Plantando árvores e escolhas

Plantando árvores e escolhas

Waldir Beira Júnior*

28 de fevereiro de 2021 | 06h15

Waldir Beira Júnior. FOTO: MARCO FLAVIO

Habitantes de centros urbanos tendem a pensar em floresta como algo muito distante de suas realidades. Nem poderia ser diferente: afinal, as particularidades desses dois ambientes são muito marcantes. No entanto, essa impressão não corresponde aos fatos. A avenida Paulista, por exemplo, no coração da maior cidade do país, tem o Parque Trianon, que nada mais é do que dois quarteirões inteiros de Mata Atlântica. No Rio de Janeiro, o maestro Tom Jobim, que afirmava ser a Mata Atlântica sua maior fonte de inspiração, morou no Jardim Botânico, em meio à vegetação.

Apesar de ser um oásis em meio ao cinza de São Paulo e uma fonte de inspiração para o Rio, a Mata Atlântica, que se estende por praticamente toda a costa litorânea do país, é a área de vegetação nativa mais degradada e fragmentada do Brasil. Mesmo sendo essencial para a regulação de clima, agricultura, pesca, energia elétrica e turismo, dela só restam hoje 12,4% da cobertura original.

Trabalhos como o da organização não governamental SOS Mata Atlântica têm se traduzido em números positivos, no esforço de preservar e restaurar essa cobertura nativa.

Dos 17 estados em que há Mata Atlântica, nove já estão no nível do desmatamento zero, com desflorestamentos abaixo de 100 hectares, como no Ceará, Alagoas e Rio Grande do Norte. Outros três estados estão a caminho desse índice: Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Goiás.

O cenário revela que é preciso um esforço coordenado com a iniciativa privada. Em tempos de ESG (a sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança), cada vez mais investidores, locais e estrangeiros, fazem da agenda ambiental uma condição para alocar seus recursos. Ficar de fora, ou deixar que só governos ou outras entidades se preocupem, não é mais uma opção, e jamais deveria ter sido. As empresas são parte da sociedade e também têm seu papel a desempenhar nessa área.

Há muito por fazer. O ano passado foi particularmente trágico para o Pantanal mato-grossense: segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), as queimadas na região consumiram mais de 20% do bioma. Foi a pior seca no Pantanal em 47 anos.

Ajudar na recuperação dessas áreas desmatadas é um projeto em que o setor privado certamente pode se engajar. A Ypê trabalha desde 2007 em parceria com a SOS Mata Atlântica no projeto Observando os Rios, que monitora a qualidade da água de 244 rios nos 17 estados que abrigam a vegetação. No ano passado, quando celebramos os 70 anos da Ypê, atingimos a marca de um milhão de árvores plantadas no Projeto Florestas Ypê, que abrange 12 municípios paulistas.

Outro ponto em que as empresas devem atuar é na prevenção da degradação desses biomas, com a opção por embalagens recicláveis, por exemplo. Ao fazer isso, a Ypê deixou de usar, nos últimos nove anos, 25,6 mil toneladas de plástico e papelão (o menor uso do papelão pode ajudar a preservar milhares de árvores e, consequentemente, melhorar a vida da sociedade).

Essas opções são, muitas vezes, adiadas ou mesmo evitadas pelas empresas por causa dos custos envolvidos. Mas somente a generalização de ações como essas poderá fazer com que os custos caiam. Além disso, em tempos de ESG, quem não respeitar o meio ambiente – o “E” da sigla – vai perder a preferência de clientes, investidores, fornecedores, parceiros, funcionários e do público em geral. Isso sim vai pesar nos resultados da companhia.

Com o empenho de todos – governo, parlamentares, ONGs, sociedade civil e empresas – é possível reverter essa situação. Fazer parte da solução é o caminho que o setor privado deve preferir, uma vez que a causa ambiental diz respeito a cada um de nós.

*Waldir Beira Júnior é presidente executivo da Ypê

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