Por que a polarização atual é tão importante para entender a crise brasileira?

Por que a polarização atual é tão importante para entender a crise brasileira?

Guilherme Baroli*

07 de maio de 2021 | 12h25

Guilherme Baroli. FOTO: CHRISTIAN PARENTE/UM BRASIL

O Brasil vive polarizações social e política há quase uma década. Embora seja difícil delimitar um início definitivo, muitos concordam que esta “fratura” começou a abrir após junho de 2013, quando diferentes setores da sociedade se encontraram momentaneamente nas ruas com uma miríade de demandas e insatisfações. Todavia, foi por pouco tempo, já que as “jornadas” terminaram formatando as aspirações de grupos de direita, de um lado – que pautaram o impeachment da então presidente Dilma Rousseff – e de esquerda, do outro. No meio disso, tivemos uma eleição tumultuada, ascensão de novos atores políticos e o fenômeno Jair Bolsonaro: de parlamentar do baixo clero a presidente da República.

O contexto atual de pandemia, que poderia ser um período de trégua suscitando uma coalizão de cooperação, não despertou tal sentimento. O País segue polarizado.

Recentemente, resolvemos abordar este assunto no Canal UM BRASIL, da FecomercioSP, em parceria com a revista Problemas Brasileiros (PB), com o brasilianista Marshall Eakin, professor de História Latino-Americana na Universidade Vanderbilt (Estados Unidos) e autor do livro Becoming Brazilians: Race and National Identity in Twentieth-Century Brazil (Cambridge Press, 2017), ainda sem tradução para o português.

Especialista em história do Brasil, Eakin acredita que atravessamos processos sociais e políticos muito semelhantes aos dos Estados Unidos, apesar de ambos os países viverem momentos diferentes: aqui, estamos, na sua argumentação, em uma “Era Trump”, embora não saibamos exatamente se o contexto seguinte, encabeçado por um governante que aspire a uma unificação nacional, como Joe Biden, acontecerá.

Lá, como se sabe, o republicano deu lugar ao democrata no começo do ano, em uma das transições presidenciais mais conturbadas da história do país.

“Agora, o Brasil tem um presidente que, como Trump, está orgulhoso em criar divisões e de não atuar em torno de uma unificação nacional. Então, a pergunta é: quem vai surgir como um Biden? Isto é, quem vai conseguir produzir um discurso de unificação?”, questionou Eakin, na primeira entrevista da série Brasil Visto de Fora, do canal, que vai ao ar até novembro.

Mais interessante ainda é que, para o professor, um dos produtos das jornadas de junho foi a volta de uma disputa entre diferentes grupos pela posse dos símbolos nacionais, como foi durante o regime militar brasileiro. É por isso, também, que as manifestações políticas que tomaram as ruas nos últimos anos se valeram tanto de características próprias: de um lado, grupos trajando camisetas da Seleção Brasileira e as cores da bandeira nacional. De outro, aqueles que aderiram ao vermelho, cor tradicional de partidos e movimentos de esquerda. Sem contar, no meio disso tudo, quem foi para a rua conscientemente evitando ambas as paletas.

“A campanha das Diretas Já! também foi um momento em que os opositores à ditadura militar disseram que aqueles símbolos, como a bandeira e o hino nacional, eram deles”, diz o professor. “O problema, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, é saber qual será o mito central da identidade nacional a partir de agora”, continua.

Esta disputa, que está no pano de fundo de muitos debates em curso no Brasil atual, diz respeito também ao mito que fez do País uma nação: a miscigenação. Isso revela, inclusive, como a polarização é tanto mais social do que política, na medida em que os consensos que ela põe em xeque envolvem a estrutura do que se tornou comum chamar de “brasileiro”.

É conhecida já a história de como o Brasil conseguiu construir uma identidade nacional no século 20 baseado nesta ideia da miscigenação, como mostram alguns autores clássicos do nosso pensamento, como Sérgio Buarque de Holanda. Ela foi difundida ao longo dos anos pelos meios de comunicação tradicionais, como o rádio e a televisão, e entraram para o cotidiano nacional com as novelas, por exemplo. O que Eakin observa no Brasil – e que tem acontecido em muitos países ao mesmo tempo – é que, agora, as redes sociais fizeram com que muitos destes consensos desabassem, permitindo que divisões, outrora encapsuladas, viessem à tona.

O debate da miscigenação se manifesta, nas disputas atuais, na maneira como elas dão conta do problema grave do racismo. Para Eakin, “o lado de Bolsonaro diz que é por isso que o Brasil tem uma democracia racial e, assim, não há como falar em racismo no País. Os que estão do outro lado defendem que, apesar dessa mistura, isso não significa que não existam problemas como o racismo e a discriminação. Isso diz respeito, sobretudo, à luta entre dois polos que buscam explicar esse mito central à identidade brasileira. Quem vai vencê-la?”, pergunta-se.

São estes tipos de debates que queremos trazer para a série Brasil Visto de Fora. É por isso que vamos conversar com outros brasilianistas, além de pesquisadores espalhados por centros de estudos brasileiros, universidades e think tanks de todas as partes do mundo, nos vídeos do canal e no podcast da publicação, a fim de refletir sobre as questões sociais, econômicas e políticas nacionais no cenário atual. No fim, em novembro, já teremos mais respostas – e outras perguntas – para oferecer ao debate público brasileiro.

*Guilherme Baroli, diretor de Conteúdo do canal UM BRASIL

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