PF investiga elo entre Gim Argello e a pílula do câncer

PF investiga elo entre Gim Argello e a pílula do câncer

Químico Gilberto Chierice conta como ex-senador, preso na Operação Vitória de Pirro, ofereceu sociedade para 'comércio das cápsulas'

Julia Affonso, Mateus Coutinho, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

07 de maio de 2016 | 12h27

Pesquisas não comprovam a segurança e eficácia da 'pílula do câncer'. Foto: Márcio Fernandes/Estadão

Pesquisas não comprovam a segurança e eficácia da ‘pílula do câncer’. Foto: Márcio Fernandes/Estadão

Formalmente longe do Senado, desde 1º de fevereiro de 2015, após não ser reeleito para outro mandato na Casa em 2014, Gim Argello (PTB-DF) acompanhava dos bastidores as movimentações do Congresso. Em outubro do ano passado, enquanto o Senado discutia em audiência pública a liberação da ‘pílula do câncer’, Gim Argello propôs sociedade ao químico Gilberto Chierice, que desenvolveu a fosfoetanolamina sintética, para comércio da substância. A substância vem sendo motivo de polêmica por, supostamente, combater o câncer.

Documento

O encontro entre Gim Argello e Gilberto Chierice ocorreu no escritório político do ex-senador, em Brasília. O pesquisador havia ido à capital federal participar de audiência pública no Senado, com outros especialistas, a convite do senador Ivo Cassol (PP-RO).

Em depoimento à Polícia Federal, em 27 de abril, Gilberto Chierice contou que ao chegar no Aeroporto de Brasília, o carro que o esperava o levou ao encontro de Gim Argello.

“Quando eu chego no aeroporto, tem lá alguém que veio me buscar”, contou o pesquisador. “Quando eu chego em Brasília tem uma caminhonete, uma condução me esperando. ‘O senador mandou lhe buscar’. Saiu dali, foi pra um escritório, onde tinha um escritório de um ex-senador.”

Gilberto Chierice disse que a ‘perua’ não tinha nenhuma identificação. “Nos levou para conversar com esse senhor, eu não sabia do que se tratava. Esse Gim não sei o quê.”

O delegado Nelson Edilberto Cerqueira perguntou ao pesquisador se era ‘aquele que foi preso recentemente’. Gilberto Chierice disse que não havia reconhecido o ex-senador na televisão.

“Ele estava de cabelo branco, agora está de cabelo preto. Eu não conheci”, afirmou. “Mas acho que é o mesmo.”

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Gim Argello foi preso na Operação Vitória de Pirro, 28ª fase da Lava Jato, em 12 de abril. A Polícia Federal investiga ‘tratativas ocorridas entre Jorge Gim Argello e o filho Jorge Gim Argello Junior, por meio da empresa HTS Gestão de Investimentos e Estudos Mercadológicos LTDA e os pesquisadores da substância Fosfoetanolamina sintética, no período de outubro de 2015 a janeiro de 2016, ou seja, mesmo período da tramitação legislativa que resultou na publicação da Lei nº 13.269/16, em 13 de abril de 2016, que autorizou a produção e distribuição daquela substância sintética, independentemente de autorização sanitária e antes da finalização dos estudos clínicos exigidos para quaisquer outros remédios para a mesma finalidade terapêutica’.

A presidente Dilma Rousseff sancionou, sem vetos, a lei que autoriza o uso da fosfoetanolamina sintética por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna. A “pílula do câncer” poderá ser usado pelos pacientes, “por livre escolha”, desde que tenham laudo médico que comprove o diagnóstico e assinatura de termo de consentimento e responsabilidade dos próprios pacientes ou de seus representantes legais.

No depoimento, Gilberto Chierice contou que no escritório de Gim Argello, também estava o filho do ex-senador e um ‘senhor moreno’, de cerca de 50 anos, que teria uma empresa farmacêutica ‘em Brasília ou em Goiânia’. O delegado pediu que Cherice localizasse o escritório do ex-parlamentar.

“Estava em uma região bonita”, disse. “Era um escritório dele, pelo menos ele admitiu.”

Gilberto Chierice narrou à PF como teria sido a reunião. “Tinha uma pessoa que tomava esse medicamento que nós fabricávamos, objeto de discussão no Congresso. Eu fiquei surpreso, falei: ‘Ué, vim pra um lugar, tô em outro’. Aí foi, que o remédio tinha feito bem para não sei quem, não sei quem mais, e que a discussão nossa ia ser boa, que o Ivo ia fazer uma bela discussão, que tinha reunido as coisas, tudo direitinho. No meio desse caminho, esse senhor (Gim) me ofereceu para fazer sociedade no comércio dessas cápsulas”, relatou.

“Ele disse que tinha um parente que estava tomando e estava se sentindo bem, que conhecia outras pessoas. Eu achei até estranha a conversa.”

De acordo com Gilberto Chierice, o ex-senador Gim Argello propôs uma sociedade, que seria 1/3 para o pesquisador, 1/3 para o ex-parlamentar e 1/3 para uma terceira pessoa que seria dona de uma empresa de medicamentos. Os 10% restantes, Chierice afirmou que Gim Argello disse que ‘era para fazer negócios no futuro para facilitar empregos’.

