‘Por medo’, lobista diz que pagou US$ 10 mi de propinas

‘Por medo’, lobista diz que pagou US$ 10 mi de propinas

Julio Camargo afirmou à Justiça que pagou sob pressão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha; pelo menos US$ 5 mi teriam ido para o peemedebista

Redação

16 de julho de 2015 | 19h23

 

Julio Camargo. Foto: Reprodução

Julio Camargo. Foto: Reprodução

Atualizada às 20h51

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso, Fausto Macedo e Valmar Hupsel Filho

O lobista Julio Camargo disse à Justiça Federal nesta quinta-feira, 16, que, por “medo” e “receio”, cedeu à pressão do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a pagar US$ 10 milhões em propinas, em 2011, no âmbito de dois contratos na Petrobrás.

“Uma coisa que todo homem responsável é obrigado a ter é medo e receio. E uma pessoa que age não diretamente e tem que ameaçar você através de terceiros, já é uma pessoa a quem deve-se ter todo cuidado”, afirmou Julio Camargo, ao juiz federal Sérgio Moro que conduz os processos da Operação Lava Jato.

Julio é réu ao lado do ex-diretor de Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró e do lobista Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano, em ação penal da Justiça Federal. Eles respondem por corrupção e lavagem de dinheiro em dois contratos de navios-sondas, firmados em 2006 e 2007, com o estaleiro coreano Samsung Heavey Industries, em parceria com o grupo japonês Mitsui – representadas por Julio Camargo.

“Além do mais estamos falando com uma pessoa, que dizia ele, tem o comando de 260 deputados e, depois na eleição para líder no Congresso, isso se constatou. É uma pessoa de alto poder de influência, onde eu fico preocupado”, completou o lobista, ouvido nesta quinta-feira, em Curitiba.

Cunha disse que era merecedor de US$ 5 milhões, afirma delator

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Delator da Lava Jato, o lobista havia confessado anteriormente ter operador o pagamento de US$ 30 milhões em propina via Fernando Baiano destinada à cota do PMDB na estatal, nos contratos dos dois navios-sondas para exploração de petróleo em águas profundas.

Nesta quinta-feira, pela primeira vez, ele disse ter sido pressionado pessoalmente por Cunha a pagar os US$ 10 milhões restantes da propina, que teve os pagamentos suspensos em 2011 pelas empresas asiáticas. Desse total, o presidente da Câmara teria dito a ele ser “merecedor” de US$ 5 milhões.

Questionado pelo juiz Sérgio Moro se ele não havia revelado os fatos em depoimento anterior prestado no processo por receio, ele respondeu afirmativamente.

“O maior receio é a família, porque quem age dessa maneira perfeitamente pode agir não contra você, mas contra terceiros”, depôs Julio Camargo. “Pessoa que é pai de família sabe que machucar um ente querido é pior do que machucar a você mesmo. E o poder também de influência contra os meus negócios e minhas empresas.”

A ameaça temida por ele foi materializada, segundo ele, pela apresentação de um requerimento na Câmara dos Deputados por meio de uma parlamentar aliada do PMDB. No documento, foram pedidas apurações sobre o grupo Mitsui e o lobista nos contratos da Petrobrás.

Durante o depoimento, o procurador da República Diogo Castellar, que integra a força-tarefa da Lava Jato, indagou Julio: “O sr. citou que o parlamentar era uma pessoa agressiva”. “Agressivo não no tipo físico”, respondeu o lobista. “Diria mais sob o ponto de vista verbal, uma pessoa que tenta lhe constranger, lhe colocar a corda no pescoço, no sentido de possuir as ideias”.

Encontro. Eduardo Cunha é alvo de investigação da Procuradoria-Geral da República. Um inquérito foi aberto para investigar o suposto envolvimento do deputado na Lava Jato. Ele nega qualquer encontro e pagamento de propina a Julio Camargo.

No depoimento desta quinta-feira, o lobista afirmou ao juiz Sérgio Moro que não só detalhou aos procuradores da PGR como foram pagos os US$ 10 milhões, como apontou aos investigadores o endereço onde ele esteve pessoalmente reunido com o presidente da Câmara e o lobista Fernando Baiano, no Rio, para tratar dos pagamentos atrasados – um prédio comercial no Leblon.

