Planejamento na saúde: um caminho imperativo

Planejamento na saúde: um caminho imperativo

Márcio Pizzato*

25 de fevereiro de 2021 | 11h00

Márcio Pizzato. FOTO: DIVULGAÇÃO

Já há alguns meses, o Brasil tem se chocado com os relatos vindos de Manaus. O temido ‘colapso nos atendimentos’, discutido desde os primórdios da pandemia – e que caminha para o seu primeiro e calamitoso aniversário – se concretizou em uma região afastada dos grandes centros do país e aos pés da Floresta Amazônica.

Neste momento, se faz ainda mais importante enfatizar a responsabilidade que reina sobre o cidadão brasileiro em, mais do que nunca, fazer a sua parte e se resguardar do vírus. Mas, o ponto que quero trazer é a inevitável lição que absorvemos em cenários de extrema crise e sensibilidade. Como médico, tomo a liberdade de falar pelos profissionais de saúde quando afirmo que, para nós, a vida está em primeiro lugar, independentemente de todo o resto. Juntos, precisamos lutar e atuar com agilidade para salvar vidas.

Quando a maior fornecedora de oxigênio de Manaus teve sua capacidade de produção ferida pela alta demanda de casos e internações, o colapso se instalou em uma velocidade abominável. O resultado dessa soma tem paridade ao efeito de oferta e demanda: muitos doentes e poucos (ou raros) leitos, respiradores e sem oxigênio.

Somado a esse contexto, além de um crescimento de mais de 50% no número dos casos, a taxa de letalidade também ascendeu ao índice de quase 5% – contra a média nacional, de 2,4%. Mesmo que variantes e aglomerações se tornem nítidas ao olhar clínico de quem acompanha a onda viral, estar preparado para um ambiente sensível contribui para poupar vidas. Estruturas ágeis em saúde demandam recursos, organização e tempo, e precisam ser realizadas porque vidas importam, seja uma ou sejam várias. Cientes do papel que exercemos na sociedade, atuamos em uma estratégia que assegurasse que vidas não fossem perdidas em função da falta de estrutura para atender aos inúmeros casos que se avolumavam. Todo o mercado de saúde, seja ele público ou privado, precisa ter e manter atualizados os seus planos de contingência, ainda mais em um período tão sensível quanto esse que enfrentamos.

No caso de Manaus, foi essencial colocar a mão na massa e estruturar uma rede de apoio que fosse assertiva. Para isso, o planejamento é o motor da agilidade. Muito antes da primeira onda se dissipar, estávamos pautando como iríamos apoiar a região se uma nova crise se instalasse. Estruturamos um Comitê de Crise, reforçamos a área de Epidemiologia, melhoramos o gap de informações em tempo real, promovemos um sistema contínuo de censo hospitalar, monitoramento de leitos e de casos suspeitos. Isso nos deu direções sobre as áreas com risco de colapso, fossem das redes indireta ou direta. Para nós, esta é uma causa coletiva.

Cito, ainda, a implementação da Célula Covid-19, dentro da Central de Atendimento, que oferece serviços de teleorientação, teletriagem, teleconsulta e telemonitoramento, diminuindo a pressão sobre a rede hospitalar. Para pulmões que carecem de oxigênio, tempo é vida. E neste sentido, atuamos ainda nas remoções de pacientes em estado crítico, para o qual há um extenso protocolo a ser seguido. A ação estruturada possibilitou a remoção de mais de 20 pacientes para outras regiões do país, sem contar as inúmeras solicitações de transferência tratadas e avaliadas com máximo rigor.

Por meio de exemplos que vi e vivi, reforço que a criação e sustentação de sistemas ágeis de saúde devem antever o caos. Quando há vidas envolvidas, precisamos sempre estar a um passo à frente da sensibilidade. O que aprendemos nos últimos meses serve de lição para as outras cidades e nos motiva a seguir cuidando e salvando vidas. Firmo, novamente, um compromisso integral com a saúde de nossos pacientes, com a parceria ativa e promissora entre o público e o privado e, essencialmente, com o olhar atento e educativo sobre a prevenção. Que possamos pensar no bem da coletividade e que sigamos engajados em defesa da vida.

*Márcio Pizzato é médico anestesiologista e diretor Administrativo e Financeiro da Central Nacional Unimed

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