PF tem registros das ‘visitas’ do assessor de Palocci que sacava propina na Odebrecht

PF tem registros das ‘visitas’ do assessor de Palocci que sacava propina na Odebrecht

Branislav Kontic, acusado de buscar dinheiro vivo na empresa, visitou seis vezes o prédio em São Paulo em 2014 e pode confirmar delação do ex-ministro que incrimina Lula

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Julia Affonso

05 Outubro 2018 | 15h30

A Operação Lava Jato já tem os registros oficiais das “visitas” que Branislav Kontic, o ex-braço direito de Antonio Palocci, fez à Odebrecht, em 2014. “Brani” – como é conhecido – é apontado como o homem que sacava propina em dinheiro vivo na sede da empreiteira, em São Paulo.

São seis registros de entrada e saída de Brani na empresa no mesmo ano em que a Lava Jato foi deflagrada. Só os dois primeiros, em 8 de janeiro, são anteriores à deflagração das investigações, em 17 de março.

No dia 8, Branislav entrou com um crachá de “visitante” às 11h50 e saiu às 12h08. No mesmo dia, ele entra às 14h50 e sai às 15h08, desta vez com um crachá de “parceiro”. As outras “visitas” são dos dias 24 de abril, 12 de maio e 27 de agosto. Nesta última data, ele também tem dois registros de entrada e saída: a primeira com crachá de visitante” às 11h20 e saída às 12h02 e depois como “parceiro” às 14h21 e saída às 15h02.

Os documentos foram solicitados à Odebrecht pela Polícia Federal que fechou o acordo com Palocci em junho. A empreiteira fechou um acordo de leniência (espécie de delação de empresas) e o maior acordo de colaboração da Lava Jato, com 78 executivos envolvidos, em 2017 e ajudou os investigadores. O documento serve para comprovar as acusações de Palocci em sua delação premiada.

O ex-ministro confessou ser o “Italiano”, responsável por gerenciar a “conta-corrente” de propinas da Odebrecht com o PT, que chegou a ter R$ 200 milhões em créditos. As investigações fazem parte de inquérito que apura pagamento de propinas nos contratos da Petrobrás de construção e afretamento de navios-sondas para exploração de petróleo do pré-sal com a empresa Sete Brasil – criada no último ano do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Os registros de valores sacados por “Brani” estão na planilha “Posição programa especial italiano”, contabilidade paralela da Odebrecht sobre os valores pagos ao PT, como “Programa B”. Na mesma planilha, estão registrados pagamentos ao “Amigo”, que seria Lula – segundo delatou Marcelo Odebrecht.

A planilha contabiliza o total do acerto entre o ex-presidente Lula e o patriarca do grupo, Emílio Odebrecht chamado pelos delatores de “pacto de sangue”.

Marcelo Odebrecht disse em juízo que R$ 13 milhões foram pagos em espécie, parte deles para Branislav Kontic. O empresário também confirmou que “Prédio (IL)” da planilha é uma referência à compra de um terreno para sediar o Instituto Lula, no valor de R$ 12, 4 milhões – caso alvo de uma ação penal em que Lula é réu e está em fase final. A obra nunca saiu do papel.

Operador. A atuação de Branislav, braço direito de Palocci desde a época de deputado, como operador de saques na Odebrecht faz parte dos termos ainda sob sigilo da delação premiada de Palocci.

Em depoimento anexado pela PF no mês passado a um dos inquéritos, para comprovar fatos narrados por Palocci, o ex-executivo e delator da Odebrecht Fernando Migliaccio da Silva – que atuava no Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas do grupo -, detalha como eram agendados os encontros com Branislav.

Em 2016, quando fechou acordo de delação com o Ministério Público Federal, Migliaccio citou as entregas de pacotes de mais de R$ 1 milhão em dinheiro. “Quando Branislav ia buscar dinheiro, as entregas não seguiam a regra de fragmentação em parcelas de até R$ 500 mil, recordando-se o depoente de já ter entregue, nessas ocasiões, valores superiores, como por exemplo, um milhão ou dois milhões.”

No final de 2016, Branislav foi liberado por Moro para cumprir prisão em casa, depois de uma tentativa de suicídio na prisão da Lava Jato. Deprimido, ele espera agora novo julgamento, o do caso Lula e do terreno comprado pela Odebrecht, que teve como um dos negociadores, Palocci.

Preso em setembro de 2016 junto com Palocci, Branislav foi absolvido pelo juiz federal Sérgio Moro em um primeiro processo em que virou réu. No processo contra Lula da propina da Odebrecht para o terreno do Instituto ele também é réu.

Foi nessa ação penal que Moro tornou público nesta segunda-feira, 1, o Termo 1 da delação premiada de Palocci, homologada em junho pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) – a segunda instância da Lava Jato de Curitiba.

No termo, Palocci incrimina Lula e relata entre outras coisas a cobrança explícita feita pelo petista no início de 2010, em reunião no Palácio da Alvorada, de direcionamento das construções de navios-sondas para empreiteiras brasileiras e de geração de recursos para pagar as campanhas de Dilma Rousseff, sua sucessora.