PF reconhece ‘erros’ na análise de ligações entre ministros do TCU

PF reconhece ‘erros’ na análise de ligações entre ministros do TCU

Em relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, delegada Graziela Machado da Costa e Silva informa que serão refeitos os cruzamentos

Da Redação

17 Agosto 2017 | 22h26

Ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) Raimundo Carreiro e Aroldo Cedraz. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

A Polícia Federal reconheceu ter cometido erros na análise de ligações telefônicas entre investigados na Lava Jato por suposto envolvimento em corrupção nas obras da usina de Angra 3. Num relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), a autoridade policial diz que o cruzamento de telefonemas entre ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) e outros implicados no caso tem de ser refeita para a colheita de novos “resultados”.

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A PF concluiu em maio inquérito sobre possível favorecimento de empreiteiras numa fiscalização do TCU sobre as obras de Angra 3.

A investigação fora aberta em 2015, após o dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, afirmar em delação premiada ter pago R$ 1 milhão para conseguir decisão de seu interesse no caso.

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O dinheiro teria sido entregue ao advogado Tiago Cedraz, filho do ministro Aroldo Cedraz.

O colaborador citou como possível destinatário do valor o atual presidente da Corte, Raimundo Carreiro, na época relator do processo.

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O voto dele liberou a licitação para a montagem eletromecânica da usina, o que acabou beneficiando o consórcio da UTC. Outros delatores também mencionaram o suposto esquema.

No relatório sobre a investigação, a delegada federal Graziela Machado da Costa e Silva descreveu alguns indícios que, para ela, demonstraram a ‘participação ativa’ de Tiago e dos ministros ‘na solicitação de vantagens indevidas’ da UTC.

Entre as evidências, ela mencionou milhares de ligações entre terminais atribuídos aos três investigados, que negam participação em qualquer irregularidade. Isso demonstraria, segundo ela, o ‘acesso’ de Tiago aos gabinetes de Cedraz e Carreiro.

Tiago, no entanto, apontou ‘equívocos’ na análise feita pela PF.

Em um documento entregue ao Supremo, ele reclamou que houve confusão entre os verdadeiros usuários das linhas citadas no inquérito.

O advogado alegou que um número fixo considerado pelos investigadores como dele é, na verdade, o da residência do pai, que é usado por vários parentes.

Argumentou também que a PF entendeu ser do gabinete de Carreiro uma linha que, na verdade, era do gabinete de Aroldo Cedraz.

Por causa disso, teria concluído de forma errônea que Carreiro fez várias ligações para ele próprio, para o pai e para Luciano Araújo, primo de Tiago que é suspeito de recolher a propina da UTC.

No documento enviado ao Supremo, a delegada reconhece erros materiais na análise.

Ela justifica que algumas das conclusões da PF decorreram de informações apresentadas pelo próprio Tiago Cedraz. Foi o advogado, segundo a policial, quem forneceu o telefone da casa do pai como sendo seu, ao requerer um passaporte à PF.

Graziela explicou que análises retificadoras serão feitas e enviadas ao Supremo. Informou ainda que, após novo trabalho, a ‘intensidade dos contatos’ entre os investigados poderá ser ‘dimensionada em maior ou menor escala’.

“A fim de contribuir para a instrução de ação penal, caso seja iniciada, devem ser refeitos os cruzamentos solicitados”, escreveu a delegada.