PF flagra prefeito enfiando R$ 25 mil de propina na cueca

PF flagra prefeito enfiando R$ 25 mil de propina na cueca

Pepita Ortega / SÃO PAULO e Rafael Moraes Moura / BRASÍLIA

21 de dezembro de 2019 | 19h57

O momento em que o prefeito João Bosco Nonato colocaria R$ 25 mil em sua cueca. Foto: Reprodução

Ao longo da investigação sobre o pagamento de propinas envolvendo as obras da adutora Capivara, no sertão paraibano, a PF identificou 16 entregas de dinheiro em benefício prefeito de Uiraúna João Bosco Nonato Fernandes e do deputado Wilson Santiago (PTB-PB). Os pagamentos ocorreram diferentes locais de Brasília e da Paraíba e, em uma das ocasiões, os agentes flagraram Bosco colocando na cueca R$ 25 mil, que seriam posteriormente entregues a Santiago.

O parlamentar e o chefe do executivo municipal paraibano foram alvo da Operação Pés de Barro na manhã deste sábado, 21. O ministro determinou o afastamento do cargo de ambos e ainda decretou a prisão de João Bosco Fernandes.

Documento

O encontro em que o prefeito colocou dinheiro na cueca, ‘alegando que a camisa seria curta’, aconteceu no dia 23 de outubro no hotel ‘Vó Ita’ localizado no município de Souza, segundo a denúncia apresentada pelo procurador-geral da República em exercício José Bonifácio Andrada contra a dupla e mais cinco pessoas.

PF destacou o volume deixado pelas propinas na calça de João Bosco. Foto: Reprodução

A PGR indica que entre outubro de 2018 e novembro de 2019, a empresa Coenco Construções, responsável pela obra da adutora Capivara, pagou R$ 1,2 milhão em propinas ao parlamentar e R$ 633 mil em vantagens indevidas ao prefeito.

O documento diz ainda que, em tal encontro, o prefeito cobrou de George Barbosa, executivo da Coenco, R$ 200 mil que ainda estavam faltando das propinas acertadas no âmbito do esquema de desvio de recursos. O empresário, no entanto, explicou que só havia levado até o hotel R$ 25 mil para que João Bosco entregasse a Evani Ramalho, secretária parlamentar de Wilson Santiago, apontada como suposta gerente das propinas recebidas de George Barbosa.

O dinheiro que o prefeito João Bosco teria escondido na cueca. Foto: Reprodução

Depois, o Motorista da Secretaria de Governo e Articulação Política do Município de Uiraúna Severino Neto, também investigado no esquema, teria entregue o dinheiro para o motorista de Wilson Santiago, na noite do mesmo dia.

A denúncia que imputa aos investigados os crimes de corrupção e formação de organização criminosa, além de pedir o ressarcimento de R$ 14.894.713,74 aos cofres públicos, apresenta ainda relatos de outras 15 entregas de dinheiro, a maioria delas relacionadas a Evani Ramalho, suposta operadora das propinas.

Segundo a PGR, os encontros teriam acontecido em diferentes locais, incluindo estacionamentos de hotéis e supermercados, praça de alimentação de aeroporto e até mesmo a sede do Partido Trabalhista Brasileiro em João Pessoa. Confira a lista e as fotos:

  • Em data próxima ao dia 13 de setembro de 2019, no Subsolo do Edificio Holanda´s Prime em João Pessoa, Evani teria recebido, no interior de seu veículo, R$ 49.995,00 destinados a João Bosco;
  • Em data próxima ao dia 18 de setembro de 2019, no Subsolo do Edificio Holanda´s Prime em João Pessoa, Evani teria recebido, no interior de seu veículo, R$ 50 mil destinados a João Bosco;
  • Em 19 de setembro de 2019, no Gravatá Flat Hotel, em Cajazeiras, João Bosco e George se encontraram no interior de um quarto do hotel e o prefeito teria recebido uma sacola laranja com R$ 50 mil;
  • Em data próxima a 23 de setembro de 2019, na Pousada Verde Mar em João Pessoa, João Bosco e George se encontraram no interior no local e o prefeito teria recebido R$ 20 mil;
  • Em data próxima a 24 de setembro de 2019, dentro da sede do Partido Trabalhista Brasileiro em João Pessoa, João Bosco, Evani e George teriam se encontrado no local e o prefeito teria recebido R$ 40 mil;
  • Em data próxima a 25 de setembro de 2019, na garagem do subsolo do Edifício Holanda´s Prime em João Pessoa, Evani teria recebido R$ 40 mil destinados a João Bosco;
  • Em 27 de setembro de 2019, na garagem do subsolo do Pão de Açúcar, em João Pessoa, Evani teria recebido R$ 60.250,00 em espécie destinados a Wilson Santiago;
  • Em 3 de outubro de 2019, na sede do Partido Trabalhista Brasileiro em João Pessoa, Evani e Israel Nunes – secretário parlamentar de Wilson Santiago – teriam recebido de George R$ 25 mil destinados ao deputado. Israel teria sido responsável por levar a propina para o Distrito Federal;
  • Em 07 de novembro de 2019, na praça de alimentação do Aeroporto Internacional de Brasília, Israel Nunes teria recebido de George R$ 49,9 mil em uma mochila e depois levado o dinheiro até o Anexo IV da Câmara dos Deputados, onde fica o gabinete do deputado;

