Podemos ser otimistas?

Podemos ser otimistas?

José Renato Nalini*

10 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Muitos pedem otimismo. É a metade do copo cheio que deve prevalecer, não a metade vazia. É impossível não enxergar os desafios postos a qualquer pessoa viva neste março de 2021. Há quem necessite de psicoterapia. Mas é possível encontrar dentro de si, instrumentos propiciadores de um treinamento autógeno.

É assim chamado o método idealizado no final da década de 20 do século passado, pelo psiquiatra alemão Johannes Heinrich Schultz. Ele o chamou de método de autodistinção da concentração psíquica passiva que permite modificar situações psíquicas e somáticas.

Todos temos consciência de que a angústia gera efeitos fisiológicos, reações do organismo. Quem já não experimentou aceleração do ritmo cardíaco, a alteração do sono, um descontrole da ansiedade e outras sensações desconfortáveis?

A técnica do treinamento autógeno pode funcionar para algumas pessoas. Repetir frases curtas ou fórmulas que gerem respostas. Por exemplo: “estou ficando com sono”. “Consigo domar a minha ansiedade”. “Estou me sentido bem”.  Uma espécie de auto-hipnose.

Para alguns funciona. Todavia, há um pressuposto: assimilar a ideoplasia, cujo fundamento é o de que tudo o que pensamos vai resultar em imagem mental e produzir modificações reais no organismo. E treinar a concentração passiva, ou seja: fazer com que a vontade se oriente para aquilo que se está falando.

Na verdade, tais exercícios são recomendados para angústias leves, aquelas com as quais as pessoas convivem e, às vezes, sequer se dão conta. Só que o mundo está sendo cada vez mais povoado por neuroses. Como não viver cheio de medo, se há um vírus no ar que se propaga com intensidade e que mata sem piedade? O pânico faz com que o indivíduo confunda a realidade com os seus desejos. Não tem paciência para aguardar uma solução que está cada vez mais remota. Sua mente é atormentada por ordens interiores, de uma rigidez que pode parecer hostilidade para os demais.

Nossos tempos são pródigos em suscitar uma intensificação do medo da morte. Para o psicanalista Otto Rank, ao virem ao mundo, os humanos sofrem o trauma do nascimento. Uma sensação de agonia que se experimenta ao nascer e que pode ser considerada a primeira experiência da morte. Uma passagem difícil, por um estreito canal, com dores reais. Abandona-se o conforto do ventre materno e enfrenta-se a luz, a necessidade de respirar, um desafio ignoto.

Quando as pessoas não têm a acompanhá-las a nuvem mórbida de crescentes estatísticas de letalidade, elas não costumam vivenciar medo mórbido da morte. Pois há mecanismo instintivo que impede o humano de imaginar ou elaborar o momento de sua própria morte. Para o inconsciente, a ideia de morte é algo inexistente. Embora se saiba que ela chegará para todos, indefectivelmente, na profundidade recôndita da consciência todos se acreditam imortais.

Aqueles que se dizem crentes, qualquer seja a sua fé, teriam de arrostar com resignação e força a probabilidade irrecorrível de morrer. Afinal, acreditar que esta vida é peregrinação transitória, rumo à imortalidade, é um conforto incrível. Paradoxal que tantos presumivelmente religiosos, se apavorem com a morte e não saibam encará-la de forma compatível com os postulados de sua fé.

Mas até para os agnósticos ou ateus, é possível encarar a morte com certa serenidade. A psiquiatra suíça Elizabeth Kubler-Ross afirma que a morte oferece maravilhosos experimentos. É a passagem para a “casa mais linda” ou a “libertação da borboleta do seu casulo”. A educadora Esther de Figueiredo Ferraz dizia que a vida inteira era reservada ao aprender. Até a morte ensina. A aceita-la de forma tranquila, numa entrega serena para o indecifrável mistério.

O medo continuará a existir, mas como afirmou Carl Jung, “não devemos nos entregar ao medo, mas temos de aceitar tê-lo”. Conviver com ele e domesticá-lo. Afinal, como diz o psicoterapeuta Roberto Assagioli, que criou a escola “psicossíntese”, “É preciso vencer a morte, não a morte, mas o terror da morte, que provém da não-compreensão da vida. Se você for capaz de compreender a vida e o seu fim inevitável e benéfico, você não temerá mais a morte, não mais servirá a si mesmo ser mortal, para servir ao imortal: a Deus, do qual você provém e ao qual retorna. Do ponto de vista espiritual, a morte não existe. Quando abandonamos o corpo físico, passamos para uma vida mais bela, mais luminosa e mais livre. O corpo é apenas uma veste…”.

A gratuita dádiva da existência é um dom tão precioso, tão encantador, que o mero fato de acordar é motivo para ser otimista. Afinal, ainda respiro, enxergo, ouço e posso usufruir dessa maravilha que é existir.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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