PF vê elo entre lobista do PMDB e Transpetro

PF vê elo entre lobista do PMDB e Transpetro

Anotações em agenda de ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás são vistas como indícios de que Fernando Baiano tinha interesses em subsidiária

Redação

17 de novembro de 2014 | 05h00

Atualizado às 10h40

Por Ricardo Brandt e Fausto Macedo

Anotações na agenda do ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, delator da Operação Lava Jato, revelam ligação entre Fernando Soares, o Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB no esquema de propinas na estatal, e a Transpetro, subsidiária que atua no setor de navios, segundo investigação da Polícia Federal.

No caderno apreendido pelos agentes federais na casa de Costa, em março, quando a operação foi deflagrada, as anotações em sequência “FB” e “Navios” são interpretadas pelos policiais como Fernando Baiano e subsidiária da estatal, respectivamente. O registro indica também a data da reunião, com quem seria o encontro, assuntos e os valores de propina na Petrobrás tratados entre o réu confesso do esquema de corrupção e o suposto operador do PMDB. Fernando Baiano está com a prisão decretada, mas fugiu.

A Polícia Federal suspeita que essa nova frente de investigação possa atingir o presidente licenciado da Transpetro Sérgio Machado, que chegou ao cargo em 2004 por indicação do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Machado está na mira das novas etapas da Lava Jato desde 8 de agosto, quando o delator afirmou em depoimento ter recebido em mãos R$ 500 mil de Machado. O pagamento, ocorrido em 2012, seria referente a uma propina por locação de navios, cuja negociação fora intermediada pela diretoria de Abastecimento da Petrobrás, sob o comando de Costa.

Segundo eles, todos os grandes contratos da estatal tinham cobrança de propina de até 3% em um esquema de loteamento de diretorias na estatal pelo PT, PMDB e PP, que abasteceu também o PSDB e o PSB.

Núcleo empresarial. No mesmo item de assuntos a ser tratado no suposto encontro com “FB”, o delator da Lava Jato anotou siglas e nomes de executivos e empresas que se tornaram alvo da fase Juízo Final, a sétima da Operação Lava Jato. A Polícia Federal está convencida de que as iniciais QG são de Queiroz Galvão, uma das empreiteiras sob suspeita da Juízo Final. O nome entre parêntesis é do executivo Ildefonso Colares, preso na sexta-feira. Os investigadores suspeitam que “R$ 3,0” significa R$ 3 milhões. Há ainda a anotação “Engevix (Gerson)”. Trata-se de Gerson Almada, outro dos 23 detidos na carceragem da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba.

ABAIXO, AS ANOTAÇÕES DA AGENDA DE COSTA APREENDIDA PELA PF

fb baiano engevix
Em um dos computadores da empresa Costa Global, aberta em 2012 pelo ex-diretor de Abastecimento, depois que ele saiu da Petrobrás, o nome de Fernando Soares, o Baiano, aparece associado a valores. Num deles, o montante é de R$ 2,1 milhões. O registro foi anexada ao despacho do juiz federal Sérgio Moro nos pedidos de prisão da Lava Jato.

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Defesa. Por sua assessoria, Sérgio Machado declarou “ser mentirosa e absurda a acusação feita contra si por Paulo Roberto Costa”. O criminalista Mário de Oliveira Filho, que defende Baiano, foi enfático. “O sr. Fernando não é lobista, nem operador do PMDB, mas representante no Brasil de duas empresas espanholas.” Já a Engevix, “por meio de seus advogados e executivos, prestará todos os esclarecimentos que forem solicitados”, diz em nota.

A Queiroz Galvão afirmou que suas atividades e contratos “seguem rigorosamente a legislação”. Em nota, disse também que “está à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos necessários”.

Com a palavra, Sérgio Machado. Na manhã desta segunda-feira, 17, a assessoria de imprensa de Sérgio Machado, por meio de nota, refutou a ligação entre Fernando Baiano e a Transpetro que, segundo a nota, se baseia “em suposições inverídicas vazadas à imprensa de forma inescrupulosa e sem fundamento”.

A assessoria do presidente licenciado da subsidiária sustenta que a anotação reproduzida não mostra o nome da Transpetro nem de Machado. Ainda de acordo com a nota, a maior parte dos afretamentos de navios e a gestão desses contratos é feita diretamente na Petrobrás, sem a participação da Transpetro. A nota diz ainda que Fernando Soares não foi intermediário de “qualquer aluguel de navio firmado” pela subsidiária.

Por fim, a assessoria alega que a gestão de Sérgio Machado era periodicamente inspecionada pelos órgãos oficiais de fiscalização e que o presidente licenciado não é réu e não tem contra ele “nenhuma ação de improbidade admitida pela Justiça”.