Pode a inovação salvar o capitalismo em crise?

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Pode a inovação salvar o capitalismo em crise?

Edemilson Paraná*

15 de julho de 2020 | 08h30

Uma das formas de investigar o que está em jogo na transformação econômica contemporânea é olhar para como se dá o encontro entre finanças e tecnologia a que se relacionam as novas formas de trabalhar e produzir, trocar e consumir. Interação no interior da qual é preciso analisar, ainda, o papel dos Estados e agentes privados.

Nas últimas cinco décadas, esse encontro – entre finanças e tecnologia – foi marcado, de um lado, pelo avanço das tecnologias da informação e comunicação e, de outro, pela integração, flexibilização e desregulamentação dos fluxos de dinheiro e capital. É no interior deste quadro em que se desenham os limites e as possibilidades das inovações que despontaram nos últimos anos.

O encontro dessas duas grandes tendências contribuiu para uma enorme reestruturação e transnacionalização da produção, para a construção de novas cadeias globais de valor e uma nova configuração do mercado mundial. Ao mesmo tempo, conferiu às finanças uma versatilidade e poder de comando sem precedentes sobre o rumo das economias, no que tem sido chamado de “financeirização”.

A tendência fundamental, a tomar pelo estado presente do encontro entre finanças e tecnologia no qual estão envelopadas as inovações contemporâneas, é de aumento das desigualdades, conflitos sociais e tensões geopolíticas. Eis a indigesta realidade oculta sob o ufanismo tecnológico que se aguça diante da falta de saídas para os impasses que se acumulam na economia mundial. Para tanto, cabe um breve panorama sobre os dois lados dessa “equação” que parece simplesmente não fechar.

Edemilson Paraná. Foto: Acervo pessoal

O mundo do dinheiro, entre pacotes de salvamento e medidas de estímulo direto ao setor financeiro pós-crise de 2008, vive uma oceânica oferta de liquidez que, para o desnudar do pensamento econômico convencional, não produziu nem inflação (a não ser inflação de ativos) nem recuperação e crescimento econômico sólido, jogando-nos em um verdadeiro impasse.

Diante deste, ao menos até a chegada da pandemia, e com algumas exceções importantes, o Estado corta ou mantém deprimido o gasto social, represa o investimento público direto e se entrincheira na posição de sócio da financeirização de tudo. Enquanto a economia real entra em estagnação ou recessão, os mercados de capitais vão “muito bem, obrigado”, sentados que estão sobre imensas montanhas de dinheiro fornecidas pelo Estado.

Neste contexto, paradoxalmente, o poder do dinheiro revela-se, ao mesmo tempo, imenso e insignificante. Imenso ao postergar e ainda manter de pé a dança das cadeiras do financismo, mas insignificante na ativação do emprego, do consumo e da produção na economia real.

No mundo da tecnologia, a seu turno, a digitalização, plataformização e automoção avançada, ainda que significativas em seus impactos, não têm se revertido em ganhos relevantes de produtividade do trabalho e crescimento econômico sustentado. Em um cenário de fluxos econômicos liberalizados, produzem-se inovações financeiras, é certo, que jogam ainda mais água no moinho da valorização financeira, mas que não parecem capazes de muito mais do que isso. Esse é o caso, ao menos até aqui, das celebradas fintechs, das criptomoedas e do Blockchain.

Até o presente momento, ademais, a chamada quarta revolução industrial não tem sido pródiga em entregar o futuro luminoso que seu discurso promete. Ao contrário, a datificação e plataformização de tudo, que vem tomando em particular o setor de serviços, se tornou a espinha dorsal da exploração intensificada, precarização e informalidade crescente do mercado de trabalho, algo que se aprofunda no contexto da pandemia.

Para parte significativa dos gigantes da tecnologia que compõem esse novo oligopólio informacional, os ganhos mais substantivos provêm antes da valorização do preço de ações e ativos financeiros de toda espécie do que da exploração econômica direta de seus inovadores modelos de negócio.

A verdade é que tanto a tecnologia quanto o dinheiro submetem-se, em suas aventuras, a uma configuração social e econômica mais ampla, uma forma de organizar e distribuir socialmente os frutos do trabalho entre as distintas classes e agentes econômicos. Isso deixa claro que não haverá nenhuma panaceia financeira ou tecnológica a nos tirar da situação em que nos encontramos. Do ponto de vista político, que é determinante, inovar é, antes de tudo, imaginar e realizar coletivamente outros modos de organizar a vida em sociedade, uma necessidade que se torna cada vez mais imperativa em tempos de crise como este.

*Edemilson Paraná é professor dos programas de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e em Estudos Comparados sobre as Américas da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros trabalhos, do livro recém-lançado ‘Bitcoin: a utopia tecnocrática do dinheiro apolítico’ (Autonomia Literária, 2020)

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