Polícia investiga loja da Zara em Fortaleza após ex-funcionários relatarem uso de código para ‘alertar’ entrada de clientes negros

Polícia investiga loja da Zara em Fortaleza após ex-funcionários relatarem uso de código para ‘alertar’ entrada de clientes negros

A partir de inquérito sobre abordagem racista à delegada no mês passado, Polícia Civil do Ceará identificou uso do código 'Zara Zerou' para avisar equipe sobre entrada de pessoas negras e abriu nova frente de apuração que mira conduta da loja de departamentos

Rayssa Motta

20 de outubro de 2021 | 18h25

Loja da Zara no Shopping Iguatemi de Fortaleza. Foto: Facebook/Shopping Iguatemi

A partir da investigação do caso da delegada vítima de racismo na loja Zara do Shopping Iguatemi, em Fortaleza, no mês passado, a Polícia Civil do Ceará concluiu que o episódio não foi pontual e que a unidade vinha discriminado clientes pela cor da pele e pelas roupas.

O delegado-geral da Polícia Civil do Estado, Sérgio Pereira, ouviu de ex-funcionários da loja de departamentos que havia orientação para identificar pessoas que ‘tivessem esteriótipos fora do padrão da loja’, clientes negros e vestidos com ‘roupas mais simples’, com o código Zara Zerou. A mensagem era transmitida pelo sistema de som para que a equipe ficasse em ‘estado de alerta’, explica o delegado.

“A partir daquele momento aquela pessoa não seria mais tratada como cliente, mas como uma pessoa nociva ao atendimento normal. E, a partir dali, aquela pessoa deveria ser acompanhada de perto por funcionários”, detalhou Pereira em entrevista coletiva.

A delegada Arlete Silveira, diretora do Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis, classificou a orientação como um ‘código de conduta de abordagem’. “Quando chega alguém fora do perfil do consumidor da Zara, alguém diz Zara Zerou. É como se aquela pessoa deixasse de ser um consumidor para se tornar uma pessoa suspeita dentro do estabelecimento”, afirmou.

Em depoimento, gerente disse que colocou delegada para fora da loja porque ela estava tomando sorvete sem máscara. No mesmo, dia clientes brancos estiveram no estabelecimento com máscara abaixada. Fotos: Reprodução

A Zara não é formalmente investigada no inquérito concluído nesta semana com o indiciamento do gerente da loja do Iguatemi, Bruno Filipe Simões Antônio, por crime de racismo, mas poderá ser responsabilizada na esfera civil por danos morais.

“O acusado agiu deliberadamente praticando o crime de racismo e, segundo a investigação, havendo a possibilidade de ser uma política da loja”, pontua o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará. “A gente vê indícios fortes de que esse tipo de tratamento discriminatório já foi registrado diversas vezes no mundo todo, não só aqui no Brasil”, acrescenta.

A Polícia Civil confirmou ao Estadão que abriu uma segunda frente de investigação para apurar a conduta da empresa. O Ministério Público do Ceará disse que pediu acesso ao inquérito policial, mas questionado sobre o motivo do requerimento de compartilhamento, não retornou até o fechamento da reportagem.

O caso aconteceu no dia 14 de setembro. A delegada Ana Paula Barroso registrou boletim de ocorrência após ter sido barrada na entrada da loja e denunciou o gerente por racismo (assista abaixo). O funcionário nega que tenha discriminado a delegada. A versão dele é a de que Ana Paula tentou entrar na unidade sem máscara enquanto tomava um sorvete e, por isso, ele teria ‘orientado’ o local adequado para que ela terminasse de comer.

Filmagens do shopping mostram que, minutos antes da abordagem, pessoas brancas entraram sem máscara na loja e não foram confrontadas por funcionários, inclusive foram atendidas pelo gerente. “Houve um tratamento diferenciado. Dois pesos e duas medidas”, disse o delegado. “Quem é negro sabe que muitas vezes o preconceito e muito discreto, mas causa um dano irreparável.”

Com a repercussão do caso, a Polícia Civil foi procurada por outras pessoas que disseram ter sido vítimas de racismo na unidade. Os relatos estão sob análise preliminar.

COM A PALAVRA, A ZARA
“A Zara Brasil, que não teve acesso ao relatório da autoridade policial até sua divulgação nos meios de comunicação, quer manifestar que colaborará com as autoridades para esclarecer que a atuação da loja durante a pandemia Covid-19 se fundamenta na aplicação dos protocolos de proteção à saúde, já que o decreto governamental em vigor estabelece a obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes públicos. Qualquer outra interpretação não somente se afasta da realidade como também não reflete a política da empresa. A Zara Brasil conta com mais de 1800 pessoas de diversas raças e etnias, identidades de gênero, orientação sexual, religião e cultura. Zara é uma empresa que não tolera nenhum tipo de discriminação e para a qual a diversidade, a multiculturalidade e o respeito são valores inerentes e inseparáveis da cultura corporativa. A Zara rechaça qualquer forma de racismo, que deve ser combatido com a máxima seriedade em todos os aspectos.”

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