Planilha cita entregas da Odebrecht a elos de ex-presidentes da Câmara de São Paulo

Planilha cita entregas da Odebrecht a elos de ex-presidentes da Câmara de São Paulo

Genro de Antonio Carlos Rodrigues e chefe de gabinete de José Police Neto aparecem em lista de transportadora de valores usada por empreiteira para repasses ilícitos

Fabio Leite e Luiz Vassallo

03 de maio de 2019 | 05h14

Antonio Carlos Rodrigues e José Police Neto. Foto: Ed Ferreira/ESTADÃO e Divulgação

Os nomes de pessoas ligadas a dois ex-presidentes da Câmara Municipal de São Paulo aparecem como recebedores de dinheiro da Odebrecht na planilha da transportadora de valores usada pela empreiteira para pagar propina e caixa 2 a políticos e agentes públicos na capital paulista. Os pagamentos somam R$ 1,1 milhão e teriam ocorrido em setembro de 2014.

Fabiano Rosas Alonso, genro de Antonio Carlos Rodrigues (PR), é apontado no arquivo da Transnacional como destinatário de dois pagamentos de R$ 500 mil. Rodrigues, que também foi senador e ministro, hoje está sem mandato. Já Fabio Ferreira de Araújo, que é chefe de gabinete do vereador José Police Neto (PSD), teria recebido R$ 100 mil, segundo os registros obtidos pelo Estado.

Os pagamentos aparecem com as mesmas datas, valores e senhas que estão nas planilhas da Odebrecht e do doleiro Álvaro José Novis, responsável por providenciar as entregas de dinheiro da empreiteira em São Paulo e no Rio. Esses documentos, porém, não apontavam os nomes dos intermediários – salvo raras exceções –, como a planilha da transportadora.

Nem Rodrigues nem Police Neto foram citados pelos 77 delatores da Odebrecht no acordo de colaboração premiada celebrado com a Procuradoria-Geral da República e homologado em 2017 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da Operação Lava Jato.

Ao Estado, ambos negaram que tenham recebido dinheiro da empreiteira, assim como Fabiano Alonso e Fabio Ferreira.

Apartamento. O nome de Alonso e o telefone celular usado por ele aparecem na planilha da Transnacional ao lado de duas entregas de R$ 500 mil em dinheiro que teriam sido feitas no apartamento dele no Panamby, zona sul de São Paulo, nos dias 19 e 26 de setembro de 2014. As senhas usadas nos supostos pagamentos ao genro de Rodrigues estão vinculadas ao codinome “Projeto”, atribuído pela Odebrecht ao ex-prefeito e ex-ministro Gilberto Kassab (PSD), hoje secretário licenciado do governo João Doria (PSDB) no Estado.

Presidente da Câmara paulistana durante a gestão Kassab na Prefeitura (2007-2010), Rodrigues também foi presidente nacional do PR, partido que apoiou a reeleição da presidente cassada Dilma Rousseff (PT) em 2014. Naquele ano, Carlinhos, como é conhecido, era senador, na vaga aberta pela então petista Marta Suplicy. Em 2015, ele assumiu o Ministério dos Transportes, onde ficou até o afastamento de Dilma, em maio de 2016.

Em novembro de 2017, Rodrigues e o genro foram presos na Operação Caixa d’Água, acusados de intermediar repasse de R$ 3 milhões feito pela JBS via caixa 2 para campanhas eleitorais dos ex-governadores do Rio Anthony e Rosinha Garotinho, ambos do PR. Segundo o delator Ricardo Saud, que fechou acordo de delação premiada com a PGR, o pagamento da suposta propina foi feito a Alonso a pedido de Rodrigues.
Rodrigues e o genro foram denunciados pelo Ministério Público Eleitoral do Rio por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ambos foram soltos ainda em 2017 por decisão do ministro Gilmar Mendes, do STF. A ação penal foi suspensa em 2018 pelo ministro Dias Toffoli, que viu incompetência da Justiça Eleitoral de Campos dos Goytacazes (RJ) para julgar o caso.

Rodrigues e o genro já haviam sido alvo da Polícia Federal em 2008, em operação que investigou suposta participação da dupla em um esquema de tráfico de influência e corrupção que manteve aberto um prostíbulo usado para lavar dinheiro desviado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Não houve denúncia contra eles.

Skype. No caso envolvendo o chefe de gabinete do vereador Police Neto, a indicação de um pagamento de R$ 100 mil não aparece apenas na planilha da Transnacional. Mensagens de Skype trocadas entre funcionários da transportadora de valores no dia da suposta entrega, em 18 de setembro de 2014, mencionam o nome de Fabio Ferreira e o número de telefone celular usado por ele até hoje. As informações apareceram no inquérito que investiga pagamentos a políticos do MDB feitos na mesma data.

Segundo os registros, a entrega ocorreu no 17.º andar de um prédio empresarial na Avenida Paulista, onde hoje funcionam escritórios de coworking. O valor que teria sido pago ao assessor de Police Neto está vinculado na planilha da Odebrecht ao codinome “Remoterra”, atribuído pela empreiteira à obra do Parque da Cidade, empreendimento imobiliário na zona sul.

Em depoimento, dois delatores afirmaram ter pago R$ 6 milhões de propina ao ex-secretário Orlando de Almeida Filho (Controle Urbano), já falecido, e R$ 1 milhão a um arquiteto, para conseguir a aprovação na Prefeitura, na gestão Kassab. Não houve nenhuma menção a Police Neto. Vereador desde 2005, com foco em urbanismo, ele foi presidente da Câmara no biênio 2011/2012. Em 2014, ano do suposto pagamento, tentou se eleger deputado estadual, sem êxito – declarou R$ 2,1 milhões em doações, nenhuma da Odebrecht.

COM A PALAVRA, FABIANO ALONSO

“Pode ser que usaram esse endereço. Eu não tenho a mínima ideia e não estou sabendo. Alguém usou meu nome”.

COM A PALAVRA, ANTÔNIO CARLOS RODRIGUES

“Se tem uma empresa que não tenho nada é essa daí (Odebrecht). Não tive contato nenhum com esse pessoal. Não posso falar por ele (genro). Nunca recebi dinheiro deles e estou disposto a fazer uma acareação.”

COM A PALAVRA, FABIO FERREIRA

“Não sei como esse telefone está nessa planilha. Nunca recebi nenhum valor”

COM A PALAVRA, JOSÉ POLICE NETO

“Tenho confiança absoluta no Fabio, ele é de origem humilde, tem formação na Aeronáutica, um cara exemplar. Na planilha você não consegue inferir nenhuma confirmação da hipotética entrega. Não tem nenhuma investigação em cima dele ou em cima de mim. Não recebi nenhum centavo da Odebrecht e o Fabio me falou que não recebeu absolutamente nada. Não tenho como falar na hipótese da hipótese. Não faz nenhum sentido, nexo causal, o chefe de gabinete de alguém que fazia oposição ao Haddad em 2014 estar envolvido em um negócio como esse. Ainda que não exista nenhuma investigação ou indício envolvendo a mim ou a Fábio Ferreira, estou à disposição para quaisquer esclarecimentos e espero que eventuais dúvidas sejam resolvidas.”

COM A PALAVRA, GILBERTO KASSAB

” O ex-prefeito desconhece os fatos apresentados pela reportagem e reafirma que as doações recebidas obedeceram a legislação vigente, à época.”

COM A PALAVRA, ODEBRECHT

“A Odebrecht tem colaborado de forma eficaz com as autoridades em busca do pleno esclarecimento dos fatos narrados pela empresa e seus ex-executivos. A Odebrecht já usa as mais recomendadas normas de conformidade em seus processos internos e segue comprometida com uma atuação ética, íntegra e transparente.”

COM A PALAVRA, OS ADVOGADOS DANIEL BIALSKI E JOÃO BATISTA AUGUSTO JUNIOR, QUE DEFENDEM ANTONIO CARLOS RODRIGUES E FABIANO ROSAS ALONSO

A defesa de Fabiano Rosas Alonso e Antonio Carlos Rodrigues, representada pelos advogados Daniel Bialski e João Batista Augusto Junior, repele as insinuações que lhes estão sendo atribuídas e desconhece a origem de tais “informações”. De tal maneira, a defesa buscará oportuno acesso às investigações, inclusive para requerer que seus constituídos possam ser ouvidos sobre os fatos e extirpar estas suspeitas.