Picciani admite à PF vendas de gado à empreiteira

Picciani admite à PF vendas de gado à empreiteira

Citado na delação premiada da Carioca Engenharia, presidente licenciado da Assembleia do Rio, preso desde 21 de novembro na Operação Cadeia Velha, fez longo depoimento aos investigadores em 14 de novembro

Julia Affonso

11 de dezembro de 2017 | 05h00

Jorge Picciani.. Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

O presidente licenciado da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Jorge Picciani (PMDB-RJ), admitiu à Polícia Federal duas operações de venda de gado da empresa Agrobilara, controlada por sua família, à empresa Zi Blue, controlada pela Carioca Engenharia. O velho cacique do PMDB fluminense prestou depoimento em 14 de novembro, quando foi alvo da Operação Cadeia Velha, desdobramento da Lava Jato.

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Picciani e seus colegas de partido e de Assembleia, Paulo Melo e Edson Albertassi, estão presos desde 21 de novembro. O Ministério Público Federal denunciou os peemedebistas e outros 16 investigados na terça-feira, 5, por corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Em abril de 2016, como parte do acordo de leniência da Carioca Engenharia, a matemática Tania Maria Silva Fontenelle, ligada à empreiteira, afirmou ao Ministério Público Federal ter comprado ‘vacas superfaturadas’ da Agrobilara.

Segundo a executiva, ela gerou caixa 2 para a empresa por meio da compra de animais. Fontenelle afirmou que as vacas ‘foram efetivamente entregues, porém parte do valor pago foi devolvida em espécie à Carioca Engenharia’.

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A PF questionou Picciani sobre a venda de 160 cabeças de gado para a Zi Blue em meados de 2012 e em 2013. Segundo o peemedebista, Ricardo Pernambuco, um dos controladores da Carioca, ‘tem muito conhecimento (50 anos) na área de criação de nelores’.

“Admite ter havido duas aquisições, nos anos de 2012/2013, pela empresa Zi Blue, de 160 cabeças de gado da empresa Agrobilara; que o declarante participou diretamente desta negociação”, afirmou Picciani. “Pela experiência, Ricardo escolheu boas matrizes genéticas; que após a escolha, foi fixado o valor da negociação, sendo paga em 10 parcelas a aquisição realizada em 2012, e a de 2013, também sendo paga em 10 parcelas.”

Segundo o Ministério Público Federal, as operações de compra e venda de 160 vacas, efetuadas entre a Agrobilara e a Zi Blue, entre 2012 e 2013, tiveram pagamentos efetuados no período de 25 de maio de 2012 a 6 de janeiro de 2014, no montante de R$ 3,5 milhões. Os procuradores afirmam que o negócio gerou a devolução em espécie de R$ 1 milhão para a Carioca.

Jorge Picciani descreveu à PF as atividades da Agrobilara. O peemedebista afirmou que se trata de uma empresa de participações que ‘tem como atividade principal, a agropecuária, mas também arrenda imóveis para o plantio de soja e cana, bem como participa de outras empresas como cotistas ou acionistas’.

“A Agrobilara possui uma fazenda no município de São Félix do Araguaia, em Mato Grosso, arrendada para plantio de soja; que também possui um imóvel em Uberaba/MG, que possui quatro matrículas, arrendadas para o plantio de cana de açúcar; que ainda em Uberaba possui duas fazendas e um chácara onde estão o criatório e os animais; que ainda tem uma pequena propriedade na cidade de Veríssimo/MG, que atualmente está sem atividade, no aguardo de arrendamento ou venda; que possui uma fazenda pequena, na cidade de Rio das Flores/RJ; que todos esses imóveis estão em nome da pessoa jurídica Agrobilara”, relatou.

O presidente licenciado da Assembleia do Rio informou que sua fonte de renda é composta por ‘seu salário, enquanto deputado estadual, uma aposentadoria, também como deputado estadual, além de prolabore e distribuição de lucros da empresa Agrobilara’.

Picciani declarou não ter ‘negócios, bens ou contas no exterior’.

À PF, o deputado relatou ter negociado gado com o ex-presidente do Tribunal de Contas do Rio Jonas Lopes. Em delação premiada, Lopes disse que ajustou com Picciani ‘o subfaturamento da operação de compra do gado’.

O velho cacique disse que ‘entabulou negócio entre Jonas Lopes e a Agrobilara’.

A PF o questionou se teria negociado com Jonas Lopes a ‘devolução de parte do valor do negócio em dinheiro em espécie’. O deputado afirmou que ‘não houve qualquer devolução de valores envolvendo Jonas Lopes e a Agrobilara’.

No depoimento, prestado no dia da deflagração da Cadeia Velha, Jorge Picciani afirmou ‘nunca’ ter recebido doação de campanha ou qualquer vantagem por parte dos empresários do ramo de transporte’.

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