“Fui bastante apreensivo. O deputado Eduardo Cunha é conhecido como uma pessoa agressiva, mas confesso que comigo foi extremamente amistoso, dizendo que ele não tinha nada pessoal contra mim, mas que havia um débito meu com o Fernando (Baiano) do qual ele era merecedor de US$ 5 milhões”, afirmou Camargo.

O lobista disse ainda que Eduardo Cunha teria citado o período eleitoral para explicar a pressa em receber os valores.”O deputado disse que isso (débito da propina) estava atrapalhando, porque estava em véspera de campanha, se não me engano uma campanha municipal e que ele tinha uma série de compromissos e que eu vinha alongando esse pagamento há bastante tempo e que ele não tinha mais condição de aguardar.”

O encontro entre os três – Julio Camargo, Eduardo Cunha e Fernando Baiano – teria ocorrido após o lobista comunicar ao suposto operador do PMDB que as contratadas não pagariam a última parte da propina. Baiano agia com desenvoltura na Diretoria de Internacional e está preso desde dezembro pela Lava Jato.

“Julio, realmente nós estamos com um problema, porque eu estou sendo pressionado violentamente, inclusive, pelo deputado Eduardo Cunha”, teria dito Fernando Baiano, segundo o lobista.

Ainda segundo Julio Camargo, o operador do PMDB disse a ele. “Isso aí vai chegar numa situação muita embaraçosa para mim, mas para você, com certeza vai ser muito mais embaraçosa”. Na versão do delator, Fernando Baiano costumava dizer que tinha vários amigos políticos. “Na verdade identificou-se que a pessoa era o deputado Eduardo Cunha.”

O procurador Diogo Castellar insistiu quais seriam as consequências caso ele não pagasse a propina. “Doutor Diogo, poderia ter retaliações em outras áreas, que eu tinha. Só tive dois contratos na área Internacional, minha atividade não tinha ligação com a área, mas poderia haver retaliações (em outras diretorias)”, afirmou Camargo.

Segundo o lobista, “era sabido” que em determinado momento o PMDB também passou a apoiar a área de Abastecimento, que era comandada pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa – primeiro delator da Lava Jato.

“Aí sim (na Diretoria de Abastecimento) onde eu tinha grande quantidade de contratos.”

COM A PALAVRA, O DEPUTADO EDUARDO CUNHA

NOTA À IMPRENSA

Com relação à suposta nova versão atribuída ao delator Júlio Camargo, tenho a esclarecer o que se segue:

1- O delator já fez vários depoimentos, onde não havia confirmado qualquer fato referente a mim, sendo certo ao menos quatro depoimentos.

2- Após ameaças publicadas em órgãos da imprensa, atribuídas ao Procurados Geral da República, de anular a sua delação caso não mudasse a versão sobre mim, meus advogados protocolaram petição no STF alertando sobre isso.

3- Desminto com veemência as mentiras do delator e o desafio a prová-las.

4- É muito estranho, às vésperas da eleição do Procurador Geral da República e às vésperas de pronunciamento meu em rede nacional, que as ameaças ao delator tenham conseguido o efeito desejado pelo Procurador Geral da República, ou seja, obrigar o delator a mentir.

Deputado Eduardo Cunha

Presidente da Câmara dos Deputados

COM A PALAVRA, A MITSUI&CO

A Mitsui & Co. gostaria de reforçar que o sr. Júlio Camargo nunca foi representante ou consultor em nenhum dos projetos da empresa. Em 2011, respondendo a um requerimento apresentado à Comissão de Inspeção e Controle da Câmara dos Deputados, o Tribunal de Contas da União (TCU) não identificou nenhuma irregularidade relacionada aos contratos da Mitsui & Co. com a Petrobrás.

COM A PALAVRA, A PGR

A Procuradoria-Geral da República esclarece que o depoimento prestado na presente data por Júlio Camargo à Justiça Federal do Paraná não tem qualquer relação com as investigações (inquéritos) em trâmite no âmbito do Supremo Tribunal Federal. A audiência referente à ação penal da primeira instância – que tem réu preso, ou seja, tem prioridade de julgamento – foi marcada pelo juiz federal Sergio Moro há semanas (em 19 de junho), a pedido da defesa de Fernando Soares, e a PGR não tem qualquer ingerência sobre a pauta de audiências do Poder Judiciário, tampouco sobre o teor dos depoimentos prestados perante o juiz.

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