Por que ainda temos poucas mulheres na liderança?

Karinna Forlenza*

03 de março de 2021 | 08h00

Entrevistei mais de 200 executivas para saber quais as principais barreiras que impedem a ascensão de mulheres em cargos de liderança e os fatores que mais sobrecarregam as suas jornadas até o topo. Meu intuito era entender por que, no Brasil, elas representam 42% dos cargos gerência, mas somente 14% chegam a cargos de direção e 9% aos conselhos.

Durante este processo, pude observar três mecanismos inconscientes unânimes que correspondem a habilidades pouco desenvolvidas na maioria das organizações:

O primeiro deles refere-se à visibilidade. 95% das entrevistadas apontaram que aumentar a sua visibilidade dentro das organizações é um desafio. As executivas me confessaram que não sabem ou não querem priorizar esta tarefa porque acreditam que um bom trabalho fala por si só. Que a sua visibilidade virá automaticamente se elas realizarem uma entrega exemplar.

Essa crença começa na base da carreira e segue com a mulher durante toda a sua trajetória. Não é difícil entender: na fase inicial da nossa vida profissional, as empresas nos estimulam a desenvolver a nossa especialidade, a trabalhar as competências relacionadas a nossas entregas específicas. Conforme aperfeiçoamos nossas entregas, recebemos feedbacks positivos e crescemos.

Porém, quando migramos para cargos de gerência, há uma mudança importante em termos do que é preciso para se manter na posição e crescer. Em vez de continuarmos focando exclusivamente na realização de tarefas e entregas, deveríamos priorizar a comunicação consistente dos nossos resultados e de nossa equipe para as pessoas que são chave na organização.

Mas quem ensina ou prepara as mulheres para fazerem essa passagem? São raros os treinamentos que o fazem com competência e menos ainda as empresas que os oferecem.

O segundo fator que ouvi das próprias entrevistadas está associado à dificuldade que elas têm de comunicar de forma assertiva as suas capacidades, de se posicionarem e se apropriarem de suas qualidades gerenciais. Elas afirmaram que se sentem exaustas ao longo do processo porque, mesmo trabalhando muito e com perfeição, não são notadas por pessoas influentes e não conquistam novas oportunidades, como uma promoção, por exemplo, enquanto outras pessoas, principalmente homens, passam em sua frente.

O ressentimento cresce e ela busca outra empresa para trabalhar – sem entender que o problema a acompanhará.

O terceiro e último fator inconsciente está na negação diante do jogo político corporativo: “Eu jamais farei parte daquilo” ou “Tenho preguiça” ou ainda “Deus me livre”. Reações assim são frequentes porque, infelizmente, a palavra política está associada ao jogo sujo, injustiça, àquela famosa puxada de tapete. Acontece que ter habilidade política é essencial para quem quer crescer na carreira – e, como o próprio nome diz- essa habilidade, assim como outras, é adquirível, possível de aprender e fundamental para gerar novas oportunidades no ambiente corporativo.

Por meio desses dados e da experiência que obtive no atendimento a centenas de executivas, pude constatar que apesar das empresas estarem mudando o seu pensamento e implementando políticas de diversidade, ainda há uma grande lacuna para ser preenchida entre os seus programas institucionais e a capacitação focada em COMO elas podem aprimorar essas habilidades essenciais.

Sem esse aperfeiçoamento, as empresas impedem, mesmo sem saber, as mulheres de crescerem e ocuparem de fato seus espaços na liderança. E esses mecanismos inconscientes continuarão sendo uma barreira para elas lidarem com confiança e se desenvolverem plenamente dentro do ambiente corporativo.

*Karinna Forlenza é TEDx Speaker, executive coach e mentora

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