Política e paixão

Política e paixão

Homo sapiens, homo demens, e o desejo de submissão

Nicolau José Maluf Jr*

20 de julho de 2017 | 04h00

 

Nicolau Maluf. Foto: Arquivo Pessoal

A partir de junho de 2013, no Brasil, ganhou corpo um conflito que, pode-se deduzir, estava latente e que inicialmente coloca em campos antagônicos anônimos, pessoas comuns que, justamente através das redes sociais tornam manifestas suas “posições políticas,”- colocadas entre aspas dado a insuficiência dessa categorização – e deixando evidente um marcante grau de violência e intolerância. Esta é, pelo menos, a característica mais comentada dos tempos atuais, quer seja por participantes dessa rede; quer seja por análises sócio- políticas desse fenômeno.

Da mesma forma que pode-se discernir, na economia, a importância central dos fatores psíquicos- a diferença entre necessidade e desejo, o último impulsionando o consumo e a mercadoria como “fetiche”- , sem questionar aqui o seu mérito ou a sua inevitabilidade, apenas constatando a sua centralidade, pode-se igualmente lançar um olhar crítico sobre a centralidade, agora, dos fatores psíquicos na dimensão da atividade política dos indivíduos numa sociedade. Por “atividade política” classifica-se não exatamente participação politico partidária em legendas, mas posicionamentos e identidades em torno de ideias ou ideais, mesmo que de forma reservada, anônima, individual. É em relação a essa atividade politica que a violência tem se destacado.

Tem sido sublinhada a equivalência entre politica e futebol, no sentido da relação apaixonada e da defesa intransigente e acrítica, mas isso basta? Creio que não. Assistimos a um combate com aparentes matizes ideológicos. “Aparentes” porque existe um substrato que é composto pelas motivações subterrâneas que alimentam o conflito, e este é da ordem das paixões. Há outros elementos a se observar, e embora sejam mais sutis e não tão visíveis, ocupam na verdade um lugar fundamental.

O primeiro a ser apresentado não é novidade mas quase sempre ganha pouco destaque: o caráter autoritário, não democrático, totalitário das ações e suas justificativas nos representantes deste ou aquele agrupamento ideológico. Colocando-se como “portadores do BEM absoluto” tanto os da extrema esquerda como os da extrema direita – categorias, como dito antes, que já sem serventia mas aqui utilizadas para fins de clareza e simplicidade – seus atos seriam sempre justificados, meritórios. Quer seja “em nome do povo”, quer seja em nome da “moralidade e dos desígnios de Deus”, o que se encontra ao fim e ao cabo é apenas a defesa ( silenciosa) de que os fins justificariam os meios. Desde que sejam os “meus” fins. Totalitarismo e fascismo. Negro e vermelho. Além do desprezo pelo outro diferente e suas ideias, são aqueles proponentes de ações impulsivas, imediatistas, menos por convicção da necessidade de uma ação inadiável, e mais por incapacidade de vislumbrar a complexidade das sociedades contemporâneas, sua dimensão sistêmica e a interligação muita vezes sutil entre seus elementos, e o como uma escolha eventualmente eficaz de forma local e momentânea pode revelar consequências desastrosas num tempo futuro, quando o sistema evolui no tempo, ou seja, advogam medidas rasas e sem perspectiva. Movidos que são, basicamente, por motivações psicológicas, não aprendem com a experiência –rejeitam a percepção da realidade frustrante – e repetem sempre os mesmos erros.

Qualquer visita a uma rede social- ou uma mesa de bar, ou sala de aula – onde o tema seja a política evidencia essa tendência.

Não é difícil ao olhar do observador treinado encontrar motivos pouco nobres em muitas manifestações de revolta contra o quadro de corrupção sistêmica em que se transformou a realidade política brasileira. Inveja, raiva, destrutividade etc…, são fáceis de encontrar como motivações silenciosas de simpatias, antipatias e posturas ideológicas em politica, sob um olhar psicanalítico.

Há um desejo de submissão, um anseio de obediência – no sentido da obediência por estado de alienação – em parcela significativa da população. Mais ainda: haveria a tendência a recusar a liderança e as diretrizes apontadas por alguém que frustrasse esse desejo. E a violência dirigida a este. Há a violência eventualmente imposta a um cidadão por um regime político, e há também, por outro lado, o fenômeno do anseio por essa dominação. Não de forma correlata.

Uma caraterística dos regimes totalitários, tanto de estrema direita quando de extrema esquerda é a existência do “culto à personalidade”, a produção via propaganda de fidelização a um “guia”, um líder carismático que cuidaria de forma paternal das necessidades e anseios da população. Mas não é necessário que exista um regime totalitário para a expressão de uma liderança que se efetue a partir da manipulação e estimulação dos desejos de submissão. E vice-versa. Não é necessário a existência de um regime ditatorial para que se queira raivosamente destruir uma liderança que não apele a esses sentimentos, e portanto, frustre esse desejo, este anseio de submissão e o de ter o destino da sua existência determinado por um outro alguém que não si mesmo.

