PF mira bitcoin de hackers de Moro

PF mira bitcoin de hackers de Moro

Investigação apura movimentações de compra e venda de criptomoedas de quatro investigados de invadir o aplicativo Telegram do ministro da Justiça, de delegados da Polícia Federal e também de juízes

Breno Pires e Patrick Camporez/BRASÍLIA e Julia Affonso e Pepita Ortega/SÃO PAULO

24 de julho de 2019 | 14h06

Foto: Reuters

A investigação da Polícia Federal na Operação Spoofing mira movimentações de compra e venda de criptomoedas de quatro presos por suspeita de hackear o aplicativo Telegram dos celulares do ministro da Justiça Sérgio Moro, de delegados da PF e de juízes. Os investigados foram capturados pela Federal nesta terça-feira, 23.

Documento

“O Ministério Público Federal manifestou-se pelo acolhimento da representação formulada pela autoridade policial e pela expedição de ofícios às empresas Foxbit, Braziiex e Mercado Bitcoin para que informem quanto a existência de carteiras era nome dos quatro investigados bem como o saldo e possíveis movimentações de compra e venda de criptomoedas no período de 1 de janeiro de 2018 até a presente data”, relatou o juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal em Brasília.

O magistrado autorizou o afastamento do sigilo bancário de Gustavo Henrique Elias Santos e sua mulher Suellen Priscila de Oliveira, e Walter Delgatti Neto e de Danilo Cristiano Marques. A quebra alcança o período de 1 de janeiro a 17 de julho deste ano.

Vallisney ordenou que o Banco Central seja oficiado para prestar informações. O magistrado determinou uma ‘pesquisa no Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional (CCS) com o intuito de comunicar exclusivamente às instituições financeiras com as quais os investigados têm ou tiveram relacionamentos no período do afastamento do sigilo bancário, acelerando, assim, a obtenção dos dados junto a tais entidades’.

“Comunique imediatamente às instituições financeiras o teor da decisão judicial de forma que os dados bancários dos investigados sejam transmitidos diretamente ao Instituto de Criminalística da Polícia Federal, no prazo de 10 dias”, ordenou.

“Comunique imediatamente às instituições financeiras o teor da decisão judicial de forma que seja determinado o imediato bloqueados os depósitos ou qualquer ativo financeiro em nome dos investigados em valores superiores a R$ 1 mil.”

Entenda a investigação

Os presos foram transferidos para Brasília. Segundo a PF, por questão de espaço, dois deles permaneceram na carceragem da superintendência e os outros dois, levados por volta das 23h desta terça para local não informado.

Um dos endereços alvo de buscas nesta terça foi a residência da mãe de Gustavo Henrique Elias Santos, em Araraquara. Santos, no entanto, foi preso na capital paulista. Ele trabalha com shows e eventos, segundo investigadores.

Além do casal, detido em São Paulo, a PF prendeu em Araraquara Walter Delgatti Neto, que já responde a processos por estelionato. Segundo informações da Justiça Eleitoral, ele foi filiado ao DEM. A defesa de Delgatti Neto não foi localizada.

Há, ainda, um quarto preso, em Ribeirão Preto, Danilo Cristiano Marques.

O inquérito está sendo conduzido pelo delegado Luiz Flávio Zampronha, que, em 2005 e 2006, presidiu o inquérito do Mensalão.

Autoridades

Além de Moro, procuradores da força-tarefa da Lava Jato no Paraná e outras autoridades teriam sido alvo de hackers – no mandado de buscas, há menção ao desembargador federal Abel Gomes, do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região, no Rio, ao juiz Flávio Lucas, da 18.ª Vara Federal do Rio e aos delegados da PF Rafael Fernandes, em São Paulo, e Flávio Vieitez Reis, em Campinas.

A PF informou também nesta terça que vai investigar a suspeita de invasão nos aparelhos celulares do ministro da Economia, Paulo Guedes, e da deputada Joice Hasselmann (PSL-SP).

Desde 9 de junho, o site The Intercept Brasil divulga supostas mensagens trocadas pelo então juiz federal titular da Lava Jato em Curitiba com integrantes do Ministério Público Federal, principalmente com Dallagnol. Foram divulgadas pelo The Intercept e outros veículos conversas atribuídas ao ex-juiz e a procuradores no aplicativo Telegram. O site afirmou que recebeu de fonte anônima o material, mas não revelou a origem. Moro nega conluio – ele e Dallagnol afirmam não reconhecer a autenticidade das conversas.

O ministro da Justiça já afirmou que a invasão virtual foi realizada por um grupo criminoso organizado. Para ele, o objetivo seria invalidar condenações por corrupção e lavagem de dinheiro, interromper investigações em andamento ou “simplesmente atacar instituições”.

Em 19 de junho, Moro passou oito horas e meia respondendo a questionamentos de senadores na Comissão de Constituição e Justiça da Casa sobre supostas mensagens que sugerem atuação conjunta com os procuradores quando ele era juiz.

Falsificação

Spoofing, segundo a PF, é um tipo de falsificação tecnológica que tenta enganar uma rede ou pessoa fazendo-a acreditar que a fonte de uma informação é confiável. “As investigações seguem para que sejam apuradas todas as circunstâncias dos crimes praticados”, informou a PF. A operação mira “organização criminosa que praticava crimes cibernéticos”.

O celular de Moro foi desativado em 4 de junho. O aparelho foi invadido por volta das 18h. Ele percebeu após receber três telefonemas do seu próprio número. O ex-juiz acionou então investigadores da PF. O último acesso de Moro ao aparelho foi registrado no WhatsApp às 18h23 daquele dia. O suposto hacker teria tentado se passar pelo ministro no Telegram.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: