PF investiga propinas de R$ 2,3 milhões de dirigentes do BMG a Cunha e Jucá, delatados por advogado

PF investiga propinas de R$ 2,3 milhões de dirigentes do BMG a Cunha e Jucá, delatados por advogado

Suspeita sobre repasses consta em relatório entregue por delegado à Justiça Federal três meses antes da deflagração da nova fase da Operação Descarte, que fez buscas no banco nesta quinta-feira, 29

Rayssa Motta e Fausto Macedo

30 de outubro de 2020 | 16h54

*Atualizada às 19h51 de sexta, 30 de outubro, para manifestação de Milton Lyra

Em documento encaminhado à Justiça cerca de três meses antes da nova fase da Operação Descarte, a ‘Macchiato’, deflagrada nesta quinta-feira, 29, o delegado federal Fabrício de Souza Costa, responsável pelos desdobramentos da investigação, detalhou a existência de um suposto esquema usado por dirigentes do banco BMG para repassar propinas a políticos do MDB. A suspeita é que os beneficiários tenham sido o ex-senador Romero Jucá e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha. Ambos foram citados na delação de um advogado investigado pela Polícia Federal.

Documento

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No relatório de 86 páginas, a Polícia Federal afirma que a operação movimentou R$ 2,3 milhões e foi dividida em duas etapas supostamente articuladas por Milton de Oliveira Lyra Filho, apontado como operador financeiro do partido.

Na primeira, em 2015, uma das empresas do grupo BMG, a ME Promotora de Vendas LTDA, teria firmado acordos falsos para a compra superfaturada de equipamentos eletroeletrônicos sucateados. A segunda, em 2016, teria envolvido a emissão de notas frias para a prestação de serviços, também contratados pela ME Promotora de Vendas LTDA. Em comum, as duas operações teriam a finalidade: a geração de recursos em espécie a serem devolvidos aos dirigentes do Grupo BMG para o pagamento das propinas a políticos do MDB.

O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ao lado do ex-senador Romero Jucá em reunião do antigo PMDB. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

“Foi possível confirmar a hipótese investigativa inicialmente apresentada, segundo a qual o operador financeiro Milton de Oliveira Lyra Filho teria procurado Marco Antônio Carbonari para estruturar uma operação que viabilizasse a entrega de propina dos dirigentes do Grupo BMG para políticos do então PMDB. A operação foi dividida em duas etapas e, no ano de 2015, foi utilizada na primeira etapa a empresa de Marco Carbonari (IMA DO BRASIL) para a venda superfaturada de equipamentos eletroeletrônicos à All Company, que por sua vez os revendeu à ME Promotora de Vendas LTDA, controlada pelo BMG. A segunda etapa, que envolveu a emissão de notas frias de prestação de serviços pela Clarins Brasil para a ME Promotora de Vendas LTD, foi implementada por meio de quatro transferências (TED), nos dias 20/04/2016, 27/04/2016 e 02/05/2016, para a CLARINS, no valor total de R$ 1.012.990,00. Em seguida o valor foi transferido para outras empresas e, ao final do processo de lavagem, uma parte correspondente a 80% do valor da operação teria sido entregue em dinheiro na sede do BMG”, diz um trecho do relatório.

O documento foi encaminhado à juíza Michelle Camini Mickelberg, da 2ª Vara Criminal Federal de São Paulo, que decretou o bloqueio de R$ 191 milhões em bens do grupo investigado pela Polícia Federal. A decisão estende a pessoas físicas e jurídicas suspeitas de sonegação fiscal, corrupção, lavagem de dinheiro, fraude em licitação, evasão de divisas e gestão fraudulenta através de uma suposta rede de empresas de fachada. O grupo também foi alvo de buscas na manhã de ontem.

A tese dos investigadores é a de que diretores do Banco BMG tenham desviado recursos da instituição financeira através de contratos simulados realizados com empresas criadas para lavar dinheiro. O Ministério Público e a Polícia Federal chegaram ao banco depois que a ME Promtora de Vendas LTDA contratou os serviços do escritório Claro Advogados. Os donos da banca, Luiz Carlos da Fonseca Claro e Gabriel Silveira da Fonseca Claro, pai e filho, fecharam delação premiada com a Justiça e revelaram como usaram o escritório de advocacia e outras empresas controladas pela família para servir a companhias interessadas em lavar dinheiro. Além da delação, foram autorizadas quebra de sigilo fiscal e buscas na Operação Descarte e em seus desdobramentos (Chiaroscuro, Checkout, E o Vento Levou e Chorume) que, segundo a Polícia Federal, corroboram a hipótese criminal.

COM A PALAVRA, O BANCO BMG

“O Banco Bmg informa que, na manhã desta quinta-feira (29), foi surpreendido com uma operação de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal. A princípio, a investigação visa a apuração de suposta prática de crimes contra o sistema financeiro nacional e contra a ordem tributária por determinados dirigentes do Banco, ocorridos entre 2014 e 2016. A instituição também tomou conhecimento que a Vara Criminal determinou a suspensão do exercício de qualquer atividade de Márcio Alaor de Araújo e Marcus Vinícius Fernandes Vieira no Banco e no grupo Bmg. O Banco esclarece, ainda, desconhecer qualquer prática dos ilícitos investigados e está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações e prestar os esclarecimentos necessários. O Banco reforça seu compromisso em atuar sempre de forma transparente, dentro das melhores práticas de governança corporativa e em cumprimento de todas as legislações aplicáveis.”

COM A PALAVRA, AS DEFESAS DE EDUARDO CUNHA E ROMERO JUCÁ
A reportagem entrou em contato com as defesas de Eduardo Cunha e Romero Jucá e aguarda resposta.

COM A PALAVRA, MILTON LYRA

A propósito da operação realizada ontem (29/10), chama a atenção a nova tentativa do Ministério Público Federal, que a todo custo tentar envolver meu nome em práticas ilícitas, meramente a partir de narrativas fantasiosas e depoimentos recheados de puras suposições, feitos por delatores em busca de comprarem sua liberdade pelos crimes por eles cometidos.

Uma leitura atenta da denúncia do MPF constatará as inúmeras contradições dos que tentam envolver-me numa trama, na qual não tive nenhuma participação. Pessoas que sequer conheço citam fatos que não aconteceram e que não guardam nenhuma relação com a realidade. A impressão é de que meu nome passou a ser peça obrigatória em toda delação, custe o que custar.

O Ministério Público Federal, sem ter conseguido até hoje provar qualquer uma das acusações já feitas contra mim, tenta novamente envolver meu nome lançando acusações sem fundamento.

Esta foi a 8ª busca e apreensão a qual fui submetido. E até hoje o que encontraram? Nada. E como nada há de ilícito nas minhas ações, o MPF transforma em “suspeita” toda e qualquer atividade empresarial por mim empreendida.

Isso é exatamente o que parece: perseguição e constrangimento ilegal.

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