PF diz que Allan dos Santos tentou emplacar nome na Secretaria de Radiofusão e negociou programa para a TV Brasil

PF diz que Allan dos Santos tentou emplacar nome na Secretaria de Radiofusão e negociou programa para a TV Brasil

Em relatório, Polícia Federal aponta proximidade do blogueiro com o deputado Eduardo Bolsonaro e afirma que 'objetivos antidemocráticos' devem ser interpretados em conjunto com o interesse em ganhar espaço na área de comunicação do governo federal

Rayssa Motta, Pepita Ortega e Fausto Macedo

05 de junho de 2021 | 17h00

Dono do portal Terça Livre, o blogueiro Allan dos Santos é apontado no inquérito dos atos antidemocráticos como alguém com trânsito entre parlamentares bolsonaristas e servidores de baixo escalão do governo federal. Segundo a Polícia Federal, ele pretendia usar o canal aberto para tentar emplacar um nome na Secretaria de Radiodifusão. A ideia, ainda de acordo com a investigação, era usar o deputado Eduardo Bolsonaro, filho 02 do presidente, para ‘abrir portas’ aos interesses de seu blog.

A PF aponta que o nome pensado para assumir o cargo é o da advogada e comunicadora Júlia Zanatta, que foi candidata a prefeita de Criciúma (SC) pelo Partido Liberal nas eleições do ano passado. Em mensagens trocadas com Allan, ela chega a dizer que ‘temos que tomar essa secretaria’. Na mesma conversa de WhatsApp, Júlia sugere que o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, estaria embargando a indicação. “O Duda me falou: “Tem alguém no meio”. Esse alguém é Marcos Pontes e os veículos que eles já estão amiguinhos (sic)”, diz a mensagem atribuída à advogada.

Em conversa com Eduardo Bolsonaro, o blogueiro chega a dizer que a advogada ‘precisa’ assumir a secretaria e afirma que o presidente Jair Bolsonaro concordou com a indicação. “Só acredito vendo”, emenda Allan. Ao que o deputado responde: “Vou sondar. Vamos ver a receptividade”. Na mesma troca de mensagens, o dono do Terça Livre diz que ‘ainda assim, precisamos da SECOM para implementar uma ação que desenhamos aqui’.

O Estadão teve acesso aos volumes do inquérito. A investigação indica ainda que Allan dos Santos entendia que a Secretaria Especial de Comunicação (Secom), chefiada na época pelo publicitário Floriano Amorim, era importante para o ‘alcance dos objetivos do canal Terça Livre’. As mensagens obtidas pela PF apontam que Eduardo Bolsonaro fez a ponte entre publicitário e o blogueiro. Depois disso, os dois chegaram a marcar encontros presenciais no gabinete de Eduardo na Câmara e a trocar mensagens e ligações para discutir propostas do dono do Terça Livre para programas de rádio, programa de entrevista para a TV Brasil, documentários e programação infantil.

No relatório parcial mais recente sobre a investigação, elaborado em dezembro, a Polícia Federal chegou a afirmar que articulação de Allan transcende a ‘mera difusão de ideias’. O documento cita como exemplo anotações apreendidas no escritório do blogueiro, que registravam: “objetivo: materializar a ira popular contra os governadores/prefeitos”; “fim intermediário: saiam às ruas”; e “fim último: derrubar os governadores/prefeitos”.

A PF observa ainda que os ‘objetivos antidemocráticos’ externados nos manuscritos apreendidos com Allan têm de ser interpretados em conjunto com o interesse em obter espaço junto à área de comunicação do governo federal.

“É sobre esse enfoque que a CPMI das Fake News e o presente inquértio direcionaram a atenção para os critérios empregados pela Secom no repasse de recursos públicos federais a canais ditos ‘bolsonaristas’, situação ainda pendente de esclarecimento. Além disso, é fato notório que houve um aumento significativo do número de seguidores de determinados canais dessa vertente, impactando em razão direta no aumento da monetização”, registra a PF.

Em setembro, o Estadão revelou mensagens trocadas por Allan dos Santos com o tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, chefe da Ajudância de Ordem da Presidência e assessor do presidente Jair Bolsonaro, em que o blogueiro afirma que as Forças Armadas ‘precisam entrar urgentemente’ – a declaração teria sido enviada por WhatsApp um dia depois de grupos autodenominados antifascistas protestarem contra o governo, no final de maio do ano passado.

Em outra conversa entre os dois, transcrita em volume mais recente do inquérito, Allan dos Santos defende o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, um dos nomes da chamada ala ideológica do governo. Segundo o blogueiro, o ex-ministro desagravou o presidente Jair Bolsonaro. “Conversei com o PR [Presidente da República], retirar o Abraham seria um tiro no pé. Ele acha que o Abraham está em campanha eleitoral”, afirma o blogueiro.

O tenente-coronel diz que Weintraub ‘está se queimando’. “Por se aproximar o POVO?”, questiona o blogueiro. “Só o POVO unidos às FFAA podem varrer os inúmeros criminosos que hoje mandam no país. Barroso e Alexandre VÃO DAR UM GOLPE no Presidente e acabar esse país. Sem o braço armado (FFAA), Cid, como defenderei meus filhos? (sic)”, emenda Allan dos Santos.

O blogueiro se manifestou nas redes sociais sobre o inquérito depois que a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento da apuração em relação a parlamentares bolsonaristas por considerar que a Polícia Federal não conseguiu delimitar a investigação. “Os autos deste inquérito são provas de inúmeros crimes de abuso de autoridade cometidos por um membro da cúpula do Judiciário”, escreveu.

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