores expectativas. Vimos o festival ArtRio e a 34ª Bienal de Arte de São Paulo abrirem suas portas recebendo um público saudoso. Em breve, será a vez da Fórmula 1, do Mondial de La Bière e da Bienal Internacional do Livro Rio. A ABCasa Fair, um dos mais importantes eventos da América Latina no segmento de decoração e utilidades para o lar, registrou 13 mil visitantes no primeiro dia de evento, em São Paulo, em agosto. Foram 13 mil CNPJs. Isso significa que devemos torcer pelo avanço da vacinação e a retomada da economia considerando que o mercado de eventos tem um papel extremamente fundamental neste processo – tal qual o varejo e os shoppings.

A bem da verdade, fica a lição de que nossa indústria também precisa estar melhor estruturada e ter maior capacidade de interlocução governamental, para conseguir traduzir aos gestores públicos e à sociedade as diferentes classificações de eventos, preservando o mercado como um todo. Que venha 2022.

*Milena Palumbo tem 20 anos de experiência no mercado de eventos e é CEO da GL events

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