Por isso eu voto

Por isso eu voto

Aline Mendes*

15 de agosto de 2020 | 15h54

Aline Mendes. Foto: Divulgação

Além de risco à saúde, a pandemia expôs nações inteiras aos olhos do mundo. Vimos — e ainda estamos vendo — líderes mundiais negacionistas, políticos disseminadores de fake news aos quatro cantos. Por outro lado, presenciamos mulheres liderando o enfrentamento e o combate à pandemia com sucesso, caso da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, que nesta semana não titubeou e determinou lockdown em Auckland, maior cidade do país, em razão da primeira evidência de transmissão comunitária após 102 dias livre do novo coronavírus.

Jacinda é o grande nome quando tentamos olhar o todo pelo lado positivo. Uma verdadeira líder. E a Nova Zelândia tem um papel importante no ponto em que quero chegar.

Voltamos ao Brasil. Na segunda-feira, a secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, Patrícia Ellen, declarou em rede nacional uma frase que me tocou muito. “Eu tenho duas filhas e todo dia eu olho e penso: como eu posso criar um ambiente que dê mais espaço para as mulheres?”. Confesso, fiquei procurando respostas.

Dois dias depois, na Marie Claire americana, deparei-me com uma reportagem intitulada “100 Influential Women on Why They’re Voting in the 2020 Election”. Agosto deste ano marca o centenário do direito das mulheres votarem nos Estados Unidos.

Michelle Obama, Hillary Clinton, Alexandria Ocasio-Cortez, Oprah Winfrey, Condoleezza Rice … 100 mulheres compartilham suas razões pessoais para votar neste ano. Por lá, é ano de eleição e o voto não é obrigatório como por aqui. Aliás, nesta semana, a senadora Kamala Harris foi escolhida candidata a vice na chapa de Joe Biden. Se eleita, será a primeira mulher a ocupar o cargo de vice-presidente no país.

Para o meu deleite, li os depoimentos um a um. Trago aqui algumas frases da Duquesa de Sussex, Meghan Markle, importante ativista dos direitos humanos. A declaração de Meghan é simples, porém profunda e nos leva à reflexão: “Eu sei o que é ter uma voz e também o que é me sentir sem voz. Também sei que tantos homens e mulheres colocaram suas vidas em risco para que sejamos ouvidos. E essa oportunidade, esse direito fundamental, está em nossa capacidade de exercer nosso direito de votar e fazer com que todas as nossas vozes sejam ouvidas.”

Embora a busca pelo sufrágio feminino tenha iniciado na Europa no século 19, as neozelandesas foram as primeiras a exercer o direito ao voto em 1893. Líder do movimento sufragista no país, Kate Sheppard é um dos nomes desta luta e foi lembrada pela Duquesa com uma citação de sua autoria: “Não pense que seu único voto não importa muito. A chuva que refresca o solo seco é feita de gotas únicas”. E Meghan encerrou seu depoimento dizendo: “É por isso que eu voto.”

No Brasil, o voto feminino foi assegurado primeiramente no Rio Grande Norte, em 1927. Foi nesse Estado que a professora Alzira Soriano se tornou a primeira mulher eleita para um cargo executivo no Brasil ao conquistar a prefeitura de Lajes. Em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, as brasileiras finalmente conquistaram o direito ao voto, após grande mobilização. Além de Alzira, Bertha Lutz, Carlota Pereira de Queirós, Antonieta de Barros são outros nomes de grande importância na conquista e garantia de direitos.

Votei pela primeira vez aos 17 anos, idade em que ainda é facultada a decisão de ir à urna no Brasil. Em razão de mudanças, já estou no meu terceiro domicílio eleitoral. Voto para mim sempre foi um direito, nunca uma obrigação. E, para responder ao questionamento da secretária Patrícia Ellen, parafraseio uma declaração da própria secretária, em entrevista concedida em 2019: precisamos de mulheres coordenando políticas públicas voltadas para as mulheres.

Um importante caminho para essa conquista é o voto. Embora sejamos 52,49% do eleitorado brasileiro, de acordo com levantamento mais recente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quando falamos de participação feminina, os números revelam que apenas 11,9% são prefeitas, 13,5% vereadoras – cargos em disputa em 2020 -, 15% são deputadas federais e 14,8%, senadoras. Nos 26 Estados e no Distrito Federal, temos somente uma governadora. Em ano de eleições municipais aqui no Brasil, com possibilidade de uma abstenção ainda maior por conta da pandemia, vamos honrar aqueles que tanto lutaram para que nós, mulheres, conquistássemos este direito.

Vote! Faça ouvirem a sua voz.

*Aline Mendes é jornalista, assessora parlamentar de comunicação e Master em Liderança e Gestão Pública – turma 7 -, do CLP – Liderança Pública. É uma das cofundadoras da Rede Mulheres Públicas, que tem olhar atento ao serviço público e seus desafios de gênero.

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