Por que a Lava Jato acua Beto Richa e seus aliados

Por que a Lava Jato acua Beto Richa e seus aliados

Leia a íntegra da representação de 62 páginas do Ministério Público Federal pela prisão do braço-direito do ex-governador do Paraná e do empresário apontado como elo de propinas da empreiteira Odebrecht para o tucano

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

12 Setembro 2018 | 07h15

Campanha de Beto Richa é investigada no STJ. Foto: Pedro Ribas/ANPr

A força-tarefa da Operação Lava Jato no Paraná apresentou em 62 páginas todos os argumentos e provas que acredita ter reunido contra o ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB) e seu grupo de aliados muito próximos – entre eles o ex-chefe de gabinete do tucano no Governo do Estado, Deonilson Roldo, e o empresário Jorge Atherino Theodócio, suposto elo de propinas para Richa.

Nesta terça, 11, por ordem do juiz Sérgio Moro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Piloto, fase 53 da Lava Jato, e fez buscas nos endereços de Richa, inclusive em sua residência, em Curitiba, e no Palácio Iguaçu – sede do Executivo paranaense – e no comitê de campanha do tucano, que é candidato ao Senado por seu partido.

Alvo de outra operação, a Rádiopatrulha, do Ministério Público do Estado, Richa acabou preso – neste caso, sob suspeita de desvios de recursos públicos do programa Patrulha do Campo, manutenção de estradas rurais.

Na Operação Piloto, o ex-governador é suspeito de ter recebido propinas da empreiteira Odebrecht em esquema de favorecimento à empreiteira para assumir contrato das obras de duplicação da PR-323, no interior do Paraná.

Piloto é uma referência ao suposto codinome de Beto Richa nas planilhas do Setor de Operações Estratégicas, a máquina de propinas da Odebrecht que a Lava Jato desmontou.

A Lava Jato pediu a prisão de Deonilson Roldo e Jorge Atherino Theodócio. Moro mandou prender os aliados do ex-governador.

“Após aceitar a oferta dos empresários da Odebrecht, para o recebimento da vantagem indevida, Deonilson Roldo contou com o auxílio de Jorge Atherino, que atuou como verdadeiro preposto dos agentes públicos nas solicitações de vantagem indevida”, argumenta o Ministério Público Federal.

“Jorge Atherino é empresário de Curitiba com relação extremamente próxima ao ex-governador Beto Richa, sendo que na época que este estava na faculdade de engenharia da PUC/PR, foi estagiário em empresa de engenharia de Jorge Atherino.”

A representação do Ministério Público Federal é subscrita por onze procuradores da Lava Jato.

O documento cita que o ex-diretor do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) do Paraná, Nelson Leal Júnior, revelou que Beto Richa ‘possui sociedade em empreendimentos imobiliários com Jorge Atherino, tendo feito vários loteamentos em conjunto’. Leal Júnior fechou acordo de delação premiada com a Lava Jato.

“Para organização dos recebimentos indevidos, Jorge Atherino, por sua vez, foi auxiliado por Ezequias Moreira, secretário de Cerimonial do Governo Beto Richa entre 2013 e 2018, e Luiz Abi Antoun, operador financeiro do caixa geral de propinas da organização criminosa instalada no Governo Beto Richa”, sustenta a força-tarefa.

Segundo a Procuradoria, Exequias e Antoun ‘organizaram os recebimentos dos valores, no município de São Paulo, entre setembro e outubro de 2014’.

A Lava Jato destaca que Atherino aceitou receber o dinheiro via ‘caixa 2’, intermediado pelo Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht. Do valor acordado foi feita a entrega de R$ 2,5 milhões, ‘sendo atribuído o codinome ‘Piloto’ para a identificação de Beto Richa nos pagamentos’.

Na representação pela deflagração da operação que cerca Beto Richa e seus aliados mais importantes, a Procuradoria registra que um delator da Odebrecht, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, o ‘BJ’, confirmou que os pagamentos feitos para o ex-governador continham o codinome ‘Piloto’, bem como que tais pagamentos ocorreram em favor de Jorge Atherino.

Ainda segundo a Lava Jato, ‘foram aprovados pagamentos de vantagem indevida em favor supostamente da campanha de Beto Richa, no valor de R$ 4 milhões e que nunca mais tratou sobre doações de campanha com Jorge Atherino’.

“De acordo com o relatado pelo colaborador Nelson Leal Júnior, os fatos criminosos relacionados à PR 323 não se trataram de um episódio isolado de solicitação de pagamento de vantagens indevidas no Estado do Paraná. Essas práticas faziam parte de um esquema maior de solicitações sistêmicas de vantagem indevida junto a diversas empresas que possuíam contratos com o Poder Público no Governo estadual do Paraná desde o primeiro mandato do governador Carlos Alberto Richa, tendo diminuído no segundo mandato por conta da operação Lava Jato, mas não acabado.”

“Nesse contexto, a arrecadação de pagamentos indevidos era capitaneada pelas pessoas de Carlos Alberto Richa, José Richa Filho (irmão do ex-governador) e Deonilson Roldo.”

A Lava Jato diz que a arrecadação ilícita ocorria de duas formas básicas: 1) via de pagamentos mensais feitos em espécie pelas empresas para operadores do Governo fora da época das eleições; 2) por intermédio de doações de campanha, as quais podiam ser oficiais, mas eram, na maior parte dos casos, feitas por via de caixa dois entre maio e dezembro de 2014.

Nelson Leal Júnior afirmou que ‘o esquema existia em diversas áreas do Governo, podendo-se citar, por exemplo, os seguintes: DER, Porto de Paranaguá, Sanepar, Receita estadual e Fomento Paraná’.

“Os presidentes ou diretores de tais setores do governo solicitavam vantagens indevidas às empresas privadas que possuíam contratos com o Poder Público em troca de diversos atos de ofício que eram realizados por tais pessoas em prol de tais empresas. O montante da propina paga pelos empresários variava, mas em muitos casos era estabelecido um percentual de 1% a 3% de propina a partir do valor do contrato da companhia com o Poder Público.”

Ainda segundo a Lava Jato, sobre o conhecimento de Beto Richa do esquema geral de pagamentos indevidos, Nelson Leal disse que ’em 2014 teve uma reunião com o governador em que este reclamou que Neco não vinha honrando os pagamentos do Palácio Iguaçu para Luiz AbiI, dizendo que o ex-diretor geral do DER/PR deveria tirar Neco do cargo’.

“De acordo com o colaborador Nelson Leal Júnior, Luiz Abi era o principal operador de recursos ilícitos para campanha e para vantagens indevidas recebidas pelo governador Beto Richa, sendo que após a sua (Luiz Abi) prisão em junho de 2015, Deonilson Roldo assumiu este posto. Durante o tempo em que ocupou as funções de principal caixa geral dos recursos ilícitos de campanha, Luiz Abi centralizava a arrecadação dos valores de via caixa 2, como também direcionava as sobras desses recursos para enriquecimento pessoal de agentes públicos ou para remessa ao Paraguai.”

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