PIX, XP e open banking

PIX, XP e open banking

José Renato Nalini*

02 de setembro de 2020 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O clima de crise nem sempre permite que as pessoas tenham olhos para outras notícias que não sejam as tragédias diuturnas. Entre pandemia e os malfeitos na política, não há muito o que escolher no cardápio triste dos últimos meses. Nada obstante, é bom prestar atenção para aquilo que os millenials estão promovendo. As gerações que já nasceram com chips, os chamados “nativos digitais” prometem mudar ainda mais a vida de qualquer pessoa.

Duas novidades alvissareiras são o PIX, sistema de pagamentos instantâneos que tornará obsoleto o cartão e sepultaria de vez o papel moeda e o open Banking, que prevê o compartilhamento dos dados bancários do cliente entre várias instituições.

O PIX entrará em vigor em 16 de novembro, se o Judiciário deixar. O uso do celular será suficiente para fazer transferência de uma quantia, sem ter de se servir da conta corrente, do CPF, nome completo, data de nascimento, endereço residencial, RG, título de eleitor, carteira de motorista, etc. etc. Acaba a necessidade de caixa eletrônico, de cartão e de guardar as irritantes senhas.

No final de novembro deverá também estar disponível aos correntistas o open Banking. É a possibilidade de se servir de vários bancos ou instituições financeiras simultaneamente. O correntista poderá eleger os serviços mais convenientes. Não estará na “camisa de força” de ser cliente de uma só casa bancária.

À evidência, isso propiciará o acirramento da concorrência e talvez o consumidor venha a ser beneficiado com o barateamento de alguns serviços. O mais importante é que a adoção simultânea dessas duas novidades equivalerá à inclusão de milhares de brasileiros a um universo do qual estão desprovidos. A pandemia escancarou a miséria dos invisíveis e dos informais, que iniciam a cada manhã a epopeia de obter alimento para si e para a prole.

Eles não têm moradia, saneamento básico, emprego ou perspectivas de vida digna. Mas têm celular! Divulgou-se há mais de um ano que os brasileiros detinham 265 milhões de mobiles, para uma população de cerca de 210 milhões de habitantes. Uma pesquisa empírica diria que todos os seres humanos neste país, à exceção das crianças de tenra idade e dos imobilizados por coma vegetativo, usam e sabem como se servir da comunicação eletrônica.

É a bancarização promovida sem banco. Há cinco grandes bancos no Brasil e, para muitos, eles são vilões. Obtiveram, segundo o Ministro da Economia, financiamentos públicos para a obtenção de crescente lucro e consolidação como as empresas mais rentáveis do mundo.

Bom sinal, por isso mesmo, o surgimento das chamadas fintechs. Com o open Banking, elas concorrerão de fato com as gigantescas instituições financeiras. Assisti a uma entrevista com Guilherme Benchimol, o criador da XP, e fiquei bem impressionado com esse jovem que acreditou em inovadoras fórmulas de fazer captação. Torço para que a XP continue sua escala ascensional, pois isso provoca mudança no sistema com que o monopólio dos grandes nunca se preocupou.

Os novos tempos reclamam eficiência e agilidade. Quem não se ajustar a tais exigências terá um destino pouco nobre: será descartado. É preciso ter antenas atiladas e bom faro para não perder as oportunidades e para se adequar à realidade imposta pela Quarta Revolução Industrial.

Verdade que no Brasil é tudo mais difícil. As duas boas novas – o PIX e o open Banking – concorrem com a desastrada opção por se criar mais uma cédula: a de duzentos reais. Na contramão do mundo. A ignorar o que acontece em Países que queimaram etapas e comprovaram que existe, sim, evolução per saltum. Ou seja: quando há vontade, seriedade, meta e firmeza, o êxito é consequência inexorável.

A potencialização do uso benfazejo das bugigangas eletrônicas que hoje servem para tudo ainda é ignorada por setores que insistem no anacronismo rançoso de realização de eleições pela forma tradicional. Com a mobilização de legiões que se arriscarão a comparecer aos locais destinados a colher a vontade do eleitorado, sempre requisitados a particulares que interrompem suas atividades e enfrentam vistosos contratempos.

Numa época de pandemia é um atentado à saúde fazer eleição presencial. Quando ela seria perfeitamente viável mediante o uso dos mobiles. Mas é o atraso a conviver com o progresso. Este custa a entrar, porque os defuntos custam a sair das entranhas do Estado brasileiro, com os seus corpos pútridos da burocracia, da corrupção, do excessivo apego à forma e pelo crescimento doentio de uma estrutura ineficiente e viciada.

Parece a configuração de uma luta do bem contra o mal. Para os otimistas, ela terminará com final feliz. Mas até quando se terá de aturar a necrosada visão de um Estado onisciente, onipotente e prepotente?

A esperança é a vitória dos millenials, que enxergam o mundo com outros olhos e que terão a responsabilidade de reverter os rumos desta nau, para conduzi-la a porto seguro e acolhedor. É o que se espera.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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