A obediência cega, a aceitação a crítica e a idealização da figura do líder e de suas ideias são características das seitas, grupos místico- religiosos e partidos políticos que reúnam as caraterísticas listadas para apelar emocionalmente a seus seguidores.

A análise psico-sociológica reichiana da psicologia de massas demonstra o papel central da “repressão sexual” na manutenção do individuo subjugado, alienado e consumidor de uma liderança à qual se submeter. Tanto atualmente quanto antes dos anos 60, a ideologia de massas, apoiada numa neurose de massa, produziu o mesmo fenômeno, tanto no nazismo quanto no comunismo: seres sexualmente frustrados, “famintos” por realização sexual e ao mesmo tempo famintos por moralidade repressora autoritária( não é por ser moralidade que toda moralidade é autoritária).Assim, precisam satisfazer somente de forma simbólica essa necessidade. A excitação sexual mobilizada por certos discursos de lideres populistas é real, sua satisfação, não. A satisfação não obtida expressa-se em ódio e destrutividade. E o substituto contemporâneo da moral rígida dos usos e costumes encontramos na ditadura inquisitorial do “politicamente correto”. Não queira experimentar a ira e o poder de destruição(moral e pessoal) das redes sociais.

É aparente a contradição entre a existência nos dias de hoje de significativa liberdade de atividade sexual e a afirmação sobre repressão. Sem entrar em detalhes, a agenda da valoração de uma atividade sexual compulsiva e desafetada evidencia apenas a permanência do problema, mas com outra roupagem.

Ao temor da intensidade da experiência orgástica corresponde o temor da vida em sua plenitude e responsabilidades. A autonomia tem um preço existencial. Mas muitos não desejam responsabilidade pela própria existência, querem alguém que lhes diga o que e como viver. E podem odiar e tentar destruir quem frustrar estes anseios, ao recusar tal tipo de liderança. Ou quem pensar diferente. Essa é uma importante dinâmica da vida psíquica e emocional que subjaz no âmago dos fenômenos políticos.

O homem médio, nessa leitura, deseja abrir mão de sua responsabilidade pela própria vida e ter um líder a quem seguir e obedecer. Irá também odiar e ter ímpetos violentos contra quem interpuser-se a isso. Mesmo que seja alguém desejando essencialmente a mesma coisa que ele,um “guia”, mas estando em posicionamento político partidário diferente. Qualquer possibilidade de impedimento da satisfação do seu desejo de submissão implicará ódio não somente por frustração, mas por ameaçar a própria identidade e existência psíquica.

Finalmente, é possível uma abordagem relativa a um momento político atual: Examinar a altíssima rejeição popular da figura do presidente Michel Temer, comparando com a anterior popularidade de Dilma e Lula. Qual o motivo dessa rejeição? Discordância sobre as reformas, a acusação de “golpismo”, sua liderança de um partido conhecido pelo fisiologismo? Acusações de corrupção?

Uma comparação com a popularidade de Lula, igualmente acusado de corrupção, tira a sustentação de tais argumentos. Lula é o exemplo maior da liderança por apelo emocional às estruturas de personalidade forjadas com as características de seguidores apaixonados de lideranças alienantes, conforme o descrito acima. “Pai e Mãe “dos pobres, Lula e Dilma. Temer propõe dificuldades, cortes, sacrifícios. Entendo que o motivo central para sua rejeição deve-se ao fato de sua personalidade e seus posicionamentos não se qualificarem como liderança do tipo populista e carismática, no sentido “salvacionista”. Não propõe o paraíso, nem a redenção. Não promete um “gozo” inexorável e independente da realidade. O que apresenta, explícita e implicitamente, não é uma utopia. Entendo que essa é verdadeira razão do “fora Temer”, tão generalizado na sua virulência.

Intuição sem conceito é cega e conceito sem intuição é vazio. Esta postura filosófica permite um paralelo com a formulação política e paixão e ao mesmo tempo uma analogia: Se equiparamos vontade política – um termo sempre presente nos discursos políticos contemporâneos – com intuição, na sentença filosófica, qual o termo a se empregar como contraponto a conceito? Fica à escolha do leitor.

*Nicolau José Maluf Jr. Psicólogo, analista reichiano, pioneiro do estabelecimentodo pensamento reichiano no Brasil. Doutor em História das Ciências, Técnicas e Epistemologia pelo HCTE/UFRJ. Coordenador do IFP-REICH (Instituto de Formação e Pesquisa W.Reich).

Mais conteúdo sobre:

Artigo