Pode-se tentar calar o juiz, mas nunca se conseguiu, nem se conseguirá, calar a Justiça, diz Cármen Lúcia

Pode-se tentar calar o juiz, mas nunca se conseguiu, nem se conseguirá, calar a Justiça, diz Cármen Lúcia

Presidente do STF e CNJ divulgou nota em defesa da autonomia dos juízes e lamentou inclusão 'em proposta legislativa de iniciativa popular, texto que pode contrariar a independência do Poder Judiciário'

Julia Affonso e Mateus Coutinho

30 de novembro de 2016 | 13h56

Cármen Lúcia. Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF

Cármen Lúcia. Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF

A presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, ministra Cármen Lúcia, divulgou nota oficial nesta quarta-feira, 30, na qual reafirmou seu integral respeito ao princípio da separação de poderes. A ministra lamentou que, “em oportunidade de avanço legislativo para a defesa da ética pública, inclua-se, em proposta legislativa de iniciativa popular, texto que pode contrariar a independência do Poder Judiciário”.

Sem nomes, Cármen Lúcia criticou o projeto anticorrupção aprovado por deputados na madrugada de hoje, no plenário da Câmara. Houve pelo menos 11 mudanças no texto do projeto de medidas de combate à corrupção que tinha sido aprovado na comissão especial, na semana passada. O texto do projeto inicial teve base na proposta das ’10 Medidas contra a Corrupção’, encampada pelo Ministério Público Federal e com apoio de mais de 2 milhões de assinaturas.

Descontentes com o parecer do relator, deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), parlamentares aprovaram emendas e destaques que incluíram novos temas e, sobretudo, retiraram trechos do pacote que dificultam investigações e flexibilizam a punição de corruptos.

Entre as mudanças aprovadas está a inclusão do crime de abuso de autoridades para magistrados e membros do Ministério Público, emenda apresentada pela bancada do PDT. A pena é de 6 meses a 2 anos de reclusão e multa.

A ÍNTEGRA DA NOTA DE CÁRMEM LÚCIA

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministra Cármen Lúcia, reafirma o seu integral respeito ao princípio da separação de poderes. Mas não pode deixar de lamentar que, em oportunidade de avanço legislativo para a defesa da ética pública, inclua-se, em proposta legislativa de iniciativa popular, texto que pode contrariar a independência do Poder Judiciário.

Hoje, os juízes respondem pelos seus atos, na forma do estatuto constitucional da magistratura.

A democracia depende de poderes fortes e independentes. O Judiciário é, por imposição constitucional, guarda da Constituição e garantidor da democracia. O Judiciário brasileiro vem cumprindo o seu papel. Já se cassaram magistrados em tempos mais tristes. Pode-se tentar calar o juiz, mas nunca se conseguiu, nem se conseguirá, calar a Justiça.

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