Operação Pripyat prende ex-presidente da Eletronuclear e afasta atual diretor

Operação Pripyat prende ex-presidente da Eletronuclear e afasta atual diretor

Alvo principal de nova ação da Polícia Federal, deflagrada nesta quarta-feira é o almirante Othon Pinheiro, que estava em prisão domiciliar

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo, Julia Affonso e Fábio Serapião

06 Julho 2016 | 07h05

Othon Luiz. Foto: Alaor Filho/AE

Othon Luiz. Foto: Alaor Filho/AE

A Polícia Federal abriu a Operação Pripyat nesta quarta-feira, 6. O ex-presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, que estava em prisão domiciliar, foi preso.

Segundo a Federal, seis funcionários da empresa, ‘que integravam o núcleo operacional das fraudes’, tiveram a prisão preventiva decretada e o atual diretor foi afastado por ordem judicial.

O ex-diretor da Eletrobrás Valter Cardeal foi conduzido coercitivamente pela PF – quando o investigado é levado para depor e liberado.

Cento e trinta policiais federais cumprem, no Estado no Rio de Janeiro e em Porto Alegre/RS, além das seis prisões preventivas, outros três mandados de prisão temporária, nove de condução coercitiva e 26 mandados de busca e apreensão, todos expedidos pela 7º Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. A ação está sendo realizada em conjunto com o Ministério Público Federal.

As investigações da PF apontam que um clube de empreiteiras atuava para desviar recursos da Eletronuclear, principalmente os destinados às obras da Usina Nuclear de Angra 3. A investigação usou informações da delação premiada da de executivos da Andrade Gutierrez.

A Operação Pripyat apura os crimes de corrupção, peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro, sendo um desdobramento no Rio de Janeiro da 16º fase da Operação Lava Jato denominada Radioatividade, quando Othon Pinheiro foi alvo de mandado de prisão pela primeira vez em 28 de julho do ano passado.

O nome da Operação refere-se à cidade ucraniana que se tornou uma espécie de “cidade fantasma” após o acidente nuclear em Chernobyl.

[veja_tambem]

O almirante já é réu em processo na 7ª Vara Federal Criminal, no Rio. Othon Pinheiro é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, acusado de receber ao menos R$ 4,5 milhões em propinas para facilitar a contratação dos consórcios responsáveis pelas obras da usina de Angra 3.

O caso do almirante e de outros 13 acusados de participar do esquema de desvios nas obras da usina de Angra 3, estava sob responsabilidade do juiz Sérgio Moro, que cuida das ações da Lava Jato na Justiça Federal no Paraná. Por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), contudo, o caso da Radioatividade foi deslocado para a Justiça Federal no Rio.

A Radioatividade investigou uma empresa de fachada utilizada para escoar propina, a Aratec Consultoria, em nome da filha e do genro do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva. O Ministério Público Federal identificou que a Aratec a recebeu R$ 4,6 milhões entre os anos de 2007 e 2014. Entre as principais fontes pagadoras da empresa estão empreiteiras investigadas na Lava Jato como a Camargo Correa, OAS, Engevix, UTC Engenharia e empresas citadas como sendo de operadores de propina como a CG Consultoria e Link Projetos.

A quebra de sigilo da Aratec de Othon revelou que, entre 2007 e 2014, foram emitidas notas fiscais diretamente para empreiteiras investigadas pela Lava Jato e, também, para empresas de fachada ligadas à operadores na mira da força-tarefa. Entre esses empresas de fachada, estão a CG Consultoria, a Link Projetos e a Deutschebras Comercial e Engenharia.

No relatório parcial sobre a fase Radioatividade, a delegada Erika Mialik Marena, da PF de Curitiba, apontou que as empresas de fachadas que pagaram a Aratec teriam “recebido previamente depósitos de empreiteiras investigadas” e citou exemplo da Andrade Gutierrez que pagou à CG Consultoria, entre 2009 e 2014, a quantia de R$ 2,9 milhões. Desse total, destaca a delegada,a CG Consultoria depositou para a Aratec a quantia de R$ 2,6 milhões.

“Em outro exemplo, entre 2009 a 2013, a Engevix e Ecovix, que também possuíam contratos em andamento junto à Eletronuclear, declararam pagamentos para a Link Projetos no valor de R$ 1,9 milhão. Por sua vez, a pessoa jurídica Link Projetos declarou ter pago R$ 765 mil para a Aratec, no período de 2010 a 2014”, destaca ainda o relatório.

Ainda segundo o relatório da Radioatividade, à época de sua prisão em julho de 2015, o executivo da Andrade Gutierrez, Flávio Barra, informou que em reunião que definiu quem seriam as empresas vencedoras da licitação para Angra 3, Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia que também efetuou pagamentos à Aratec, “informou a todos que havia uma solicitação por parte do ex-ministro da Energia, Edson Lobão, para que as empresas participantes do consórcio fizessem contribuições para a campanha eleitoral do PMDB”.

A versão do repasse para o PMDB também foi confirmada pelo executivo Renato Ribeiro Abreu, da MPE Montagens, conduzido coercitivamente na fase Radioatividade. Ele negou o conluio para fraudar a licitação, mas confirmou que Pessoa teria dito na reunião do consórcio “que as empresas deveriam fazer contribuições para a campanha do PMDB”.

Por sua vez, quando ouvido em Curitiba, Othon negou ter recebido qualquer vantagem e informou que a Aratec “possui efetiva atividade, sendo local de exercício profissional de sua filha Ana Cristina e de seu genro Sergio Toniolo”. Ainda segundo o almirante, não seria possível esclarecer os pagamentos a ela direcionados “pois ele não teria qualquer vínculo com suas atividades”.

A reportagem procurou a Engevix. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, A ELETRONUCLEAR

A empresa não está se manifestando sobre a operação.

COM A PALAVRA, A ELETROBRÁS

COMUNICADO AO MERCADO

CENTRAIS ELETRICAS BRASILEIRAS S/A
CNPJ: 00.001.180/0001-26
COMPANHIA ABERTA

Centrais Elétricas Brasileiras S/A (“Companhia”) informa aos seus acionistas e ao mercado em geral que tomou conhecimento pela imprensa de suposta operação da Polícia Federal, iniciada na manhã de hoje, envolvendo o ex-presidente da Eletronuclear Othon Luiz Pinheiro da Silva e outros. A Companhia está verificando o episódio noticiado pela imprensa e manterá o mercado informado.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE ADIR ASSAD

“A defesa adotará todas as medidas cabíveis para revogação da prisão decretada. Os fatos datam de 2007 a 2012 e nenhum fato concreto novo ocorreu até hoje, inexistindo motivos para a preventiva. O Supremo Tribunal Federal, em habeas corpus concedido ao acusado Adir Assad no final do ano, entendeu substituir o regime fechado por domiciliar e outras restrições, sendo excessiva, desnecessária e inútil ao andamento do processo essa nova medida extrema.”

Miguel Pereira Neto