Por ‘ameaça de morte’, Procuradoria pede outra vez prisão de libertado por Gilmar

Por ‘ameaça de morte’, Procuradoria pede outra vez prisão de libertado por Gilmar

Força-tarefa da Lava Jato, no Rio, relatou nesta quarta-feira, 23, ‘novos fatos’ ao juiz Marcelo Bretas, que repassou informação ao ministro do Supremo Tribunal Federal; na terça-feira, 22, Gilmar Mendes colocou Rogério Onofre em liberdade

Julia Affonso e Luiz Vassallo

23 Agosto 2017 | 18h57

Foto: Reprodução/Ministério Público Federal

A Procuradoria da República pediu novamente a prisão do ex-presidente do Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Detro-RJ) Rogério Onofre de Oliveira na Operação Ponto Final – que investiga a cúpula do Transporte do Rio. Em solicitação enviada nesta quarta-feira, 23, ao juiz federal Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal do Rio, a força-tarefa da Operação Lava Jato afirma que ‘novos fatos’ foram levados ao Ministério Público Federal e que ‘demandam a decretação de nova prisão’.

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Os fatos novos, segundo a Procuradoria, são ‘ameaças de morte’ de Rogério Onofre a outros investigados. O ex-presidente do Detro foi preso em 3 de julho.

O Ministério Público Federal narrou que às 7h desta quarta, 23, a defesa do investigado Nuno Coelho entregou aos investigadores uma mensagem e um áudio, que contém a ameaça de Onofre – supostamente feita antes de o ex-presidente do Detro ser preso.

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Nuno e outro investigado, que estão custodiados, fizeram relatos à Polícia Federal sobre as supostas ameaças de Onofre. Em petição ao Ministério Público Federal nesta quarta, 23, as defesas de Nuno Coelho e de Guilherme Neves Vialle afirmam que a liberdade de Rogério Onofre é um ‘risco’.

“A concessão da liberdade provisória ao investigado Rogério Onofre coloca em sério e grave risco a vida e a integridade física dos requerentes, de suas esposas familiares, tendo em vista que sofreram diversas ameaças por parte desse investigado, de acordo com o que mencionaram em seus interrogatórios perante a Polícia Federal, na data de 9 de agosto de 2017”, afirmaram as defesas.

“Ainda que os requerentes estejam custodiados na unidade prisional de Bangu 8, também temem por sua vida e integridade física, uma vez que nas ameaças que sofreram por parte de Rogério Onofre este afirmou manter relacionamento com pessoas, inclusive policiais, que poderiam causar-lhes danos onde quer que fosse”.”

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Nuno Coelho disse que foi ameaçado pessoalmente pelo ex-presidente do Detro. “Que teria dito que ‘somente não o havia matado pois Nuno devia dinheiro a ele’, ‘sei aonde a sua família e do Guilherme moram’, ‘já investiguei vocês’; que Dayse não chegava a ser agressiva, mas apoiava seu marido; que também foi ameaçado pelo Rogério Onofre por telefone, via whatsapp”, relatou.

A força-tarefa informou que Guilherme Vialle ratificou o depoimento de Nuno e pediu para que não ficasse preso no mesmo presídio onde estava Onofre, por temer por sua vida.

“Foi ameaçado pessoalmente por Rogério Onofre, que teria dito que ‘somente não o havia matado pois devia dinheiro a ele’, ‘mandei meu pessoal acompanhar a rotina de vocês, não só a tua como a do teu pai e da tua esposa’; Que em uma das ameaças, Rogério disse que antes de matá-lo iria torturá-lo e empalar; que mostrou fotos de seus capangas, pareciam vinte; que Dayse não chegava a ser agressiva, mas apoiava seu marido”, relatou Guilherme.

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O magistrado decidiu enviar o pedido da Procuradoria da República para análise do ministro Gilmar Mendes, relator da Ponto Final no Supremo e que soltou Onofre nesta terça-feira, 22.

