Pixuleco mostra Mensalão II para Dirceu mesmo quando preso

Rastreamento indica depósitos mensais que somaram R$ 21,3 milhões, entre 2003 e 2014, para empresa de ex-ministro da Casa Civil

Redação

03 de agosto de 2015 | 16h43

Foto: Dida Sampaio

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Atualizada às 18h34

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

A Operação Pixuleco, 17.º capítulo da Lava Jato, revela que o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil/Governo Lula) recebeu pagamentos mensais que somaram R$ 21,3 milhões de três grupos empresariais mesmo durante o período em que era investigado, processado, julgado e preso do Mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), entre 2009 e 2014.

Dirceu foi condenado criminalmente pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal por crimes de corrupção passiva na Ação Penal 470 (Mensalão), em julgamento finalizado em 17 de dezembro de 2012. A investigação começou em 2005. Ele foi preso em 15 de novembro de 2013. Em 28 de outubro de 2014, o STF autorizou o cumprimento do restante da pena de Dirceu em prisão domiciliar.

Nesta segunda-feira, 3, José Dirceu foi preso na Pixuleco. Segundo investigadores da Lava Jato, os pagamentos a Dirceu realizados mensalmente por duas empresas indicam a existência de um outro Mensalão para o ex-ministro. Os depósitos permanentes a cada 30 dias foram descobertos por meio da quebra do sigilo bancário da JD Assessoria.

Empresa de Dirceu era recebedora de pixuleco, aponta Lava Jato

Para investigadores, ex-ministro buscou enriquecimento pessoal

A investigação, segundo a força-tarefa da Pixuleco, constatou que além de propinas de grandes empreiteiras, como a Camargo Corrêa, OAS e a UTC Engenharia, Dirceu recebeu valores de outras empresas não investigadas na Lava Jato.

“Embora não envolvida na Operação Lava Jato, consta que a EMS S/A, empresa farmacêutica, depositou R$ 8.446.500,00, em parcelas mensais, na conta da JD Assessoria entre 15 de setembro de 2009 e 20 de agosto 2014, ou seja, inclusive quando José Dirceu já estava recolhido à prisão (Papuda/Brasília)”, destacou o juiz Sérgio Moro, no decreto de prisão do ex-ministro.

Também depósitos mensais teriam sido realizados pela Monte Cristalina Ltda, somando R$ 1,3 milhão. “Embora não envolvida na Operação Lava Jato, consta que a empresa Monte Cristalina Ltda. depositou R$ 1.379.625,00, em parcelas mensais, na conta da JD Assessoria entre 2 de janeiro de 2009 a 3 de fevereiro de 2014, ou seja, inclusive quando José Dirceu já estava recolhido à prisão”, registrou o juiz da Lava Jato.

Uma terceira empresa, a Hope Recursos Humanos, que mantém contrato com a Petrobrás, também teria feito pagamentos mensais a Dirceu. Entre 2004 e 2013, a empresa repassou R$ 96 mil a cada 30 dias na conta da empresa do ex-ministro, em um total de R$ 11,5 milhões.

“Seriam pagos cerca de 3% dos “valores líquidos faturados à Petrobrás”, o que corresponderia a cerca de 500 mil reais mensais, sendo os valores entregues a Milton Pascowitch”, destacou o juiz da Lava Jato.

“Dos valores, cerca de R$ 180 mil ficariam com Fernando Moura (lobista ligado ao PT, segundo a Polícia Federal) e o restante seria dividido entre (o ex-diretor da Petrobrás) Renato Duque (40%), José Dirceu (30%) e Milton Pascowitch (30%). Na Hope, declarou Milton que a propina era tratada com Raul Andres Ortuzar Ramirez ou Rogerio Penha da Silva, diretores da empresa. Segundo Milton Pascowitch, os pagamentos teriam sido feitos até o final de 2013, tendo se iniciado em 2004.”

O juiz da Lava Jato não considera razoável que alguma empresa contratasse serviços de consultoria de alguém processado pelo Supremo Tribunal Federal. “Não é crível que José Dirceu, condenado por corrupção pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal, fosse procurado para prestar serviços de consultoria e intermediação de negócios após 17 de dezembro de 2012 e inclusive após a sua prisão.”

“Em realidade, parece pouco crível que fosse procurado até mesmo antes, pelo menos a partir do início do julgamento da Ação Penal 470 pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal em meados de 2012”, assinala Sérgio Moro.

O juiz federal cita, em seu despacho, trechos da delação premiada do lobista Milton Pascowitch, peça central da Operação Pixuleco. “A realização dos pagamentos após 17 de dezembro de 2012 é mais um indicativo de que os pagamentos não consistiam em contrapartida à consultoria ou à intermediação de negócios reais, mas sim a acertos de propinas pendentes por contratos das empreiteiras com a Petrobrás, como admitiu, expressamente, Milton Pascowitch em relação aos contratos da Engevix.”

COM A PALAVRA, A MONTE CRISTALINA

A holding Monte Cristalina, que possui uma carteira extensa de negócios em vários setores, esclarece que contratou análises e palestras eventuais sobre o cenário político brasileiro junto à JD Consultoria e Assessoria, como um dos suportes a suas decisões de investimentos. Os valores cobrados pela JD sempre estiveram em linha com os preços praticados pelo mercado de consultoria.

A Monte Cristalina esclarece ainda que nenhuma empresa em sua carteira de investimento tem contrato de fornecimento com o setor público.

COM A PALAVRA, A HOPE

“A Hope informa que sempre colaborou e continuará colaborando com as autoridades. A empresa tem certeza de que, ao final das apurações, tudo será esclarecido.”

COM A PALAVRA, A EMS

A EMS contratou a empresa JD Assessoria e Consultoria Ltda., que tem como um dos sócios o ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu, com objetivo de expandir e diversificar seus negócios, principalmente no exterior. Tal contratação se deu principalmente em razão da vasta experiência econômica e visão de mercado do ex-ministro.

Tudo o que sabemos sobre:

José DirceuMensalãooperação Lava Jato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.