PF busca agentes públicos no lixo em SP

PF busca agentes públicos no lixo em SP

'Bastante provável’, diz delegado da Operação Descarte, desdobramento da Lava Jato, sobre suposto envolvimento de servidores em esquema milionário de lavagem de dinheiro a partir de contrato com a Prefeitura paulistana

Julia Affonso

01 Março 2018 | 13h26

Dinheiro apreendido na Operação Descarte. Foto: PF

O delegado da Polícia Federal Victor Hugo Rodrigues Alves Ferreira afirmou nesta quinta-feira, 1, que a Operação Descarte, desdobramento da Lava Jato, investiga ‘um gigantesco esquema de lavagem de dinheiro’ e que é ‘bastante provável’ que haja envolvimento de agentes públicos. O consórcio SOMA (Solução em Meio Ambiente), prestador de serviços de limpeza em São Paulo, é um dos alvos. Agentes da PF e auditores da Receita fizeram buscas na sede do grupo, autorizados pela 2.ª Vara Criminal da Justiça Federal.

“A investigação se iniciou para apurar lavagem de dinheiro. Eu diria que é mais que possível, é bastante provável que haja (agentes públicos). Isso vai ser objeto agora de análise depois das buscas”, afirmou o chefe da Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros da PF em São Paulo.

“Nós estamos investigando aqui um gigantesco esquema de lavagem de dinheiro. A organização criminosa que é responsável por esse processo de lavagem e suas células empresariais. Cada uma ligada a um grupo econômico. Essas células são compostas de várias empresas de fachada que estão registradas em nomes de sócios laranjas”, destacou Victor Hugo.

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O delegado da PF informou que ‘o empresário que deseja lavar o dinheiro de sua atividade procura esse grupo’.

“Uma das empresas que usou esse grupo para lavar dinheiro foi o consórcio SOMA, que é um grupo empresarial formado em 2011 para participar de uma licitação aqui em São Paulo, na Prefeitura, na área de limpeza urbana.”

Segundo o delegado, ‘desde que ganhou a licitação em 2011, o consórcio SOMA já faturou R$ 1,1 bilhão do contrato’ com a Prefeitura de São Paulo. O contrato administrativo celebrado em 10 de novembro de 2011.

O consórcio foi originalmente integrado pelas empresas Delta Construções, Cavo Serviços e Saneamento e Corpus Saneamento e Obras. Em 2 de junho de 2012, a Delta deixou o consórcio. A Cavo ficou com 82% de participação e a Corpus com 18%.

O contrato, que está em vigor, foi fechado na gestão de Gilberto Kassab (PSD) à frente do Executivo paulistano. Depois, já na gestão Fernando Haddad (PT), o contrato foi mantido. Kassab e Haddad não são alvo da investigação.

“Os trabalhos estimam que cerca de R$ 200 milhões foram lavados com o esquema”, declarou o policial.

A Descarte aponta que o grupo SOMA entrava em contato com empresas de fachada para emitir notas fiscais simulando a venda de mercadorias – detergentes, sacos de lixo – para o consórcio. Após a emissão dos recibos, o Consórcio Soma transferia o dinheiro para as contas das empresas.

“Na sequência, esse dinheiro era novamente transferido para outras empresas de fachada com vistas a simular a origem e o destino dos valores. Finalmente, os valores são transferidos para contas de pessoas ligadas ao esquema ou então remetido para o exterior”, afirmou.

Agentes da PF e da Receita foram às ruas logo cedo nesta quinta, cumprir 15 mandados de busca e apreensão em residências e empresas nas cidades de São Paulo (9), Santos/SP (1), Paulínia/SP (1), Belo Horizonte (2) e Lamin/MG (2).

COM A PALAVRA, SIMÃO PEDRO, EX-SECRETÁRIO DE HADDAD

Sobre a notícia de que a Polícia Federal desencadeou a ‘Operação Descarte’ e que implica nela uma das concessionárias de limpeza que prestam serviços para a Prefeitura de São Paulo temos a dizer o seguinte:

1- A gestão Haddad nunca teve conhecimento de qualquer denúncia e investigação da PF sobre as empresas prestadoras de serviços na área da limpeza urbana;

2- a AMLUrb, Autoridade Municipal de Limpeza Urbana e as SubPrefeituras sempre fiscalizaram com rigor a execução dos contratos que também eram objeto de acompanhamento da Controladoria do Município;

3- o modelo de contrato e a licitação que perpassou a nossa Gestão foram elaborados na gestão Kassab e aprovados pelo Tribunal de Contas do Município;

4- Nossa gestão renegociou por duas vezes os termos do contrato obtendo desconto de 7,25% nos preços e incremento de novos serviços;

5- Lançamos Edital de licitação para esses serviços em 2015, mas optamos em renovar os contratos dentro dos prazos legais diante de negociação que trouxe ganhos efetivos para a cidade.

Simão Pedro Chiovetti
Ex-Secretário Municipal de Serviços da Gestão Haddad

COM A PALAVRA, O CONSÓRCIO SOMA

O Consórcio SOMA informa que cumpre todas as exigências legais e que está prestando todas as informações solicitadas pela Polícia Federal.

Assessoria de Imprensa do Consórcio SOMA

COM A PALAVRA, KASSAB

“A contratação dos serviços ocorreu no final 2011 através de licitação, obedeceu a legislação e foi fiscalizada pelo Tribunal de Contas, que aprovou a concorrência e acompanhou sua execução. Qualquer suspeita deve ser devidamente apurada.”

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