Pluralismo é saúde

Pluralismo é saúde

José Renato Nalini*

23 de fevereiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Cada ser humano é uma entidade única. Singular e irrepetível. Insuscetível de réplica. Gêmeos univitelinos não são idênticos. Obra prima da Criação, a evidenciar a exuberância da imaginação insuperável do design inteligente.

Pretender uniformizar não é só utopia. É burrice! Não se obtém unanimidade. Ela é imprópria para os humanos. Homogeneidade é característica de outros coletivos: formigueiros, colmeias, cupinzeiros.

Atento a essa realidade, o constituinte brasileiro de 1988 elegeu o pluralismo como um dos eixos inspiradores da Nação. Aqui, devem medrar múltiplas orientações de vida, distintas concepções e olhares para este mágico fenômeno da existência. Uma existência que só tem sentido se for coexistência. Harmonia entre contrários, pois isso é possível para quem acredita ser guiado pela razão.

A criatura humana tem uma vocação de perfectibilidade. A cada dia, ser um pouco melhor. A caminhada é breve. Algumas décadas e não mais. Nesse percurso, experimentar-se-á a fragilidade da espécie. Sucumbe, inesperadamente, diante de inimigos invisíveis. Embora também abatida por inimigos bem visíveis. Os que escolhem a violência, estimulada pelo insano armamento da população. Arma, repito, instrumento letal, não deveria sequer ser produzida. No século 21 já existe suficiente tecnologia para neutralizar um ser violento, sem necessidade de eliminá-lo.

O pluralismo é continuamente ameaçado, por quem se acredita detentor da verdade absoluta. A desconhecer o mistério da verdade: infinitas faces. Algo contaminado de relatividade, pois depende do ângulo, está condicionada a contextos diferentes. Cristo indagou: – “O que é a verdade?”, pois sabia que ela admite variações.

A mesma sanha armamentista propõe também a extinção de jornais. A Imprensa não se cala. Tem compromisso com a divulgação das verdades e deve acolher todas as opiniões.

Interessante assistir ao filme “Post”, com Meryl Streep interpretando a herdeira de um jornal – o “Washington Post” – diante da publicação de dossiês ultrassecretos, conhecidos por documentos Mac Namara, comprobatórios da incongruência da Guerra do Vietnã.

Pressionada por seus próprios companheiros, ameaçada pelo governo, ela decidiu publicar, porque a missão da Imprensa é noticiar. Sofreu processo judicial e, a final, a Suprema Corte Americana reconheceu sua razão.

O voto do Juiz Hugo Lafayette Black foi memorável. Ele recordou que os Pais Fundadores da República norte-americana previram a Imprensa como a guardiã das verdades, sob suas múltiplas conotações, merecendo a mais absoluta liberdade. Afinal, disse o Juiz Black, “a Imprensa serve aos governados e não aos governantes”.

Esse mesmo Justice Black havia afirmado que os Estados Unidos vivem, sim, sob uma Constituição. Mas o que uma Constituição é? E respondeu: “Uma Constituição é aquilo que os Juízes dizem que ela é!”.

Imensa responsabilidade da Magistratura, a de interpretar a Constituição. No Brasil, a cada juiz, no primeiro dia de carreira, já é conferida essa imensa prerrogativa: dizer o que é compatível com a ordem fundante e o que não está no ordenamento, pois inconciliável com sua letra. Mais ainda, e isso é de relevância extrema, inconciliável com o seu espírito.

A enfermidade democrática se manifesta por sintomas preocupantes. A patrulha na opinião. A perseguição virtual a quem pensa diferente. O boicote, o estrangulamento financeiro de órgãos não afinados com a vontade hegemônica. A guerra da boataria, potencializada pelo uso absurdamente excessivo das redes sociais.

É preciso que a lucidez reinante, embora continuamente ameaçada, continue a ser a voz dissonante. A voz que clama no deserto, precursora de eras mais amenas, em que externar a opinião seja um direito inalienável, inatacável, protegido de forma absoluta.

Proclamar que o pluralismo é princípio que merece observância plena, em todas as suas dimensões. Não só escrever sobre ele, teorizar sobre suas origens e características. Mas promovê-lo, vivenciá-lo. Pois é uma evidência da saúde mental de uma Nação.

A natureza serve como exemplo. Quantas são as suas cores? Quais as tonalidades de verde que nos inspiram a professarmos a religião ecológica? A metáfora é significativa: o verde que se devasta e se incendeia, dará lugar à cinza, tom neutral, do qual se ausenta a vida.

Sem pluralismo, não há opinião, mas falta dela, o que é melancólico. Cumpre aos patriotas manter aceso o debate, assegurar a liberdade para a livre manifestação das ideias, pois a ausência de sua diversidade e de seus antagonismos traduz a paz dos cemitérios.

A vida é o palco dos desencontros. Por isso vale a pena vivê-la.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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