Política e liderança

Rodrigo Augusto Prando*

18 de setembro de 2018 | 14h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

O quadro atual, de proximidade das eleições, com escolha de deputados estaduais, federais, senadores, governadores e presidente da república reclama, sem dúvida, a reflexão acerca de alguns temas atinentes à política, à autoridade e, especialmente, do papel da liderança neste processo.

A política traz, em seu bojo, inúmeras definições, mas, aqui, é necessário destacar que a política, num espaço institucional, é uma disputa, dentro de regras do Estado Democrático e de Direito, para se conquistar e exercer o poder. Ou seja: na política há, em sua base, uma relação de mando e de obediência, na qual poucos mandam e uma maioria obedece. Na democracia, de forma mais simples, somos nós, eleitores, cidadãos, que escolhemos aqueles que exercerão o mando sobre nós e, no caso, escolhemos os membros do Poder Legislativo (deputados e senadores) e os membros do Poder Executivo (governadores e presidente da república). Assim, conquistado o poder, seu detentor torna-se uma autoridade, isto é, um poder autorizado, autorizado pela tutela da lei. Usar da força, do poder, ao arrepio das leis significa resvalar no poder ditatorial, numa tirania.

Nas palavras de Marco Aurélio Nogueira em seu livro Potência, limites e sedução do poder: “A autoridade é superior ao poder, mas nem sempre é “boa” em si mesma. Pode existir uma autoridade – um poder reconhecido e autorizado – que pratique atos lesivos ou que seja sustentada por motivações fanatizadas e absurdas. O poder de fato, por sua vez, não é necessariamente “mau” nem está destinado a prejudicar uma população. Pode ser libertador e justo, por exemplo, quando se constitui no bojo de um processo de luta contra demandas e arbítrios”. Um governante, no caso, governa numa comunidade, numa sociedade, concreta e não num plano abstrato ou ideal. E é por isso que, ainda para Nogueira, o governante confunde-se com a figura do líder. Liderança e autoridade não podem ser confundidos.

O líder, nesta ótica, tem que ser mais que um mero administrador de recursos. Deve, portanto, ser “alguém que está na liderança de um processo e que reúne certas qualidades pessoais (técnicas, intelectuais, política e morais) que lhe dão prestígio suficiente para dirigir”, escreve Nogueira. Liderar é não só mais difícil, mas, também, diferente de chefiar. O chefe manda e domina e o líder comanda e dirige. O chefe necessita de cargo, dentro da estrutura burocrática; o líder pode liderar sem cargos, sem nenhuma atribuição formal. O chefe costuma empregar a força dos estatutos, regras, normas, armas; e o líder geralmente constrói consensos e articula ideias e pessoas. Temos, pelo visto, em nossas vidas a presença de muitos chefes, mas de poucos líderes.

Ao asseverar que o líder congrega qualidades pessoais que são técnicas, intelectuais, política e morais, Nogueira, em 2018, parecia antever o atual cenário político de desalento, de escassez de lideranças, de descrédito na Política e nos políticos e, no limite, de risco à própria democracia tão duramente retomada em nosso país. Um líder, hoje, na política, deve ter uma capacidade técnica, como, por exemplo, conhecer o uso da tecnologia, compreender que somos uma sociedade conectada em rede, ser capaz de compreender as linguagens no campo das redes sociais e das diversas mídias. Deve, ainda, a liderança ter qualidades intelectuais e, aqui, não significa que se deva ter uma formação acadêmica ou um notório saber em dada área do conhecimento, mas que o intelectual é aquele que dirige, que organiza os grupos sociais, numa constante interação dialógica. Seria, de certa forma, quase esdrúxulo afirmar que um líder, aqui, no caso, dentro da política, deva ter qualidades políticas, no entanto, é uma das que mais faltam. A qualidade política implica uma visão de mundo capaz de entender que os conflitos possam ser equacionados e resolvidos por meio do diálogo, do convencimento, da troca de argumentos e ideias e não por meio da força, da eliminação física ou simbólica de seus adversários.

Em síntese, falta muita Política dentro de nossa política. E, por fim, a dimensão moral e ética do líder que, administrando recursos, construindo consensos e apontando caminhos, seja capaz de ser alguém que sirva ao Estado e à sociedade e não que se sirva do Estado e da sociedade. Uma visão e uma prática republicana, com transparência, com ética no uso dos recursos públicos. A corrupção e, também, o corporativismo, bem como como clientelismo e patrimonialismo são, infelizmente, presentes e arraigados em nossa república, a ponto de, muitas vezes, termos relação criminosa entre os interesses públicos e os interesses privados, de grupos e indivíduos.

Pensemos, pois, caros leitores quais, nos dias que correm, no ambiente eleitoral são os que podem, realmente, encarnar a condição de líder, com qualidades técnicas, intelectuais, políticas e morais. São poucos os que se enquadram? Se a resposta for positiva, o problema é de todos nós, de uma sociedade que se esqueceu de valorizar a política e de formar suas lideranças.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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