Pivô da crise Bolsonaro x PF vai para a Europol

Pivô da crise Bolsonaro x PF vai para a Europol

Diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre de Souza, designou o ex-superintendente da PF do Rio de Janeiro Ricardo Saadi, para a função de Oficial de Ligação junto a Europol; missão do delegado em Haia terá duração de dois anos

Redação

09 de julho de 2020 | 17h02

O ex-superintendente da Polícia Federal no Rio, Ricardo Saadi. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

O diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre de Souza, designou o ex-superintendente da PF do Rio de Janeiro Ricardo Saadi, para a função de Oficial de Ligação junto a Europol. De acordo com portaria publicada no Diário Oficial da União nesta quinta, 9, a missão do delegado em Haia terá duração de dois anos.

Saadi foi o pivô da primeira crise pública entre o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro e o presidente Jair Bolsonaro, em agosto de 2019, e sua possível indicação ao cargo junto ao Europol foi mencionada no depoimento que prestou no inquérito sobre suposta interferência política do presidente na Polícia Federal. A investigação foi aberta por causa das acusações feitas por Moro ao anunciar sua demissão do governo em abril, motivada justamente pela ‘independência’ da PF. O interesse de Bolsonaro na PF do Rio é um dos pontos centrais das apurações.

Em seu depoimento, Saadi contou que em junho e julho de 2019, o ex-diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo – homem de confiança de Moro – estabeleceu contato por telefone afirmando que havia a época a persistência de criação de uma vaga para missão representativa da Polícia Federal na Europol e que o então chefe da PF no Rio teria o perfil adequado para essa função. O delegado indicou ainda que consultou sua família sobre o assunto e que a resposta foi positiva.

Um mês depois se deu a primeira crise pública entre Moro e Bolsonaro, quando o presidente antecipou a informação da saída do então superintendente da PF no Rio, justificando que seria uma mudança por ‘produtividade’ e que haveria ‘problemas na superintendência’.

A indicação foi rebatida pela PF que afirmou que a saída de Saadi não tinha relação com desempenho. A posição foi reafirmada no inquérito MoroxBolsonaro pelo número 2 da corporação, delegado Carlos Henrique Oliveira, que em depoimento desmentiu o presidente, negando que a saída de seu antecessor na superintendência fluminense, Ricardo Saadi, se deu por ‘questões de produtividade’.

Na mesma nota em que rebateu Bolsonaro, a PF apontou ainda que novo superintendente do Rio seria Carlos Henrique Oliveira Sousa. Como revelou o Estadão, o nome de Sousa foi incluído na nota propositadamente para evitar uma indicação política da parte do presidente.

No mesmo dia, 15 de agosto, Saadi diz que recebeu uma ligação de Valeixo afirmando que havia decidido ‘adiantar os planos de troca’ da superintendência do Rio e que iria levá-lo para Brasília, ‘não revelando eventuais razões para tanto’.

Segundo o delegado, a previsão era de que ele permanecesse na chefia da corporação no Rio até o final de 2019 e, em 2020, seria transferido para Brasília. O superintendente alega que planejava a transferência por razões familiares, por ter parentes em São Paulo e na capital federal.

Saadi afirmou ainda que no mesmo dia voltou a falar com Valeixo, que ‘lhe afirmou que teria havido um pedido de troca de superintendente da Polícia Federal do Rio de Janeiro’.

O então chefe da PF no Rio concordou com a mudança, mas alega que ‘não ficou esclarecido’ a ‘origem nem outros detalhes’ envolvendo tal ‘pedido’ de substituição no comando da superintendência fluminense.

Um dia após a movimentação da PF, Bolsonaro afirmou que ‘ficou sabendo’ que quem assumirá a chefia da corporação fluminense seria o chefe da corporação no Amazonas, Alexandre Silva Saraiva, amigo dos filhos do presidente. Em nova entrevista, horas depois, baixou o tom. “Eu sugeri o de Manaus. Se vier o de Pernambuco não tem problema, não”, afirmou.

Na semana seguinte, o presidente ainda ameaçou demitir Maurício Valeixo como forma de demonstrar que é ele quem manda na corporação e não o então ministro da Justiça, Sérgio Moro.

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