PF tem documentos de propina que doleiro diz ter entregue no PT

PF tem documentos de propina que doleiro diz ter entregue no PT

Notas fiscais, proposta de contrato e troca de e-mails entre a Toshiba, contratada da Petrobrás, e empresa de fachada de Alberto Youssef reforçam suspeita sobre pagamento a João Vaccari, em 2012

Redação

01 Abril 2015 | 18h30

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt

A Operação Lava Jato tem as notas, a proposta de contrato e as cópias de e-mails trocados entre a Toshiba Infraestutura América do Sul e os laranjas do doleiro Alberto Youssef que teriam respaldado o pagamento da propina de pelo menos R$ 1,5 milhão ao PT e ao PP, em 2012.

O pagamento para a Empreiteira Rigidez seria a propina pelo contrato firmado com a Petrobrás, nas obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro.

A Toshiba, que estava com problemas para ser contratada, recorreu aos serviços do doleiro e do ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa – cota do PP no esquema de fatiamento político das diretorias.

Lava Jato reune provas contra oão Vaccari Neto. Foto: Evelson de Freitas/Estadão

Lava Jato reúne provas contra João Vaccari Neto. Foto: Evelson de Freitas/Estadão

A Rigidez era uma das empresas usadas pelo doleiro para emitir notas por serviços não prestados. A PF já tem provas de que ela fechava contratos para cobrir o dinheiro desviado das empreiteiras do cartel.

Em depoimento, no dia 15 de agosto de 2014, o advogado e laranja do doleiro, Carlos Alberto Pereira da Costa, já havia apontado que “contratos e notas fiscais visando justificar o fluxo financeiro de Alberto Youssef eram fornecidos por Waldomiro de Oliveira por meio das empresas MO Consutloria e Empreiteira Rigidez”.

Em novo depoimento ontem ao juiz federal Sérgio Moro – que conduz todos autos da Lava Jato -, Youssef confessou pela primeira vez na Justiça Federal que operacionalizou a entrega de cerca de R$ 800 mil do PT, metade disso pago em dinheiro vivo na porta da sede do PT, em São Paulo. A Rigidez foi a empresa usada para esquentar o ddinheiro.

O destinatário era o atual tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, alvo da Operação Lava Jato como suposto operador de propina no esquema da Petrobrás. O pedido, segundo o doleiro, foi feito por um executivo da Toshiba, José Alberto Piva Campana.

A primeira parcela dos R$ 800 mil foi retirada, segundo Youssef, no estacionamento de seu escritório, também em São Paulo, pela cunhada de Vaccari, Marice Correa Lima.

Pelo esquema desbaratado pela força-tarefa da Lava Jato, PT, PMDB e PP arrecadavam de 1% a 3% em contratos da estatal. Ao PP era destinado 1% do valor do contrato, nos negócios da Diretoria de Abastecimento. O PT ficava com 2% de todos os contratos das demais diretorias, via Diretoria de Serviços. A área que era ocupada por Renato Duque era responsável pelos processos de contratação e execução.

Materialidade. No material que faz parte do inquérito aberto em janeiro tendo como alvo o negócio da Toshiba há três notas fiscais emitidas pela Empreiteira Rigidez contra a Toshiba, totalizando R$ 1.494.318,42. As notas de número 16, 22 e 24 foram emitidas nos dias 9 e 24 de abril e no dia 15 de maio, de 20123. Todas no valor de R$ 498.106,14.

analise notas da toshiba para rigidez na arbor

Trecho de relatório da Polícia Federal com análise de material sobre Toshiba e Rogidez

Cópia de uma das notas fiscais de pagamento da Toshiba para empresa de fachada de Youssef

Cópia de uma das notas fiscais de pagamento da Toshiba para empresa de fachada de Youssef

Há ainda cinco folhas de uma proposta de contrato da RIgidez para a Toshiba com valor final de contrato de R$ 2.088.310.

O material foi encontrado nas buscas que a Polícia Federal fez na Arbor Contábil, empresa da contadora do doleiro, em São Paulo, em abril do ano passado e fazem parte do inquérito aberto para apurar o caso da Toshiba.

