PF diz que empresário lava dinheiro na conta das próprias filhas

PF diz que empresário lava dinheiro na conta das próprias filhas

Mateus Coutinho

22 de abril de 2014 | 06h00

Relatório da Operação Fundo Perdido, sobre fraudes em fundos de previdências municipais, atribui crime de quadrilha a gestor da Plena Consultoria

por Fausto Macedo

A Polícia Federal suspeita que o empresário Celso Steremberg, alvo da Operação Fundo Perdido, usava contas bancárias das próprias filhas – uma delas universitária de 21 anos –, para lavar dinheiro. A informação consta de relatório da PF sobre suposta organização criminosa para fraudes com recursos de fundos de Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) de 107 municípios.

Steremberg é o controlador da Plena Consultoria e Investimentos, apontada pela PF como núcleo central de fraudes com dinheiro dos fundos de previdência de servidores públicos. A PF estima em R$ 30 milhões o volume de fraudes. Celso Steremberg e mais 29 investigados – entre pessoas físicas e jurídicas – estão com os bens bloqueados por ordem da Justiça Federal.

A Fundo Perdido foi deflagrada em março. Auditoria do Ministério da Previdência Social indica que a inserção da Plena nos municípios “dá-se de forma fraudulenta, mediante fraudes à licitação, tendo em vista que os valores que cobrava, em média R$ 600, eram irrisórios ante à responsabilidade que assumiam, eis que os recursos dos Regimes Próprios de Previdência Social cuja alocação em fundos auxiliava possuíam significativo montante”.

A PF monitorou os investigados durante meses. A interceptação telefônica e de e-mails foi executada em 7 fases. Os agentes seguiram os alvos da Fundo Perdido e deles fizeram imagens, como de Steremberg (veja fotos do empresário que a PF incluiu em relatório de inteligência).

“Vislumbra-se de forma clara a formação de uma grande quadrilha em torno da estrutura empresarial da Plena, organizada profissionalmente para o cometimento de crimes de fraudes à licitação, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro”, assinala a PF.

No curso da investigação, a PF identificou uma funcionária fantasma da Assembleia Legislativa de São Paulo que integrava os quadros da Plena. O rastreamento mostra que entre 2008 e 2013 ela realizou 26 viagens internacionais, para os Estados Unidos (Dallas, Miami e Nova York), Madri, Paris e Buenos Aires. A investigada ocupa cargo de confiança no gabinete de um deputado.

No organograma da organização, a PF coloca em destaque a família Steremberg – Celso, a mulher e duas filhas. “Celso é um dos principais investigados em razão de sua posição de destaque na organização criminosa”, afirma a PF, à página 70 do relatório, ilustrada com fotos da família Steremberg. “Sua família tem papel de relevo uma vez que é através de suas filhas que ele lava parte do dinheiro ilícito ganho com as atividades da Plena.”

A PF interceptou e-mail de 1.º de novembro de 2013, às 13h4, enviado por uma filha de Steremberg para uma amiga em que ela diz que foram gastos R$ 100 mil em despesas com a mudança de casa, no Itaim.

“Uma das formas de ocultar a origem ilícita de seus ganhos é a utilização de contas correntes de interpostas pessoas, dentre elas destaca-se (a filha de Steremberg)”, sustenta a PF. Um dos alvos da PF é o PauliPrev, Instituto de Previdência dos Funcionários Públicos do Município de Paulínia (SP), que contratou a Plena.

A PF suspeita de licitação fraudada.

Relatório de Inteligência da PF aponta que Steremberg “manteve contato constante com todos os que participaram do certame”. A interceptação telefônica mostra que o empresário conversou “diversas vezes” com o diretor presidente da PauliPrev, Mário Lacerda Souza, “seja por telefone ou pessoalmente”.

COM A PALAVRA A DEFESA DA PLENA CONSULTORIA.
O criminalista Sérgio Rosenthal, que coordena a defesa da Plena Consultoria e de seus gestores, rechaçou as suspeitas sobre o empresário Celso Steremberg.

Ele afirmou que a atividade da Plena “não tem absolutamente nada de ilícito”. O criminalista argumenta que todos os fatos serão esclarecidos.

COM A PALAVRA, A PREFEITURA DE PAULÍNIA

ESTADO: Quem administra o Regime de Previdência de Paulínia?

PREFEITURA DE PAULÍNIA: O Instituto de Previdência dos Funcionários Públicos de Paulínia (PauliPrev) realiza sua gestão e, consequentemente todas as suas tomadas de decisão com uma estrutura formada pelos Conselhos Administrativo e Fiscal, Comitê de Investimentos e Diretoria.

ESTADO: Qual a versão do gestor sobre as suspeitas de fraudes levantadas pela Operação Fundo Perdido?

PREFEITURA: Desde que a nova gestão assumiu, em julho de 2013, todas as decisões de investimentos são tomadas pelo Comitê de Investimentos, Conselho Administrativo e Diretoria da Pauliprev, baseadas em estudos técnicos e, até o momento todos os rendimentos estão compatíveis com o mercado financeiro. Além disso, todos os fundos e aplicações são submetidos à fiscalização do órgão regulador (Comissão de Valores Mobiliários).

ESTADO: Esclarecimentos que entender necessários

PREFEITURA: O Tribunal de Contas do Estado realizou uma fiscalização específica no instituto em outubro de 2013, e nada encontrou de irregular nas aplicações feitas pela atual gestão. O Ministério da Previdência fez uma auditoria específica nos investimentos em outubro de 2013, que compreendeu o período de agosto de 2012 a 30 de agosto de 2013 e nada encontrou de irregular nas aplicações feitas pela atual gestão. Também, a nova gestão do instituto contratou os serviços de auditoria independente, a empresa Price Waterhouse Coopers (PWC), que realizou um trabalho de diagnóstico financeiro e contábil nas demonstrações financeiras do Instituto Pauliprev para o período de agosto de 2012 a novembro de 2013.

Os trabalhos foram realizados entre 27 de janeiro e 26 de março de 2014 e as recomendações de melhoria sugeridas pela consultoria estão sendo implementadas e adotadas pela Administração do Instituto.

Abaixo um trecho do relatório da PWC: “Com relação aos investimentos, em 30 de novembro de 2013 a carteira de investimentos estava devidamente enquadrada na Resolução Bacen 3922 e não foi encontrado nenhum tipo de ativo ou Aplicação Financeira cuja recuperabilidade/ realização esteja em risco. Além disso, a cada três meses as contas do instituto são submetidas ao a verificação do Conselho Fiscal. E no período da atual gestão todas as contas foram aprovadas.”

VEJA IMAGENS DO RELATÓRIO DA PF: