PIB: dados são desoladores mesmo para os mais otimistas

PIB: dados são desoladores mesmo para os mais otimistas

Queda de produtividade de diferentes setores da economia aliadas igualmente na retração de investimentos, além de indicadores de confiança em baixa, desenham cenário nada amigável para os próximos meses

Roberto Dumas*

06 de junho de 2019 | 08h00

Roberto Dumas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Mesmo os não versados em economia esperavam um crescimento do estilo chinês, mas crescer apenas 0,5% ao ano no 1°trimestre de 2019, comparado com o mesmo período de 2018, e cair 0,2%, quando comparado com o 4.º trimestre de 2018, é de deprimir até o mais poliano bolsonarista.

Mas por que caímos 0.2% no 1.º trimestre? O que aconteceu? Ou o mais importante de tudo: como será daqui para frente? Passaremos a crescer, pelo menos um pouco mais, ou cairemos em uma situação recessiva de mais dois trimestres em queda da atividade econômica.

Difícil dizer e afirmar com 100% de probabilidade, mas como economista preciso alocar probabilidade de eventos econômicos, mas antes disso vamos destrinchar um pouco os números do 1°trimestre do corrente ano.

Se analisarmos pelo lado da oferta trimestre versus trimestre (TaT %), a queda de -0.2% do PIB deveu-se basicamente a uma menor produtividade da indústria (0,7%), esta devido a um declínio de 6.3% da indústria extrativa (Brumadinho), além do fraco desempenho da construção civil (2.0%) e da queda do setor da construção, além de outros 0.5% de declínio na indústria de transformação.

Pelo lado da demanda, o que chama a atenção, e mostra uma falta de confiança na economia brasileira, é a queda de 1.7% dos investimentos durante o mesmo período.

Por outro lado, se compararmos o 1°trimestre de 2019 com o mesmo período do ano passado (AaA%), a economia doméstica logrou crescer 0.5%. Nenhum motivo para regozijo, dado que os dados vêm mostrando tendências claras de desaquecimento.

Apesar desse crescimento, mesmo que pífio, a indústria recuou 1.1%, basicamente devido a uma queda de 3.0% da indústria extrativa e 2.2% de queda do setor de construção, o que representa a 20° queda consecutiva do setor, além de o declínio de 1.7% da indústria de transformação.

Quando observamos pelo lado da demanda, novamente os dados não são nada animadores. O principal motor da economia, consumo, continua crescendo cada vez menos, inclusive os investimentos. Esse último crucial para impulsionar a capacidade produtiva ou o PIB potencial do país abrindo espaço para uma recuperação do consumo lá na frente sem pressões inflacionárias.

Mas mesmo que os dados não agradem os mais otimistas investidores do Brasil, há de se avaliar ou pensar sobre como a economia se comportará daqui por diante.

Vejamos: além de utilizar indicadores antecedentes que tendem a antecipar movimentos econômicos como os índices de confiança, o desemprenho de alguns segmentos econômicos podem nos ajudar a prever com algum grau de certeza ou confiança os próximos movimentos econômicos.

Se tomarmos como exemplo o setor automotivo e identificarmos uma tendência de alta ou de baixa, essa percepção acaba servindo como um indicador de desempenho de outro segmento econômico, como o siderúrgico, que fornece para o setor automotivo e o setor de autopeças.

De acordo com os últimos dados publicados pela Anfavea, de janeiro a abril de 2019, o licenciamento de veículos caiu 2.4% (AaA), ao passo que a produção recuou 0.1% e a exportação impressionantes 45% (AaA), este último indicador devido a crise do nosso maior importador de veículos. A Argentina enfrenta uma crise cambial, corporativa e econômica grave com taxas de juros de 67% e expectativa de recuo de PIB em 2019 de mais de 1,5%.

Já pelo lado dos Indicadores de Confiança, que nos alertam muito bem sobre como deverá ser o comportamento dos agentes correspondentes em dois ou três meses, o cenário não parece nada promissor.

Exemplo: o Índice de Confiança da Indústria tem caído desde fevereiro de 19 quando estava no seu ápice (99,0 para 97,2). Já o Índice de Confiança do Setor de Serviços caiu desde janeiro de 98,2 para 89,0 pontos em maio deste ano.

Por outro lado, o Índice de Confiança da Construção Civil caiu. Em janeiro de 2019 era de 85,4. Em maio despencou para 80,7.

Já o Índice de Confiança do Consumidor, que representa um excelente indicador antecedente sobre o comportamento de compra dos consumidores, também caiu de 96,6 para 86,6 entre janeiro a abril de 2019.

Medido pela Fundação Getúlio Vargas, o Índice de Confiança do Comércio recuou 5,4 pontos em maio, ao passar de 96,8 para 91,4 pontos, retornando ao mesmo nível de setembro de 2018. Por fim, o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) da FGV, avançou 8,1 pontos em abril, para 117,3 pontos, o maior nível desde setembro de 2018 (121, 5 pontos).

Enfim, por mais que o otimismo impere na leitura de alguns analistas, fica se cada vez mais claro que o ano de 2019 acabou em termos de crescimento econômico. Desde o começo do ano temos visto economistas revisarem suas projeções de 2,5% para 1,0% de crescimento do PIB.

Com os novos dados publicados pelo IBGE e os índices de confiança caindo, não me admiraria que uma nova rodada de revisões para baixo fossem publicadas pelos bancos logo em breve.

*Roberto Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra, Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China), graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Em 2016 e 2017 atuou no banco dos Brics em Shanghai (New Development Bank) nas áreas de operações estruturadas e risco de crédito

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