PF prende cinco policiais rodoviários federais da ‘Máfia do Cigarro’ em MS

PF prende cinco policiais rodoviários federais da ‘Máfia do Cigarro’ em MS

Duas ações da Polícia Federal, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal, desarticularam contrabando de cigarros do Paraguai no Estado; servidores cooptados e líderes da organização criminosa eram rotulados 'agentes públicos bons'

Pedro Prata

05 de março de 2020 | 18h49

A Polícia Federal, com o apoio da Polícia Rodoviária Federal, prendeu nesta quinta, 5, cinco agentes da PRF supostamente envolvidos com o contrabando de cigarros falsificados do Paraguai. Os servidores federais são investigados porque teriam recebido propina para facilitar a passagem do material contrabandeado por rodovias federais que cortam o Estado na Operação Cem por Cento. Também foram expedidos mandados de busca e apreensão em suas casas e postos de trabalho.

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Foram presos preventivamente os agentes rodoviários federais Moacir Ribeiro da Silva Netto, Aldeir Moreno Magalhães Filho, Pedro Cruz de Paiva Ribeiro, Wagner Epaminondas Ferreira Vida e Jairo Augusto Borgato. Contra Ademilso Maria e José Felix de Moura foram impostas medidas cautelares. Todos eles foram afastados de suas funções e tiveram seus bens confiscados.

Foram apreendidos documentos e joias, além de uma BMW na casa do policial rodoviário federal Wagner Epaminondas Ferreira Vida.

Foto: Divulgação/PF

A equipe trabalhava nas Unidades Operacionais da Polícia Rodoviária Federal de Rio Brilhante, Nova Alvorada do Sul, Naviraí e Eldorado. Eles são classificados  em uma planilha localizada em operações anteriores como ‘agentes públicos bons’ – isto é, que fariam parte do esquema criminoso.

As investigações apontam que as organizações criminosas controlavam centenas de centenas de carretas de cigarros introduzidos ilicitamente no País para diversos Estados.

Os agentes cooptados pela organização criminosa eram classificados como ‘bons’. Foto: Reprodução

Também nesta quinta a PF deflagrou a Operação Managers, para prender líderes dos ‘olheiros’ e ‘batedores’ que atuavam pelas organizações que atuam no contrabando de cigarros. Eles mantinham contato direto com os agentes rodoviários cooptados.

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Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão e 10 de prisão, com a participação de aproximadamente 80 policiais federais e 30 policiais rodoviários federais.

A operação se estendeu por nove cidades de Mato Grosso do Sul – Naviraí, Jutí, Eldorado, Mundo Novo, Japorã, Rio Brilhante, Nova Alvorada do Sul, Dourados e Campo Grande e, ainda, chegou a Umuarama, no Paraná.

O ‘Tio’

A PF deu início às investigações a partir da quebra do sigilo telefônico de outros membros da organização criminosa presos anteriormente. Entre as mensagens, identificaram que Moacir Ribeiro da Silva Netto seria ‘Tio’/’Teo’.

‘Tio’ era encarregado do posto da Polícia Federal em Rio Brilhante. Em uma mensagem trocada com os integrantes da organização, ele teria dado a autorização para a passagem do veículo carregado com cigarros contrabandeados, uma vez que os policiais do posto rodoviário estariam almoçando.

Em uma conversa interceptada pela PF, os criminosos ‘Oreia’ e ‘Tilápia’ comentam a passagem de uma viatura da PRF e identificam Moacir a bordo. “O carro (a PRF) chegou aqui e é o ‘Tio’ (Moacir) que tá dentro.”

Em outra ocasião, um dos integrantes da organização criminosa conhecido como ‘Lulu’ fica sabendo que uma viatura da Polícia Militar se aproximava do local onde estava um veículo com a carga contrabandeada. Ele, então, diz que ‘vai mandar o carro (PRF) para afastar a atuação da Polícia Militar’.

Foto: Reprodução

PAVÃO (MOTORISTA): Vai.

LULU: Eu vou mandar o carro (PRF) ir aí, daí você não fica assustado não tá?

PAVÃO (MOTORISTA): … beleza.

LULU: Mandar o carro (PRF) ir aí mais fica de boa daí os PÉ PRETO (PM) não enche teu saco.

 

Para a PF, o diálogo ‘leva a crer que os agentes policiais atuavam na data não somente se omitiam em seu dever público de reprimir práticas criminosas, mas como também atuavam em favor desta’.

Os diálogos foram conferidos juntamente com a planilha de diárias disponibilizada pela Corregedoria da Polícia Rodoviária Federal.

Foto: Reprodução

Cem por Cento

Jairo Augusto Borgato, por sua vez, faria parte do grupo considerado pela organização criminosa como ‘os garantidores cem por cento’. Ele foi identificado pelos policiais federais a partir de uma descrição física de um dos membros da organização criminosa.

Outro servidor público destacado na atuação da organização criminosa é José Felix de Moura. Ele já estava na mira do setor de inteligência da PF antes da operação desta quinta. Relatos de contrabandistas de cigarro deram conta de que havia um agente rodoviário residente em Mundo Novo que cooperava com o esquema. Sua alcunha era ‘bateria’, referência à marca de baterias “Moura”.

Foto: Reprodução

COM A PALAVRA, A DEFESA

A reportagem busca contato com a defesa dos policiais rodoviários federais presos nesta quinta, 5. O espaço está aberto para manifestação de todos os citados na operação conjunta da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.

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