“Foi interessante, porque eu fui pego de surpresa. ‘Não, porque vamos fazer, isso é interessante.’ Eu falei: ‘olha, não dá para fazer nada, porque minha ideia é diferente. Eu não tenho intenção de fazer empresa. Eu tenho intenção de fazer isso de uma maneira gratuita. Quando eu construí, eu já falei isso para todo mundo, continuo mantendo. Eu não tenho direito de explorar isso, porque eu acho que uma descoberta tão importante, que isso tem que ser doado, governo do Estado”. Ficou: ‘O senhor é bobo, isso, aquilo, tem que fazer se não explorar, não vai pro coisa.” Falei: ‘O senhor me desculpe não dá para fazer nada, não quero fazer, não vou fazer. Eu não posso fazer, é contra meus próprios princípios’. E falei: ‘eu tenho uma,… se o senhor me desculpar o adiantado da hora, devia ser umas 9h ou mais, 10h, estou sem jantar, tenho amigos no hotel que nós precisamos fazer uma reunião, porque amanhã eu tenho uma audiência pública no Congresso, estão todos os pesquisadores aí, a gente precisa ver como vai começar a discussão.”

O pesquisador relatou que no dia seguinte, no meio da audiência do Congresso, ‘apareceu uma pessoa, que era o advogado ou sei lá quem que era’.

“O senhor precisa ir lá para assinar, precisa levar documento”, contou. “Falei: “Olha, meu amigo, eu disse que eu não ia fazer nenhum contrato.”

Gilberto Chierice disse não se lembrar o nome da ‘pessoa’ e afirmou que Gim Argello não estava na audiência pública.

“Ele tentou insistir pro meu advogado ir lá, para tentar me convencer, parece que ia até dar uma parte, para tentar me convencer. Eu disse: ‘não, não, não. E acabou nisso'”, relatou.

Contrato. Durante o depoimento, o delegado se referiu a um e-mail que teria um contrato anexado. O documento seria ‘um compromisso para formação de sociedade empresária’. Na parte ‘Contratantes’, estaria o nome de Gilberto Chierice e de outros pesquisadores da pílula.

No vídeo, um advogado, que não é filmado, explica que um contador que trabalha em seu escritório foi ao encontro de Gim Argello, durante a audiência pública.

“No dia 29, quando o professor estava na audiência, eu fiquei com ele acompanhando, um outro membro do escritório, que estava nos acompanhando na viagem, chegou a voltar na casa deles para verificar o que era isso, essa ideia deles de estruturar um documento. Talvez tenha sido incluída as informações do professor por conta disso, porque ele falou assim: ‘A gente vai lá faz o termo, depois encaminha para vocês, para vocês analisarem as questões jurídicas”, disse.

“Quando ele (contador) chegou lá, ficou estabelecido: ‘Olha, o professor já passou o posicionamento dele ontem, não tem interesse”, relatou. “‘O que vocês querem?’. ‘Ah, nós queremos isso’. ‘Então, faz o seguinte: coloca num papel, a gente leva, conversa com o professor e vai ver o que tem’. Dali para frente, dessa conversa, provavelmente ele deve ter passado o RG, deve ter passado para a celebração desse termo. Esse documento não chegou em mim, não cheguei a ver.”

O delegado leu o que estaria no contrato. “Que se comprometem a formar uma sociedade para explorar economicamente a fosfoetanolamina, que ficaria na seguinte proporção: 30% para o senhor e para o Salvador, 30% para o Leonardo, 30% para a HTS, e o quarto, que seria Taynara, 4%, o Miguel com 3% e o Adilson com 3%.”

Gilberto Chierice disse que o contrato nunca chegou para ele. “Não, senhor.”

O pesquisador também foi questionado sobre a tramitação do projeto de lei no Legislativo. “Alguém mantinha o senhor informado sobre o trâmite do projeto?” questionou o delegado.

“Não, não, não, não. O que havia comentado era: Nós vamos fazer tal lei, mas isso em plenário”, disse.

O delegado leu, em seguida, um e-mail de 6 de janeiro deste ano, denominado ‘Contrato Preliminar de Parceria de Licença de Direitos de Propriedade Intelectual’.

“Nunca recebi”, afirmou o pesquisador.

“Esse contrato diz o seguinte. Quem comparece é a HTS. Em algum momento, o Gim ou o filho dele se referiram a essa HTS?”, perguntou o delegado.

“Não, senhor”, disse Gilberto Chierice.

No fim do depoimento, o pesquisador perguntou. “Doutor, desculpe, só por curiosidade. O que é isso? Como eu fui arrolado? Se o senhor puder explicar mais ou menos.”

“Como a investigação não está correndo aqui, eu conheço só o que me foi passado para fazer a oitiva do senhor”, disse o delegado. “Em princípio, dos documentos que eu tenho aqui, é que o senhor estaria fazendo negócios com o senador.”

Gilberto Chierice gargalhou. “Não, não, nunca houve nada.”

“Saber por que razão ele estaria recebendo lucros de um trabalho que o senhor e sua equipe desenvolveram”, afirmou o delegado.

“Eu só vi esse senhor naquela mesa. Detalhe: o cabelo dele era branquinho”, disse o pesquisador. “Eu não sei da onde existiu a pegada minha do aeroporto para levar para ele. Eu não sei.”

“O senhor não recebeu nenhum e-mail, dizendo quando chegar no aeroporto?”, questionou.

“Não, nada, nada.”

“Como é que ele reconheceu o senhor no aeroporto?”, perguntou o delegado.

“Ele me viu. Não sei se o senhor me conhece, mas qualquer pessoa que chega: Aquele é o Gilberto. Eu sou mais conhecido que notinha de 2 cruzeiros”, afirmou Gilberto Chierice. “Agora ficou estranho isso para mim. Eu estava brincando com a minha esposa hoje. ‘Onde você vai?’, ‘Vou na Polícia Federal’, Ué, mas por quê?’, ‘Parece que tem um negócio que eu fui pego na Lava Jato’. Ela morreu de dar risada.”

COM A PALAVRA, A DEFESA DE GIM ARGELLO

O advogado Marcelo Bessa informou que não iria se manifestar.

 

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