Ponderações pós-eleitoral

Rodrigo Augusto Prando*

30 de outubro de 2018 | 16h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

O texto que segue – com pontuais modificações – foi, originalmente, publicado objetivando para amainar os sentimentos de muitos amigos e colegas, dos que votarão em Jair Bolsonaro e dos que votaram em Fernando Haddad. Intitulei, à guisa de uma carta aberta, “Aos amigos petistas e bolsonaristas e seus simpatizantes”.

Prezados amigos petistas e bolsonaristas:

Em primeiro lugar, sim, eu tenho amigos nestas duas dimensões políticas. Não vou, aqui, como não fiz antes, rotular ninguém por qualificativos pouco condizentes com a realidade dos fatos. Ou seja: o PT no poder não foi comunista e nem socialista como Bolsonaro no poder não será nem fascista nem nazista.

Há, nos dois, PT e Bolsonaro, elementos autocráticos, muitas vezes, de desprezo à democracia, às instituições e aos adversários (estes transformados em inimigos). A eleição acabou. Um presidente foi eleito. Devemos saber perder e ganhar. Conhecemos, em grande parte, o íntimo das pessoas nestas duas situações: a tristeza da derrota e a arrogância da vitória.

Vocês, caros petistas e simpatizantes, perderam para Collor e para Fernando Henrique Cardoso – duas vezes, para FHC, no primeiro turno. Depois, ganharam quatro vezes seguidas: duas com Lula e duas com Dilma. O que vocês sentiram no domingo e no início desta semana, os eleitores e as lideranças do PSDB sentiram nos últimos 16 anos. Dói, mas passa.

O PT foi um partido que, sempre, quis ser hegemônico e, além disso, cultuou Lula, transformando-o num totem, no sagrado. O PT, em 2002, não recebeu um país perfeito, mas uma inflação controlada e uma economia estabilizada de FHC. Inclusive, vale rememorar, FHC fez, para Lula, a transição de poder mais civilizada que se conhece de toda nossa história republicana.

E o que fez o PT? Criou a primeira de suas narrativas de que FHC legou uma “herança maldita”. Daí, por diante, sempre tudo que era bom e que deu certo – “nunca antes na história desse país” – era fruto da capacidade de Lula e todos os problemas eram os deixados pelos tucanos.

Depois, em 2014, por exemplo, a propaganda eleitoral de Dilma ao invés de “desconstruir” Marina Silva, acabou por destruir sua imagem a ponto de afirmar que, se eleita, Marina tiraria o prato de comida da mesa dos brasileiros pobres, pois estava aliada com banqueiros.

Há pouco, em 2018, Lula, preso, conseguiu, politicamente, dar uma rasteira em Ciro Gomes e isolar o candidato e o PDT. Mas, agora, no segundo turno, os petistas tinham a crença de que todos – FHC, Marina e Ciro – tinham a obrigação moral de se colocarem do lado de Haddad. O PT só quer pontes quando o ponto de saída e de chegada lhe são favoráveis.

O PT insistiu na narrativa de que o impeachment foi golpe, de que Lula foi perseguido, condenado e preso sem provas, de que a eleição sem Lula seria uma “fraude”. O PT, em síntese, criou, com eficiência, a narrativa do “nós contra eles”. E, neste pleito, encontrou alguém que sabia jogar num campo político de divisões desta ordem, considerando o oponente não um adversário, mas, sim, um inimigo. Foi, aqui, que Bolsonaro começou a nadar de braçada. O PT – ainda para ficar nas metáforas – junto com Lula jogaram muita água no moinho bolsonaristas.

Doutro lado, vocês, bolsonaristas convictos e simpatizantes, tenham calma, muita calma. Especialmente, os bolsonaristas quase “teens”. Bolsonaro foi eleito. Tem força política extraordinária para o momento. Mas o poder, aqui, no Brasil, numa democracia representativa, é do povo, que é soberano. O Presidente eleito, assim, representa o povo: os seus eleitores e, também, os que não o escolheram. E, mais ainda, o poder não é absoluto, há outros poderes: o Legislativo e o Judiciário.

Vocês, amigos bolsonaristas por ocasião, que votaram no ex-capitão não pelas suas qualidades e sim porque tinham como objetivo o antipetismo, estejam atentos! Bolsonaro se apresentou como antissistema, antipolítico, antipetista e antilula. Pode ser que seja os dois últimos, pois ele é político e sempre esteve dentro do sistema que criticou.

Vocês, amigos, que votaram, segundo me relataram de “nariz tapado” e de “olhos fechados” no Bolsonaro, agora, destapem o nariz e abram os olhos e estejam atentos aos odores, especialmente aos de autoritarismo que, insisto, não tem, aqui, necessariamente, relação com o fascismo e com o nazismo.

Nosso tecido social foi esgarçado em suas relações – familiares, afetivas, de amizade, profissionais e ideológicas – e, incrivelmente, não se rompeu, felizmente. Cabe, doravante, aguardar que Bolsonaro tire a roupa de candidato e passe a suar as vestes presidenciais, com a liturgia e a responsabilidade que o cargo reclama. Cabe, essencialmente, que ele passe a governar e liderar, visto que a campanha se findou.

Foi, em tudo, uma eleição paradigmática. Uma eleição com ódio, medo e rejeição. Espero que tenhamos, paulatinamente, uma sociedade mais generosa e menos violenta, E isso não depende, apenas, de políticos. O exemplo dos líderes podem ser imitados e, por isso, a responsabilidade deles é sempre maior. Contudo, todos, todos nós, somos responsáveis pelo nosso entorno, pela civilidade, pela boa educação. A política não acabou. Acabou a eleição. Sejamos fortes e generosos, na vitória e na derrota, atentos e críticos.

É a vida que segue.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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