  • Em 07 de novembro de 2019, em um apartamento do Edifício Holanda´s Prime, Evani teria recebido R$ 50 mil destinados a Wilson Santiago;
  • Em 08 de novembro, no estacionamento do supermercado Pão de Açúcar em João Pessoa, Evani teria recebido R$ 50 mil em benefício de João Bosco;

  • Em 12 de novembro, no estacionamento do supermercado Pão de Açúcar em João Pessoa, Evani teria recebido R$ 50 mil destinados a João Bosco. Em seguida a mulher seguiu para a sede estadual do PTB;
  • Em 14 de novembro, na garagem do subsolo do Edifício Holanda´s Prime em João Pessoa, Evani se encontrou com um funcionário da empresa de George e teria recebido R$ 50 mil em espécie;

  • Em 22 de novembro, na garagem do subsolo do Edifício Holanda´s Prime, Evani recebeu R$ 50 mil destinados a João Bosco;
  • Em 11 de dezembro, no quarto 1317 do Hotel Kubitschek Plaza em Brasília, uma mulher não identificada recebeu R$ 30 mil em benefício de Wilson Santiago e depois seguiu para o apartamento do Deputado Federal para entregar o dinheiro;

COM A PALAVRA, O ADVOGADO LUÍS HENRIQUE MACHADO, QUE DEFENDE WILSON SANTIAGO

Quando a Operação Pés de Barro foi desencadeada, o advogado Luís Henrique Machado, que defende o deputado Wilson Santiago informou por meio de nota: “O deputado Wilson Santiago recebe com respeito e acatamento a decisão do Ministro Celso de Mello. Está absolutamente tranquilo e demonstrará, em momento oportuno, a inexistência de qualquer relação com os fatos investigados”.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO WILSON SANTIAGO

Quando a Operação Pés de Barro foi desencadeada, o deputado Wilson Santiago informou por meio de nota: “Na manhã de hoje fomos surpreendidos por Operação da Polícia Federal. A operação em questão foi baseada na delação do empresário George Ramalho, o qual foi preso em abril de 2019 na Operação Feudo. Segundo as informações preliminares, o delator iniciou no segundo semestre de 2019 a construção de um roteiro, que servisse como base para acordo que lhe favorecesse na operação que foi alvo de prisão. O delator busca a todo momento, construir relações que possam nos implicar de forma pessoal e criminalizar o trabalho parlamentar.

Fica evidente, que o delator usa um princípio jurídico que veio para ser um instrumento de promoção de justiça, como artifício para favorecimento pessoal e evitar condenação na Operação Feudo. Temos certeza que esse tipo ação criminosa será coibida. Não podemos aceitar que a ação política fique refém dessas práticas. Dessa forma, tomaremos as medidas cabíveis para que a verdade venha à tona, com o esclarecimento das questões objeto da investigação e nossos direitos sejam restabelecidos. Estamos a disposição da Justiça para colaborar em todo o processo.”

COM A PALAVRA, O PTB

Quando a Operação Pés de Barro foi desencadeada, o PTB informou por meio de nota: “Sobre a Operação Pés de Barro, deflagrada neste sábado (21) pela Polícia Federal, na qual investiga a suposta participação do deputado federal Wilson Santiago em irregularidades em obras no interior do Estado da Paraíba, o Partido Trabalhista Brasileiro informa que acompanhará o andamento das investigações. Por fim, o PTB espera que Wilson Santiago consiga provar sua inocência.”

COM A PALAVRA, OS DEMAIS INVESTIGADOS

A reportagem busca contato com a defesa dos demais investigados. O espaço está aberto para manifestações (pepita.ortega@estadao.com)

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