Proposta de contrato enviada para Toshiba pela empresa de doleiro

Proposta de contrato enviada para Toshiba pela empresa de doleiro

No local, foram obtidas ainda cópias de dois e-mails trocados entre outro executivo da Toshiba, Rubens Takimi Nomada, e Waldomiro Oliveira – laranja de Youssef na empresa Empreiteira Rigidez.

No primeiro e-mail o executivo pede proposta de contratação e a minuta do termo para “prestação de serviços para o projeto Comperj Substações Unitárias”. No segundo e-mail o executivo solicita a revisão da proposta e indica a necessidade de reconhecimento de firma no contrato.

Email de executivo da Toshiba pedindo proposta de contrato para propina na Comperj

E-mail de executivo da Toshiba pedindo proposta de contrato para propina na Comperj

Email em que executivo da Toshiba pede retificação e firma reconhecida em contrato de propina

Email em que executivo da Toshiba pede retificação e firma reconhecida em contrato de propina

Confissão. Em seu depoimento de ontem, Youssef contou como mandou entregar R$ 400 mil na porta do PT, em São Paulo, a pedido de Piva.

“O valor do PT foi negociado com João Vaccari, que na época representava o PT nos recebimentos oriundos dos contratos com a Petrobrás”, revelou o doleiro.

Segundo Youssef, na contratação da Toshiba para as obras da Casa de Força, do Comperj, entre 2009 e 2010, a empresa corria o risco de ser desclassificada e buscou Youssef e o ex-direitor de Abastecimento para vencer o contrato – que segundo ele, era de R$ 130 milhões, aproximadamente, e com descontos teria baixado para R$ 117 milhões.

Foi Piva que pediu para usar uma das empresas de fachada de sua lavanderia – a Rigidez – “para fazer o repasse tanto do PP quanto do PT”.

No caso da entrega na sede do PT, Youssef afirmou que “Piva informou que almoçaria com João Vaccari e ali aproveitaria para fazer a entrega de parte do restante destinado ao PT”.

Contou o doleiro que o executivo da Toshiba dias antes havia ido até seu escritório “mas ficou receoso de sair com uma quantia alta, e por isso, marcou uma segunda oportunidade para recebere os valores e de imediato já entregar a Vaccari”.

Foi Rafael Ângulo Lopes – um dos carregadores de dinheiro de Youssef – que levou a quantia, segundo afirmou o delator. Ele diz ter pedido ao “funcionário” para levar a quantia em um restaurante indicado por Piva, que fica perto da Avenida Paulista e ali lhe entregar uma sacola lacrada com os valores devidos”.

No dia 3 de fevereiro, porém, perante a delegada da Polícia Federal Erika Mialik Marena e os procuradores da República Carlos Fernando Santos Lima e Januário Palludo, o doleiro prestou depoimento complementar no âmbito da delação premiada que firmou. Na ocasião, foi indagado a dar mais detalhes sobre “as operações financeiras em que destinou valores para João Vaccari Neto”.

Youssef anotou que “posteriormente tomou conhecimento que no meio do caminho Rafael foi orientado a entregar o dinheiro diretamente na sede do PT em São Paulo, tendo entregue os valores na porte da sede do partido para Piva, que lá se encontrava”.

COM A PALAVRA, A DEFESA.

O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, por meio de seu advogado, o criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, repudia taxativamente as acusações. D’Urso tem reiterado que o tesoureiro só arrecadou quantias declaradas à Justiça eleitoral. O criminalista rechaça o valor dos depoimentos prestados em regime de delação premiada. Segundo D’Urso, os delatores “não dizem a verdade”.

O PT tem reafirmado que todos recursos arrecadados têm origem lícita. A Toshiba nega pagamento de propinas a políticos.

A Toshiba tem negado os fatos veiculados pela mídia, afirmando que todo e qualquer contrato com entidades publicas resultaram de processo licitatório regular, nos termos da legislação vigente.

“Portanto, considera caluniosa qualquer alegação de participação em cartel e pagamento de propina.”