Política é para quem?

Política é para quem?

José Renato Nalini*

14 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O pensador George Gissing (1857-1903) afirmou que “a política é a preocupação dos semianalfabetos”. Embora tendo presente a advertência, Russel Kirk (1918-1994), um dos mais influentes intelectuais americanos teve consciência de que a política “não pode ser abandonada totalmente aos semianalfabetos”. E tinha razão.

Esse notável professor e escritor norte-americano passou a sua vida a pregar que a responsabilidade intelectual diante de problemas graves, seja em relação à vida nacional, ou quanto a questões externas, deve prestar não apenas a atenção, mas gerar um envolvimento concreto da lucidez sobrevivente.

A atividade política do intelectual deveria ser concebida como a arte do possível, evitando-se perfilhar o radicalismo. Embora o momento brasileiro seja o de um sectarismo nocivo para a Democracia, o pensamento sereno e equilibrado deve manter amplo e respeitoso diálogo com os adversários políticos. As divergências teóricas não podem impregnar as relações sociais, nem desrespeitar os cânones da civilidade e da polidez.

Vale dirigir-se aos governantes, em termos convencionais. Mediante emissão de mensagens, correspondência, ou com o uso das redes sociais. A coerência com os princípios não pode ser afetada por questiúnculas político-partidárias datadas. Uma atuação política de alguém letrado não pode limitar-se ao eventual apoio a campanhas eleitorais, ao contato com os políticos ou à crítica à condução da coisa pública de forma inadequada ou até irresponsável. Uma política saudável reclama envolvimento em causas sociais, a participação em debates, a elaboração de ensaios e artigos e uma devoção à política educacional.

Não se edifica uma Democracia consistente sem que o povo esteja preparado para entender o que está em jogo. Sem alertar o indivíduo de que o verdadeiro titular do poder é ele, mercê da opção do constituinte, que explicitou em 1988 que “todo o poder emana do povo”. E que esse poder também tem condições de ser exercido diretamente, ainda que o formulador do pacto federativo tenha sido muito tímido ao não incluir outros institutos da Democracia semi-direta, como o veto popular e o recall.

A representação não é a única modalidade a legitimar um Estado Democrático. Ao contrário, deveria ser etapa transitória até à consecução da Democracia Participativa. Esta sim, talvez a que garanta um protagonismo cidadão na gestão da coisa pública.

No atual momento brasileiro, não há muitos eleitores convencidos de que estão bem representados. O despreparo do Parlamento para enfrentar a policrise tupiniquim é decepcionante. Em lugar de abrir mão dos Fundos Partidário e Eleitoral, reduzir os partidos ao mínimo – eis que não pode existir um leque de quarenta ideologias diferentes para justificar esse número de facções – o movimento do Legislativo parece caminhar na contramão.

Noticia-se mais uma reforma eleitoral casuística: a permanência das minúsculas legendas, que só existem para perpetuar pseudo-lideranças no cenário e para a generosa partilha das verbas públicas. Os Partidos não contribuem para a disseminação de uma cultura democrática, não se preocupam com a educação política das novas gerações, embora disponham de verba e de Institutos destinados a essa propagação do saber.

Deixa passar a boiada do desmatamento, do desmanche das estruturas encarregadas do zelo ecológico, a educação em frangalhos, a saúde na UTI e na porta das necrópoles. Enquanto isso, só faz política. Rasteira, mas é o que sabe fazer.

Faz muita falta ao Brasil de nossos dias um pensador como Russell Kirk, alguém que, embora falecido em 1994, há vinte e seis anos portanto, já fazia reflexões que servem para nós, em março de 2021: “A presente vida na Terra é efêmera, duvidosa, mais parecida com uma arena que com um palco: alguns homens estão destinados a ser gladiadores ou cavaleiros andantes, não meros jogadores erradios. De espadas desembainhadas, postam-se na planície umbrosa em defesa de todos e contra tudo; quão bem eles se conduzirem em tal luta mortal determinará que condição poderão atribuir à incorrupção”.

Embora assumindo seus próprios “pecados omissivos e comissivos, na arena do arruinado século XX”, Kirk fez soar “a trombeta, empunhar a espada da imaginação” para investir contra as tolices de seu tempo.

Quem está, em nosso país, investindo contra o descalabro, o desvario, a reiterada prática do deboche, o incentivo ao armamento, o extermínio da natureza, o caos na saúde e o expressivo aumento dos desvalidos, dos invisíveis, dos despossuídos, dos desalentados, dos desnutridos, dos carentes de tudo. Até mesmo de esperança?

Que a Providência venha em socorro do povo brasileiro e faça emergir nomes capazes de impregnar de esperança e de entusiasmo para que as novas e futuras gerações não tenham de ser inclementes julgadoras desta era de inoperância e de trevas.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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