“Embora gravíssimos os fatos expostos, que implicam em ameaça à vida de outros dois investigados e de suas famílias, corroborados pelo áudio apresentado, entendo, ante o posicionamento adotado pelo ministro relator Gilmar Mendes, que este juízo está impossibilitado de, neste momento, analisar a questão, apesar de ser altamente recomendável seja proferida decisão a este respeito”, anotou Bretas.

“Deixo de apreciar, ao menos por ora, o requerimento do Ministério Público Federal e determino que se oficie ao Exmo. ministro relator dando-lhe ciência dos novos fatos, solicitando ainda a Sua Excelência que esclareça a este magistrado quais os limites disponíveis para conhecimento dos fatos hoje trazidos à apreciação judicial em regime de urgência.”

Um dos delatores da Ponto Final, desdobramento da Lava Jato, Álvaro Novis relatou que recursos oriundos do ‘caixa’ da Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes do Rio) custearam pagamentos de propina para Rogério Onofre no montante de R$ 44,1 milhões entre 2010 a 2016. O dinheiro teria sido ocultado por Onofre e a mulher Dayse Deborah Alexandra Neves – também colocada em liberdade por Gilmar Mendes – no exterior e em aplicação em imóveis.

“Há sólidas provas que comprovam o envolvimento de Rogério Onofre com a organização criminosa e o recebimento de milhões de reais de propina. Mas não é só. Além de ocultar tais valores, Onofre estava, no momento de sua prisão, ameaçando pessoas de morte”, afirma a força-tarefa da Lava Jato.

‘VOCÊS NÃO ESTÃO ACREDITANDO NA SORTE’

(LEIA A TRANSCRIÇÃO DO ÁUDIO)

“Ô Guilherme, o negócio aqui tá feio pro meu lado, cara. Eu não tenho dinheiro nem pra viajar se você quer saber. Vê se você me arruma o meu dinheiro aí, dá um jeito, vocês não estão dando solução de nada, vocês não estão conversando, vocês têm imóveis aí não dão nada, vocês não se…. Vocês devem estar agora…O que vocês devem estar fazendo? Recuperar imóveis, vão vender tudo e depois vão dizer que tá tudo vendido e eu tô ficando numa situação é… Você me dá uma resposta que eu vou aí conversar com vocês, tá? Vou aí com meu pessoal essa semana aí. Dá um jeito aí. Dá um jeito que eu vou conversar com vocês aí, com você e com Nuno. Vou conversar de outra maneira. Vou conversar mais sério porque parece que vocês não estão nem aí. Eu não tenho dinheiro aqui nem para viajar, se você quer saber. Vou de avião não dá. Gasolina tem que ter um carro desses pequeno aí. Tô sem dinheiro mesmo. Não tenho dinheiro para nada. Eu tava indo para Juiz de Fora, acho que nem vou mais porque eu não tenho dinheiro para alugar o apartamento lá. Para você ter uma ideia você vai lá no condomínio para você ver lá como está o Batel Diamond lá, que está indo para justiça porque eu não tenho dinheiro para pagar. Vocês não acreditam. Vocês não estão nem aí, cara. Vocês ficaram com meu dinheiro todo. Vocês não estão tendo noção do que eu estou passando, nem do que vocês me devem. Eu não sei o que está havendo com vocês. Vocês não estão acreditando, rapaz, na sorte. Vocês ainda não foram…morreram… porque eu quero receber, mermão. Agora eu tô percebendo que vocês não vão pagar mesmo, aí então… nós vamos resolver isso de… foda-se! Pelo menos eu esqueço essa merda aí. Passa essa escritura, caralho. O que que vocês estão esperando, cara? Tanto tempo. Demora dois anos para pegar uma procuração lá. Ficaram dois anos, vai vencer essa procuração. Ô meu Deus do céu… E outra: quem vai pagar essa escritura é vocês, eu não tenho dinheiro, que coisa!”

A reportagem não localizou a defesa de Rogério Onofre. O espaço está aberto para manifestação.

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